Manobras radicais em Roraima: com uma pista de skate improvisada, ele busca aproximar jovens brasileiros e imigrantes

Oswaldo Graffe Bernal - 24 nov 2023
Oswaldo Graffe Bernal, criador do projeto Zona Skate.
Oswaldo Graffe Bernal - 24 nov 2023
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O skate, mais do que um esporte, é uma forma de expressão. Também é o modo que encontrei de gerar transformação a partir de uma paixão, meu compromisso com a inclusão social e cultural e a força para superar desafios exclusivos de Boa Vista, Roraima.

Na cidade, nos deparamos com desafios únicos. Uma população composta por migrantes venezuelanos, muitos deles indígenas, lutando para se integrar à cultura brasileira.

Sou um desses imigrantes. Natural de Caracas, em 2012 me mudei para Gran Sabana, na fronteira com Pacaraima, em Roraima. E quatro anos atrás, vim para o Brasil fugindo da crise em meu país. Tinha apenas 50 dólares no bolso e a roupa do corpo

Passei por um ano difícil, mas fui acolhido na casa de amigos da minha namorada, que também é venezuelana e migrou antes do que eu para o Brasil.

Comecei a estudar português em um curso da Universidade Federal de Roraima, que me concedeu uma bolsa mensal. Demorei um ano para me adaptar enquanto aprendia o idioma.

Essa fase conturbada faz parte do passado, mas me ensinou muito e me motivou a criar uma ponte, uma maneira de unir a realidade dos imigrantes com a dos brasileiros.

E foi com o projeto Zona Skate que decidi cumprir esse propósito, promovendo inclusão social e cultural e formando atletas competitivos que representem o Brasil (Roraima, em especial, onde estou atuando) e a Venezuela.

ALÉM DO SKATE, USO O RÁDIO PARA PROMOVER A INCLUSÃO ENTRE BRASILEIROS E IMIGRANTES

Comecei a andar de skate na década de 1990, quando tinha 16 anos e vivia em Caracas. Passei a me envolver com este esporte motivado pelos amigos do meu irmão mais novo, que tinha 13 anos.

Eu queria organizar a turma para evitar problemas com a lei (naquela época, este esporte não era bem visto), ensinar a prática e promover competições. Usávamos uma quadra poliesportiva abandonada, que equipamos com rampas e obstáculos para treinar.

Os pais das crianças e jovens começaram a perceber que podiam deixar seus filhos ali por algumas horas, o que levou à criação das aulas. Nosso auge foi entre 1998 e 2002, quando começamos a organizar eventos locais, que depois se tornaram nacionais.

Além do skate, me envolvi com outra paixão, o rádio. Comecei minha carreira como operador. Esta função, somada posteriormente a de locutor, me proporcionou uma compreensão profunda do mundo da comunicação.

Em 2002, dei meus primeiros passos na área de publicidade, marketing e locução. Essa jornada profissional me proporcionou um conhecimento técnico valioso e a capacidade de liderar projetos de maneira eficaz.

Toda essa bagagem tem sido fundamental na liderança do projeto, que desde o primeiro dia busca unir migrantes e brasileiros através do skate.

Outra forma que encontrei de fazer isso foi usando minhas habilidades e experiência profissionais, apostando na comunicação direta com a população. Para isso, criei também em 2020 o programa Caraca em Portunhol, na Rádio Monte Roraima 107.9 FM

A cada edição, busco promover a integração e inclusão dos imigrantes que, como eu, encontraram em Roraima uma segunda chance de vida, divulgando orientações sobre trabalhos de ONGs que atuam com este público, dicas sobre cursos, serviços de saúde etc.

NA GARAGEM DE CASA E EM PISTAS PÚBLICAS DA CIDADE, DOU AULAS DE SKATE INCLUSIVE PARA ALUNOS DE COMUNIDADES INDÍGENAS

Quando me estabeleci no Brasil, tive vontade de dar continuidade ao projeto que já tocava na Venezuela. E, de forma simples, comecei o Zona Skate construindo uma pista improvisada para o esporte na garagem da minha casa alugada, no bairro Jardim Caranã.

Neste espaço, passei a oferecer aulas todas às terças e quintas-feiras, das 15 às 18 horas, e aos sábados, das 10 às 12 horas.

A pista de skate montada por Oswaldo na garagem de sua casa, em Boa Vista.

Quem desejar praticar não precisa se preocupar, pois estamos sempre atentos para dar todo o suporte. Fornecemos capacetes, pranchas e até mesmo calçados, se necessário.

Além disso, durante as aulas, sempre servimos um lanche delicioso para recarregar as energias. E tenho orgulho de ver que as crianças já estão fazendo manobras incríveis.

Hoje, o projeto conta com mais de 50 crianças e jovens. Atualmente, tenho 25 alunos que frequentam as aulas na minha casa, sendo 16 com regularidade. Metade deles são venezuelanos e a outra, brasileiros. As idades variam de 6 a 14 anos — e há mais meninas do que meninos.

Às sextas-feiras-feiras, na pista pública de Pintolândia, bairro aqui de Boa Vista, também dedico parte do dia para ensinar cerca de 25 crianças e jovens indígenas da etnia Warao, da Venezuela, que vivem em uma ocupação

As aulas são fundamentais para promover a igualdade de oportunidades e permitir que jovens talentos indígenas também participem do mundo do skate.

É um momento repleto de diversão e aprendizado. Mas isso não é tudo. Aos alunos mais destacados, proporcionamos a oportunidade de andar em emocionantes pistas pela cidade uma vez por semana.

A FALTA DE RECURSOS DIFICULTA O ANDAMENTO DO PROJETO, MAS NÃO ME ABALA

Nem tudo são flores. Não é fácil manter o projeto por dificuldades financeiras e obstáculos para obter apoio.

O Zona Skate precisa de financiamento para manter a rampa em boas condições, pois ela se danifica com o uso. Além disso, os equipamentos como pranchas duram no máximo dois meses devido ao desgaste. Também gostaria de, com a ajuda de apoio, melhorar a qualidade dos lanches oferecidos, pois é difícil arcar com esses custos com meu próprio salário.

Mesmo com estratégias como as rifas, que estão sendo realizadas atualmente, enfrento barreiras para convencer as pessoas a colaborar

Essa situação continua a ser desafiadora e, por vezes, desanimadora. Apesar dessas adversidades, mantenho minha crença de que o skate pode ser uma ferramenta poderosa para a inclusão social e cultural, e estou empenhado em encontrar maneiras criativas e eficazes de tornar o projeto sustentável a longo prazo.

Oswaldo, alguns de seus alunos e profissionais de uma equipe de TV local que foram conhecer o projeto.

Um dos meus sonhos é criar uma horta, onde possamos ensinar a semear e cuidar das plantas, promovendo uma maior conexão com a natureza.

Além disso, gostaríamos de oferecer espaço para outras atividades, como a prática de yoga, autodefesa, capoeira e cursos de inglês, para que nossos participantes tenham a oportunidade de se envolver em uma variedade de experiências enriquecedoras.

Mas a realização desses sonhos só é possível com o apoio de patrocinadores que compartilhem nossa visão e acreditem em nossas ideias.

Em troca, ofereceremos visibilidade, participação ativa, recompensas exclusivas e oportunidades criativas para destacar suas marcas.

HOJE, TEMOS POUCAS PARCERIAS. NOSSO SONHO É CONSEGUIR NOVAS COLABORAÇÕES PARA EXPANDIR O PROJETO

Minha trajetória no skate e na comunicação moldou meu compromisso em usar essas paixões para fazer a diferença na vida das pessoas e na comunidade em que estou inserido.

Com o projeto, estamos fazendo com que mais pessoas descubram o empolgante universo do skate e cresçam em confiança e habilidades.

Hoje, recebemos doações em momentos específicos, como durante campeonatos na cidade, com Pix a partir de 1 real.

Também contamos com descontos do Supermercado Super Gabrielle para comprar os itens dos lanches que oferecemos. E a sorveteria +Dindin Gourmet mensalmente nos fornece sorvetes para compartilhar com os alunos no final do mês.

Sonhamos, no entanto, em conseguir mais apoio. Por isso, tenho um pedido. Ajude-nos a continuar fazendo a diferença, seja um apoiador do nosso projeto 

Você pode fazer isso de várias maneiras: compartilhando nossas postagens, seguindo-nos nas redes sociais e até mesmo fazendo uma doação.

 

Oswaldo Graffe Bernal, 43, é venezuelano e mora no Brasil desde 2020. É apresentador do programa Caraca em Portunhol, da Rádio Monte Roraima 107.9 FM, e criador do projeto Zona Skate.

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