Gisele não queria vestir a filha só de rosa e criou a Rules Babys: para bebês com atitude

Anna Haddad - 14 jan 2016 Gisele Soares, criadora da Rules Baby, deu uma banana para o mundo fechado da moda e inventou o próprio caminho.
Gisele Soares, criadora da Rules Baby, deu uma banana para o mundo fechado da moda e aposta num caminho com mais atitude e mais verdade (foto: Thaís Christine).
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Gisele Soares tem 29 anos. Nascida na Zona Leste de São Paulo, se formou em design de moda e tecnologia têxtil. Sua história é parecida com a de muitas outras meninas que trabalham com a indústria da moda. Ao se formar, viu que o mercado não era tão acolhedor. “Sempre procurei trabalhar na área, mas é bem difícil. Só pessoas formadas nas melhores faculdades conseguem trabalhar direto no ramo criativo”, conta. Ela acabaria criando a Rules Babys, uma marca de roupa infantil inspirada na cultura de rua e sem distinção entre as peças para menino ou menina.

Mas, lá atrás, recém formada, Gisele passou cinco anos no escritório das lojas Marisa, trabalhando no setor de compras, uma área cheia de burocracia e com pouco espaço para criatividade. “Nunca deixei de desenvolver produtos meus. Bolsas, caixinhas de madeira, várias coisas manuais. Estava sempre pensando em qual seria o meu negócio, mas não tinha muito tempo para fazer isso com o dia dia intenso de trabalho.”

Até que em 2012 nasceu Ana Clara, hoje com 3 anos. Pans (apelido do pai, Adriano Messias, 30) é grafiteiro e o casal, que se conheceu num evento de rap, está sempre envolvido em eventos de rap e hip hop, como o Master Crew. “Queríamos que a Ana nos acompanhasse”, diz. Gisele procurava para a filha roupas que conversassem com o seu estilo de vida, mas não encontrava nada: “Quando a gente ia nas lojas comprar roupa para ela, as vendedoras já empurravam coisas rosas, só porque ela era menina”.

A solução foi instintiva para Gisele, que desde pequena customizava as próprias roupas junto com a irmã Pamela, 26, também formada em design de moda: ela comprou um body e estampou a marca do Wu-Tang, grupo de hip hop de Nova York.

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Ana Clara, aos três meses, vestindo o primeiro body produzido por Gisele. O pai, Pans, usa a mesma estampa.

Em seguida, publicou a foto ao lado no Facebook: “Assim que postei, a galera pirou e começou a fazer pedidos de bodies e camisetas com estampas de bandas. Falei com o Pans que tínhamos que trabalhar nisso, para ter uma renda extra”.

Gisele ainda trabalhava na Marisa e Ana tinha apenas três meses. Ainda assim, ela e o namorado se organizaram como puderam e desenvolveram, com a ajuda de parentes e amigos, o nome da marca, a identidade visual e uma fanpage no Facebook.

O nome, Rules Babys, veio da ideia de liberdade e atitude, e a tipografia foi toda inspirada no pixo (como a cultura de rua se refere à pichação) e no hip hop. Depois de um tempo, veio o site, que facilitou bastante o processo de venda das peças.

MAS… ISSO É ROUPA DE MENINO OU DE MENINA?

Com o amadurecimento e expansão do negócio, aconteceu uma virada no conceito. No começo, as peças eram compradas prontas e apenas estampadas por Gisele. “A ideia era só produzir peças fora do comum, baseadas na cultura hip hop e que traduzissem atitude.” Até que, em dezembro de 2014, na festa de uma amiguinha de Ana, Gisele foi questionada sobre a aparência da filha, que vestia uma regata preta com temática de Rap.

“Uma pessoa perguntou se a Ana era menino ou menina. Comecei a pensar mais nisso. O que é roupa de menino, o que é roupa de menina? Quem disse como tem que ser? Por que eles não podem vestir o que quiserem?”

Sua irmã, Pamela, lhe disse que ela deveria vestir a Ana “como uma menina”, ou seja, de saia, com brincos e laço. O questionamento fez bem. Fez Gisele pensar e pesquisar sobre o que poderia fazer. Essa reflexão trouxe uma mudança significativa no conceito da marca e na complexidade dos produtos.

As peças da Rules Babys são inspiradas na cultura de rua e não têm distinção entre menino e menina.

As peças da Rules Babys são inspiradas na cultura de rua e não têm distinção entre menino e menina e estampam frases como “Quem não chora não mama” e “Não sabe brincar, não desce pro play” (foto: Thaís Christine).

Gisele foi estudar o mercado e encontrou inspiração em marcas como a americana Baby Teith, a Princess Free Zone (que tem o mote “as meninas não são todas iguais”) e a inglesa Baby Bandits. “Eu sentia falta de fazer algo que fosse ainda mais único. Então, começamos a produzir as peças de cabo a rabo, desde modelo, criação, estampa, tudo”, diz Gisele.

Ao investir em maquinário próprio e abraçar toda a produção, a rotina ficou ainda mais exaustiva, como ela conta: “Eu já estava bastante frustrada e cansada há algum tempo. Tinha que me deslocar todos os dias da Zona Leste até a Barra Funda, e a Ana ficava com o Pans. Perdi muitas fases do desenvolvimento dela por causa do trabalho, não a vi aprender a andar ou falar, por exemplo”.

Às vezes, a mudança que a gente quer vem sem que tenhamos de dar o primeiro passo. Em junho de 2015, Gisele foi demitida do emprego e passou a se dedicar exclusivamente à marca. E à Ana.

UM NEGÓCIO FAMILIAR E OUSADO, COM SEUS PRÓS E CONTRAS

A oficina da Rules Baby, então, passou a operar oficialmente na casa da mãe de Gisele, Maria do Socorro Xavier, 47, na Zona Leste, e só no fim de 2015 foi para um galpão maior. O trabalho também está em família. Enquanto Gisele cuida de várias partes do processo, como desenvolvimento do conceito, modelagem, produção e controle financeiro, Alice Xavier, 15, outra irmã, cuida da comunidade nas redes sociais (além do Facebook, há um Instagram da marca). Deyse Galvão, 38, namorada da mãe de Gisele, ajuda na costura e Pans é o responsável pela logística de entregas. A única funcionária fora da família é Dilla Braga, 37, modelista, colega de Gisele que trabalha na Marisa.

Além de trabalhar com a família, agora a filha está sempre por perto. “A Ana está sempre junto, na oficina. Isso que é o mais gostoso. Tirei ela da escolinha por um tempo, para conseguir passar mais tempo junto e me dedicar mais”, conta Gisele.

As peças da Rules Baby são inspiradas na cultura de rua. Macacões custam 69,90 reais.

As peças da Rules Babys são inspiradas na cultura de rua. Os macacões custam 69,90 reais e as calças sarue, 64,99 (foto: Thaís Christine).

A história da mãe de Gisele, Maria do Socorro, com Deyse também tem a ver com o que a marca prega: atitude. “Minha mãe foi casada duas vezes e o último casamento, com meu padrasto, durou 15 anos. Ele usava drogas e era violento com ela. Ela saiu da relação fugida, foi muito traumático. Aí, conheceu a Deyse, e morria de medo de nos contar do relacionamento, mas a gente quer que elas sejam felizes”, diz a filha.

Deyse passou a costurar por influência de Gisele. Sofre preconceito constante ao buscar emprego no mercado de trabalho tradicional, por ter aparência masculina e não ser identificada como uma mulher. “É comum deixarem de contratar gente com muita garra e um currículo incrível por causa da aparência e de preconceitos. O mercado precisa quebrar esse tabu”, diz Gisele.

A empreendedora conta que o que faz a sua marca ser única é também, muitas vezes, um empecilho para que a operação ganhe escala:

“É difícil emplacar nosso conceito. Todo mundo acha lindo, mas nem todos querem vestir o filho de um jeito diferente. Ainda existe muito preconceito”

Ela conta que percebe insegurança das pessoas na hora de comprar as peças Rules Babys online. “As pessoas ainda preferem conversar antes, me adicionar nas redes socias, tirar dúvidas. Muitos clientes acabam virando amigos.”

Entre as peças há um babador atoalhado com estampa de caveirinha (24,99 reais), uma touca listrada com pompom (24,99 reais cada). Uma bermuda simples sai por 39,99 reais. Os macacões, por 69,99 e as calças saruel, 64,99. A peça mais cara é um moleton bicolor, que custa 139,99 reais. A Rules Babys comercializa cerca de 50 peças por mês, o que gera uma receita média de 6 mil reais.

Aos poucos, a empresa vai se consolidando. E Gisele percebeu que, muito mais do que criar uma opção de moda para quem não quer vestir as filhas todos os dias de cor de roa, ela está engajada em uma causa maior: “Estou plantando uma semente com o meu trabalho e mostrando para a Ana que ela pode ser o que ela quiser”.

Quando questionada sobre a satisfação e a rotina de trabalho, Gisele menciona a importância de um movimento crescente de mães empreendedoras, que estão deixando o mercado tradicional de trabalho e explorando a economia criativa para conseguirem ficar mais perto de seus filhos. “Esse movimento de resgate nos fortalece”, diz Gisele, com uma atitude que vem de berço e quer ganhar o mundo.

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  • Projeto: Rules Baby
  • O que faz: Roupa infantil alternativa
  • Sócio(s): Gisele Xavier e Adriano Messias
  • Funcionários: 6 (incluindo os sócios)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: março de 2013
  • Investimento inicial: R$ 1.000
  • Faturamento: R$ 6.000 mensais, em média
  • Contato: (011) 98163-6065 e [email protected]
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