Depois de ser assediada por um motorista, ela criou o próprio aplicativo para que outras mulheres não passem pela mesma situação

Marília Marasciulo - 19 jul 2022
Gabryella Corrêa, fundadora da Lady Driver.
Marília Marasciulo - 19 jul 2022
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Em 2016, a nutricionista Gabryella Corrêa vivia no Rio de Janeiro e passava por um período ruim, sem trabalho e com dívidas por conta de uma experiência empreendedora que deu errado.

Essa má fase piorou quando, certa noite, ao chamar um carro de aplicativo para levá-la a um bar, Gabryella acabou sendo assediada pelo motorista. 

Traumatizada e com medo, ela optou por não denunciar o homem: ele, afinal, sabia onde ela morava. “Acabei engolindo a minha dor e pensei: vou criar alguma coisa para que outras mulheres não passem por isso”, diz.

Foi assim que surgiu, em 2017, a Lady Driver, um aplicativo de transporte exclusivo para mulheres, tanto motoristas quanto passageiras. Gabryella afirma:

“A gente já fez mais de 8 milhões de corridas, e nunca tivemos um caso de violência no aplicativo, assédio, agressão… Nada”

A Lady Driver opera hoje em São Paulo e Sorocaba (SP), mas está colocando em prática um ambicioso plano de expansão (contamos mais adiante). Segundo a empreendedora, o app soma 2 milhões de downloads.

Ao empreender a startup, Gabryella quebrou uma promessa que tinha feito a si mesma.

“Tinha jurado que nunca mais iria empreender na vida… Mas quando surgiu a ideia, não desisti, porque tem um propósito [por trás do negócio].”

SEM EXPERIÊNCIA NA CONSTRUÇÃO CIVIL, GABRYELLA RESOLVEU SE ARRISCAR NO SETOR – E ACABOU FALINDO

Gabryella é paulistana, nascida e criada na Zona Norte. Embora formada em nutrição, conviveu desde cedo com o dia a dia do pai, que teve uma oficina mecânica, uma loja de autopeças e uma transportadora na Vila Guilherme. 

“Desde criança e adolescência trabalhei nesse meio com ele. Tive uma proximidade grande com essa parte de autopeças, carros, fiz curso de mecânica para entender mais sobre negócio.”

Em 2010, o pai parou de trabalhar e acabou que ninguém assumiu os negócios da família. Gabryella viu então uma oportunidade para empreender no setor de construção civil, que na época estava muito aquecido. Abriu uma empreiteira, em São Paulo. 

“Como eu já tinha trabalhado em um setor masculino, achava que seria parecido e fui me arriscar. Mas eu não tinha experiência, e sofri machismo naquele ambiente… foi complicado”

Depois de dois anos, ela faliu por problemas de fluxo de caixa, com uma dívida de 100 mil reais. Decidiu então trabalhar como nutricionista.

Acabou contratada, em 2016, por uma construtora para coordenar a alimentação no canteiro de obras para as Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro. Comandava uma cozinha de 3 mil metros quadrados que servia 12 mil refeições por dia em sete restaurantes. 

Foi seu último trabalho antes de sofrer assédio e resolver criar a Lady Driver.

TENTE OUTRA VEZ: DECIDIDA A EMPREENDER DE NOVO, ELA ESTUDOU GESTÃO E OUVIU POTENCIAIS USUÁRIAS DO APP

Decidida a entender o que tinha dado errado com seu primeiro negócio, ela estudou gestão financeira na Fundação Getulio Vargas. 

Essa bagagem capacitou Gabryella a formular a Lady Driver com mais segurança. Além disso, ela foi ouvir algumas das principais interessadas no serviço que ela queria criar.

“Comecei a conversar com motoristas para entender o que faltava, e com outras mulheres que seriam potenciais motoristas, mas não estavam dirigindo.”

Segundo a empreendedora, algoritmos ajudam a garantir que as usuárias da Lady Driver são todas mulheres. 

“Acho que mulher não dirige em app por falta de segurança, por não saber para onde vai, por medo do app a colocar em bairros perigosos… Ela prefere dirigir em lugares e com um público que se sinta segura”

O desenvolvimento durou dez meses. Com a ferramenta pronta, o primeiro passo foi pedir a autorização na Secretaria de Transportes da Prefeitura de São Paulo. Ela conta que a ideia foi muito questionada lá dentro. Por que um aplicativo só para mulheres? 

“Até que uma mulher que trabalhava lá convenceu eles a liberarem. No universo masculino, ninguém entendia a necessidade…”

Assim, o app foi lançado oficialmente em 8 de março de 2017, com 1,8 mil motoristas e atuação restrita à capital paulista. 

UM SÓCIO CHEGOU PARA TRAZER EXPERTISE EM TECNOLOGIA, CUIDAR DA ÁREA E AJUDAR A COLOCAR A EMPRESA DE PÉ

Outro ensinamento do passado foi buscar um sócio, alguém que complementasse suas habilidades. 

Gabryella convidou o engenheiro José Reinaldo Pereira, que já tinha uma experiência em desenvolvimento de sistemas e projetos. 

“Eu não conhecia nada de tecnologia, ele conhecia mais do que eu. Mas foi um desafio da mesma maneira. Por mais que ele conhecesse, um aplicativo de mobilidade exige tecnologias complexas, caras”

Com o dinheiro da rescisão e a participação do sócio (que até hoje permanece no negócio, responsável pela frente de tecnologia), eles abriram a empresa com um capital de 500 mil reais. 

Um mês após o lançamento, Gabryella foi atrás de mais recursos. Captou 1 milhão de reais com amigos e investidores-anjos e consolidou uma equipe, inicialmente com três desenvolvedores, quatro pessoas no atendimento e uma no marketing. 

“Até então eu não sabia como fazer uma boa apresentação, um bom pitch… Tive que aprender na prática tudo sobre startup.”

DOIS DESAFIOS: DESENVOLVER UM SISTEMA MAIS ROBUSTO E SUPERAR O ISOLAMENTO SOCIAL NA PANDEMIA

No segundo ano de operação, ao final de 2018, o aplicativo chegou a 35 mil motoristas e 200 mil passageiras.  

Então começaram a surgir problemas técnicos. A tecnologia do sistema era simples demais, passou a não dar conta de tantas corridas. 

Uma plataforma mais moderna começou a ser desenvolvida; enquanto isso, o aplicativo antigo continuava rodando. 

“Não é fácil mudar a tecnologia, mas conseguimos fazer”, diz Gabryella. “Foi um momento difícil, mas necessário para escalar a empresa.”

Essa segunda versão do app ficou pronta no começo de 2019. Até que, um ano depois, em março de 2020, a pandemia chegou ao Brasil. E subitamente, (quase) todo mundo se trancou em casa… 

“Era o mês da mulher, a gente estava bombando, crescendo muito em motorista e passageiras…. Eu, como líder, pensei: isso [a pandemia] vai acabar, uma hora as pessoas vão voltar para as ruas”

A Lady Driver aproveitou para se preparar para a retomada, criando novas funcionalidades e novos modelos de negócios. 

UMA FUNÇÃO DE AGENDAMENTO HOJE FACILITA A VIDA DE PASSAGEIRAS E MOTORISTAS

Nasceram da pandemia dois novos serviços dentro do mesmo app: o Lady Kiddos, para transporte de crianças acima de 8 anos; e o Lady Care, para idosos (homens e mulheres) acima de 65 anos. 

“Estas corridas são corridas agendadas, [no caso da Lady Kiddos] é a mãe que agenda para o filho. Ela entra no aplicativo, escolhe os dias e pode agendar com a motorista para o mês inteiro: por exemplo, para o filho ir à escola, a cursos extra curriculares…” 

A própria opção de agendamento de corrida surgiu nesse momento pós-pandêmico.

“Com o agendamento, a passageira já sai de casa e tem o serviço ali na porta. A motorista, a mesma coisa: ela sabe quantas corridas vai fazer no dia, quanto vai ganhar… Consegue ter a previsibilidade de para onde vai, que horas volta – e ter essa renda”

Por corrida, a Lady Driver retém 25% da tarifa, fora o acréscimo do Lady Kiddos e do Lady Care (a empreendedora diz que esse valor extra depende muito do dia e do horário). 

“Hoje, só com as corridas agendadas, tem quem ganhe de 400 a 600 reais por dia… As que estão aderindo ao agendamento estão amando.” 

LADY KIDDOS: A STARTUP SELECIONA E TREINA AS MELHORES MOTORISTAS PARA O SERVIÇO DE TRANSPORTE INFANTIL

Para viabilizar essas funcionalidades, a empresa investiu em tecnologia e no crescimento do time, que hoje tem 30 pessoas. “Nossa equipe continua fazendo melhorias e adaptações.”

Segundo Gabryella, a Lady Driver foi o primeiro aplicativo a mostrar para as motoristas o destino das passageiras, e a investir na verificação da identidade. 

“Não entra cadastro falso. Checamos tudo na Receita Federal, na Polícia Federal. Isso traz segurança, por exemplo, para a mãe que vai mandar o filho. Ela pode acompanhar a viagem em tempo real” 

Por falar em segurança, o serviço Lady Kiddos aceita apenas motoristas com as melhores pontuações internas (levando em conta atendimento, qualidade da condução etc.) e mais de 500 corridas pelo app. 

“Aí, ela faz o treinamento online ou presencial e depois está apta para dirigir para crianças”, diz Gabryella.

AGORA, PARA EXPANDIR PELO PAÍS, A LADY DRIVER APOSTA EM UM MODELO DE LICENCIAMENTO ESTILO FRANQUIA

Pensando na expansão da marca, a Lady Driver formulou um modelo de licenciamento, estilo franquia, voltado para cidades a partir de 30 mil habitantes. 

O investimento depende do porte do município, mas o mínimo é 50 mil reais. E a empresa exige que cada licença tenha uma mulher como embaixadora.

A partir daí, a Lady Driver oferece treinamentos para o licenciado aprender a operar a plataforma e faz um investimento inicial em marketing. Com a operação já rodando, a taxa de 25% por corrida se divide em 10% para a empresa, 10% para o franqueado e 5% para os impostos. 

Segundo a empresa, já foram vendidas 140 licenças. “Temos várias cidades rodando: Petrolina [em Pernambuco], Juazeiro [Bahia], Sinop, no Mato Grosso, Blumenau, em Santa Catarina, Contagem, Nova Lima [ambas em Minas Gerais], Goiânia, Manaus…”

Agora, Gabryella prevê fechar 2022 com franquias em 220 cidades. captar mais 1,5 milhão de reais em investimentos e, se tudo der certo, fechar o ano faturando 15 milhões de reais.

“Depois que quebrei, me reergui e estudei de novo… vejo que tudo fez sentido e me trouxe conhecimento para criar a Lady Driver.”

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DRAFT CARD

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  • Projeto: Lady Driver
  • O que faz: App de transporte para mulheres
  • Sócio(s): Gabryella Corrêa e José Reinaldo Pereira
  • Funcionários: 30
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2017
  • Investimento inicial: R$ 500 mil
  • Faturamento: R$ 15 milhões em 2022 (projeção)
  • Contato: www.ladydriver.com.br
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