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Incomodada com as roupas de ciclismo disponíveis no mercado, ela criou um short-saia que prioriza o conforto e o estilo

Dani Rosolen - 30 mar 2026 Leticia Nakano, fundadora da Momotaro e cofundadora do Vespas Bike Gang.
Leticia Nakano, fundadora da Momotaro e cofundadora do Vespas Bike Gang.
Dani Rosolen - 30 mar 2026
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Pedalar mudou a vida de Leticia Nakano, 33. E isso não é só modo de falar:

“A bicicleta entra como um elemento transformador, não só na minha rotina, mas na forma como entendo a cidade, o corpo e o próprio trabalho”

Artista visual de formação, a paulistana sempre esteve muito conectada ao universo da moda, envolvendo-se em projetos e cursos na área ainda na época da faculdade. “Me interessava muito entender como as pessoas constroem identidade através das roupas”, diz.

Quando adotou a bike, ela já sabia costurar e foi esse misto do encanto pela moda como linguagem e o envolvimento com a criação de um coletivo de pedal feminino que impulsionaram a fundação da Momotaro, marca de roupas e acessórios para mulheres ciclistas.

O nome faz alusão a uma lenda do folclore japonês: “A história fala de um menino que nasce de um pêssego e que carrega uma ideia de transformação, de mudar o próprio destino”, diz Leticia.

Existe também uma conexão pessoal com o tema, já que o avô de Leticia plantava pêssegos. “Ele sempre foi uma referência muito forte de alguém que, com simplicidade e trabalho, conseguiu transformar a própria realidade.” 

ELA DECIDIU COMPRAR UMA BIKE PARA IR TRABALHAR SEM SABER QUE ISSO MUDARIA SUA VIDA

Em 2018, Leticia atuava como professora em uma escola próxima de sua casa e achou que seria prático comprar uma bike para se deslocar até o trabalho. 

“Como tantas mulheres, fui educada muito mais para me preservar do que para ocupar espaços, então pedalar já era por si só um desafio simbólico grande de ruptura de padrões”

Ela não se intimidou e foi atrás de um grupo de pedal para poder se aprimorar e estar junto de quem vivia essa mesma experiência. Leticia começou pedalando em um grupo misto, mas se decepcionou com a sua dinâmica:

“Me incomodava perceber um ambiente muito mais competitivo do que acolhedor, o que ia na contramão do que a bicicleta representava para mim”.

O INCÔMODO COM O MACHISMO NO UNIVERSO DO CICLISMO A FEZ COCRIAR UM GRUPO DE PEDAL SÓ PARA MULHERES 

Esse machismo não era, de fato, uma novidade para ela: 

O ciclismo sempre foi e ainda é um esporte, como muitos, historicamente pensado para homens. A maioria dos produtos reflete essa informação: desde os bancos da bicicleta projetados para a anatomia masculina até a dificuldade de encontrar quadros para pessoas mais baixas”

A criação do Vespas Bike Gang nasceu como uma resposta direta a essa questão: Leticia se juntou a outras integrantes desse grupo misto para criar um coletivo de pedal destinado apenas ao público feminino – e hoje ocupado por mulheres cis, trans e pessoas não-binárias.

Desde o começo, o Vespas foi pensado para ser um espaço seguro e acessível, acolhendo principalmente quem está começando no pedal. “A rota é planejada, o grupo anda junto, existem pontos de apoio. Tudo isso para garantir que qualquer pessoa, mesmo sem experiência, se sinta confortável para ocupar a rua.”

O coletivo mudou a forma como Leticia e outras tantas integrantes enxergavam a bike, que passou a ser mais do que um meio de transporte e se transformou em uma forma de viver a cidade. 

“Comecei a perceber o espaço urbano de outro jeito, a me relacionar com o meu corpo com mais presença e a construir uma sensação de autonomia que não tinha experimentado antes”

Com o tempo, diz Leticia, o Vespas deixou de ser só um grupo de pedal: “Virou uma rede: muitas pessoas chegam ali em momentos de transição, buscando recuperar autonomia, confiança e autoestima”.

QUANDO O GUARDA-ROUPA DEIXA DE FAZER SENTIDO

O pedal, no entanto, trouxe também impactos na maneira como Leticia e outras integrantes do coletivo se vestiam. Desde que começou a pedalar, ela teve dificuldades de encontrar peças de roupa que a agradassem. 

“Em qualquer loja, existiam várias opções para homens. Se para eles havia seis tipos de shorts, para mulheres, apenas um – e eram peças muito estereotipadas, que não conversavam com a diversidade de estilos e de corpos que eu via ao meu redor”

Essa percepção não era só dela. “Uma frase que eu ouvia muito das vespas’, meio em tom de brincadeira, mas que dizia bastante era: ‘Minha vida mudou, mas meu guarda-roupa morreu’.

No fim, o “uniforme” acabava sendo sempre roupa preta com cara de lycra esportiva ou peças que não representavam quem as ciclistas eram.

O descontentamento coletivo virou um chamado e uma oportunidade de mercado. As amigas sabiam que Leticia já tinha uma relação com a moda e começaram a provocá-la para criar algo que atendesse a essa necessidade. 

COM O APOIO DE UMA BOLSA CRIATIVA, LETICIA CRIOU UM SHORT-SAIA QUE TRANSITA ENTRE O PEDAL E O DIA A DIA 

Leticia topou o desafio proposto pelas vespas com uma ideia em mente: “Não era só sobre roupa para pedalar, mas sobre conseguir viver a vida através da bike ainda expressando seu estilo”.

Ele conta que muitas das integrantes do grupo falavam da vontade de usar algo que não fosse tão marcado pelo código esportivo tradicional, mas que ainda funcionasse para pedalar de verdade.

A partir da própria vivência, dessa escuta e de um processo de pesquisa, ela desenvolveu então um short-saia. Sem formação em moda, Leticia conta que enfrentou alguns desafios, entre eles a modelagem e desenvolvimento de produto, bem como aprender a escolher os tecidos ideais e fornecedores. “Busquei cursos, mas fui construindo esse conhecimento testando, perguntando e errando.”

Para tirar a ideia do papel, ela se inscreveu, em 2025, na primeira edição no Brasil do Soho Futures Grant, iniciativa do clube social Soho House para ampliar o acesso de mulheres que enfrentam barreiras de inclusão às artes e ao mercado criativo.

As finalistas do Soho Futures Grant: Naiá Tupinambá, Leticia Nakano, Jennyffer Bransfor Tupinambá, Nathalia Rosa, Amanda Cassia Dias e Dariely Belke (a partir da esq.)

Leticia foi uma das cinco finalistas que receberam uma bolsa de até 2 mil libras, além de mentoria e um ano de acesso a Soho House e suas atividades.

“Foi um ponto de virada importante. Além do suporte, a iniciativa me colocou em contato com uma comunidade criativa muito diversa, o que ampliou as trocas e a forma de pensar a marca”

Com o suporte da bolsa, ela pôde investir em testes de tecido, modelagem, validar e ajustar a proposta a partir da experiência de uso de pessoas que pedalam, produzindo um lote de 40 peças. 

UMA ESPUMA PARA CORPOS COM VULVA E OUTROS DIFERENCIAIS DO SHORT-SAIA DA MOMOTARO

O short-saia da Momotaro foi produzido em tecido 100% poliamida, com proteção UFP50+, e tem atributos pensados por e para mulheres que pedalam. Aqui dá para ver Leticia explicando em detalhes a sua criação. A parte interna da roupa, por exemplo, já mostra um dos diferenciais: 

“Ela tem uma espuma pensada para corpos com vulva, o que muda completamente o conforto, principalmente para quem está começando ou quer pedalar por mais tempo”

Outro ponto de atenção está no recorte da saia, que acompanha o corpo em movimento sem expor o bumbum da ciclista. “Além disso, o cós não pressiona a barriga quando a pessoa está inclinada na bike e existem bolsos laterais que fazem diferença no uso cotidiano.”

Leticia também pensou a peça para ser flexível ao uso em diferentes ambientes:

“Era importante que não fosse uma peça com cara de roupa esportiva tradicional. Existe um cuidado para que ela transite entre o pedal e outros momentos do dia, sem que a pessoa precise se transformar para usar”

A peça, que custa 420 reais, está disponível nas cores branca e preta, do tamanho PP ao G2 (para contemplar mais corpos dentro desse universo).

O short-saia da Momotaro (e o boné) em duas cores.

Além do short-saia, a Momotaro lançou um boné (99 reais) e a momotira (79 reais), um acessório que é preso ao calcanhar de quem pedala de calça para evitar que a roupa fique suja de graxa ou rasgue ao se prender na corrente. 

COM RETORNOS POSITIVOS DAS CICLISTAS, ELA JÁ PLANEJA CRIAR PEÇAS PARA ALÉM DO MUNDO BIKER

O short-saia da Momotaro foi lançado em dezembro de 2025, em um evento em São Paulo. De lá pra cá, Leticia coletou alguns feedbacks que a deixaram animada com a aceitação:

“Muita gente fala da modelagem, do conforto e do toque do tecido, mas o que mais aparece é como ela funciona no dia a dia. Os bolsos, por exemplo, viraram um ponto importante”. 

Entre os diferenciais do short-saia da Momotaro estão os bolsos laterais e a espuma na parte de trás.

Embora a marca ainda seja nova, a empreendedora já tem planos para o futuro: 

“Quero continuar a criar peças que realmente façam sentido para quem pedala, mas que também acompanhem uma vida ativa de forma mais ampla, não necessariamente restrita ao ciclismo”

Ela também deseja ter um espaço físico onde a marca possa existir para além dos produtos, como uma experiência. E para o coletivo Vespas, sua meta é que o grupo siga expandindo as possibilidades de encontro. 

“O pedal continua sendo o centro, mas existem muitas outras formas de construir essa sensação de pertencimento, seja através de eventos, ativações ou outros formatos de troca.”

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