Milhares de animais perdidos permanecem nos abrigos gaúchos. Um casal decidiu se engajar no esforço de reunir os pets com seus tutores

Aline Scherer - 22 maio 2024
Um dos cachorros resgatados após as chuvas no Rio Grande do Sul.
Aline Scherer - 22 maio 2024
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Ao ver que a enchente se aproximava de sua casa, em Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre, Jéssica Phoenix e Gustavo Furtado subiram todos os móveis para o segundo andar.

Com malas e mantimentos, o casal se preparou para passar alguns dias ilhados no piso superior da residência. Junto com eles estavam seus animais de estimação: um cachorro, quatro pássaros, quatro tartarugas e seis galinhas. Logo, alguns vizinhos vieram se juntar.

Porém, o pânico de não saber se a água continuaria subindo — reforçado pelos gritos e gemidos de pessoas e animais tentando sobreviver no entorno — acabou levando o casal ao desespero. Eles pediram socorro e subiram no barco dos Bombeiros. Os dois foram acolhidos pelo pai de Gustavo, depois se engajaram pessoalmente no trabalho de resgate e nos abrigos — até que, exaustos, resolveram se resguardar e cuidar da saúde. Por pouco tempo.

O casal Gustavo Furtado e Jéssica Phoenix (foto: arquivo pessoal).

Sem conseguir continuar assistindo à tragédia, o casal teve a ideia de criar uma plataforma para ajudar na identificação das pessoas desaparecidas. Eles logo toparam com aspectos delicados de burocracia e governança, então mudaram o foco para a identificação de animais de estimação perdidos.

Formado em Big Data e Inteligência Analítica, Gustavo trabalha na A-players, consultoria de seleção de profissionais de tecnologia e softwares de organização de trabalho. Jéssica trabalha na sua própria doceria, e jornalista de formação, tratou de conseguir apoio da assessoria de imprensa Be On Press, além de ajudar a cadastrar os animais dos abrigos.

Ao pedir ajuda, Gustavo rapidamente formou um time e se juntou a outro grupo, do engenheiro de software e empreendedor Zeno Junior, que já estava com a plataforma do site Pets RS pré-pronta, pois havia se engajado na causa animal durante outra enchente, ocorrida em setembro de 2023 no Vale do Taquari, região que abrange 40 municípios no centro do Rio Grande do Sul. A plataforma conta ainda com outros líderes de equipe, como o engenheiro de software Mateus Roveda.

No site, tutores respondem um formulário e enviam uma foto de seu animal de estimação perdido nas enchentes de qualquer lugar do estado. Voluntários também podem cadastrar animais encontrados que estão em abrigos. A inteligência artificial cruza as informações e avisa a probabilidade de um animal abrigado ser o mesmo animal perdido.

A plataforma também mostra as ONGs e empresas que estão apoiando o projeto, seja com o tempo e conhecimento de seus funcionários, bem como equipamentos, dinheiro e divulgação. E mostra ainda a lista de pessoas voluntárias que estão atuando no projeto.

Até o momento, o Pets RS registra mais de 4 mil solicitações de cadastro e acima de 100 matches. segundo o casal, o número de animais registrados nos abrigos do estado é superior a 8 mil.

“O maior problema agora é que depois do match as pessoas não estão finalizando o processo, poucos deram o feedback de que foram buscar os animais”, diz Jéssica. “Então, o grupo responsável pelo site está vendo apoio de marca de ração, para oferecer uma “recompensa” para o tutor ir até o fim no processo. Porque se as pessoas não finalizarem o processo, não tem como tirar o pet do cadastro oficialmente.”

A seguir, Jéssica e Gustavo relatam ao Draft os momentos tensos que viveram em meio à enchente e os bastidores do trabalho de identificação dos pets:


Como foram os últimos dias para vocês?

JÉSSICA: Os nossos dias foram ruins, péssimos no começo, porque a gente também teve que sair de casa. Na sexta-feira [3 de maio] de manhã o Gustavo já acordou preocupado com os alertas no bairro ao lado do nosso. E a partir dali a gente começou a monitorar.

O Gustavo pegava o carro, dava uma volta no bairro pra ver aonde que a água estava chegando. E a gente passou o dia todo subindo tudo que a gente pôde para o segundo andar da nossa casa. Mas ainda num ceticismo muito grande, a gente não achou que fosse chegar tão alto…

Por volta da meia-noite, a água chegou na esquina da nossa casa. O Gustavo levou o carro para outro lugar e voltou de Uber. A gente colocou todos os nossos animais no terceiro piso, as galinhas, passarinhos, cachorro, tartarugas. Quando a água chegou no portão já eram 3 horas da madrugada, e aí ficamos sem luz 

A gente estava preparado para ficar alguns dias ilhado. No outro dia, por volta de meio-dia, a água já estava quase no marco da parte de cima da porta da nossa casa. E a gente percebeu que não estava com nosso psicológico preparado…

Porque é gritaria, pessoas pedindo socorro — os nossos vizinhos que não tinham casas de dois andares —, e começou helicóptero fazendo salvamento, o barco fazendo salvamento, animais que foram deixados pra trás…

A gente enxergava dentro dos pátios das pessoas, muitos animais chorando, dois cavalos só com a ponta da cabeça pra fora d’água… 

O Gustavo não aguentou e se meteu na água para salvar os animais que conseguia, e por sorte, nesse momento, um barco chegou pra resgatar uma das nossas vizinhas, e daí o Gustavo pediu pro barco voltar e nos tirar dali.

GUSTAVO: Uma frase que mostra nosso nível de ceticismo era que a gente estava achando que ia estragar os rodapés de casa…

A gente confia na ciência, não nos entendam mal, a gente sabia que ia acontecer. Mas lá onde a gente mora, como é muito alto — e acredito que isso tenha acontecido com muita gente —, não tínhamos ideia de onde a água ia chegar 

As notícias estavam muito escassas. A gente estava acompanhando as fontes confiáveis; mesmo assim, havia uma confusão nessa informação, ninguém dava uma posição concreta se a água ia continuar subindo.

JÉSSICA: Não tinha sinal de internet, nem de telefone, a gente estava sem luz, a gente ficou incomunicável e entrou em desespero.

A gente não tinha noção nenhuma do que estava acontecendo, não sabia se a água tinha chegado no segundo andar, se o nosso plano de botar as coisas pra cima tinha funcionado… Se tivesse notícia dizendo que ia subir mais dois metros, do nada, a gente não saberia.

Então resolvemos abandonar o nosso plano A, que era ficar no nosso terraço, no terceiro andar, por alguns dias, e tivemos que sair meio às pressas no sábado 

E no domingo, o Gustavo começou a fazer os resgates, e a gente conseguiu buscar os nossos animais.

GUSTAVO: Hoje em dia é tudo sobre internet, a gente não tinha um rádio FM em casa pra acompanhar, e eu acredito que essa seja a posição de muitas pessoas.

Depois ficamos sabendo que as operadoras liberaram a utilização de redes em roaming, para gente poder usar outras operadoras — mas isso foi bem depois. No pior momento a internet simplesmente não funcionava, as mensagens do WhatsApp sincronizavam de duas em duas horas.

Quando chegou 3 da manhã, a água subiu muito rapidamente, muito, muito, muito. Os vizinhos que estavam dormindo e que acordaram, literalmente, com o colchão boiando, foram se abrigar na nossa casa.

Como surgiu a ideia do PetsRS?

GUSTAVO: A gente estava entrando na água, indo até as casas, puxando pessoas, puxando animais. E aí, quando a gente notou que a nossa saúde começou a ficar debilitada, ficamos pensando: como é que a gente pode ajudar? Mesmo que a gente tenha perdido tudo, a gente nunca perdeu a vontade de ajudar as outras pessoas.

Como a minha posição hoje é de atender as empresas com soluções tecnológicas, utilizando a plataforma Monday.com para a organização do trabalho dentro de muitas empresas do Brasil e do mundo, pensamos em utilizar essa organização para fazer a diferença nesse cenário caótico de resgate aos animais.

Aí, de terça para quarta [7 e 8 de maio], surgiu a ideia de começar a catalogar os animais, as informações que estão espalhadas em várias páginas do Instagram e deixar tudo isso centralizado em um lugar só, que pudesse dar agilidade nesses reencontros, usando também a inteligência artificial para dar escala

Nos primeiros dias, voluntários pegaram as fotos de mais de 20 páginas do Instagram de animais encontrados e subiram essas fotos para o site. Temos muitas pessoas próximas que são da causa animal há muito mais tempo. Eu diria que a gente se envolveu do dia pra noite com essa causa, apesar de ter nossos bichinhos.

Visitamos um desses abrigos, vimos o caos que estava por lá, ajudamos na montagem das baias, separando os machos, as fêmeas, os filhotes, os animais doentes, as fêmeas que estavam grávidas, os animais bravos…

Quanto antes a gente conseguir remover os animais dos abrigos, é melhor para a sobrevivência dos outros animais que estão lá, para que os voluntários possam focar nos animais que realmente estão precisando. E aí foi a essa solução que a gente acabou chegando. Para agilizar esse processo.

Como foi a construção do site?

GUSTAVO: A Monday.com é um sistema operacional para organizar qualquer tipo de fluxo de trabalho: fábrica de software, gestão de projetos tradicional, CRM… A gente tem um time de implementações, de consultoria, de pré-vendas, comercial, que passam por mim e eu resolvi que eu ia aplicar esses conhecimentos.

A Monday permite que a gente monte formulários de uma forma muito rápida, e a implementação também. Demoramos cerca de uma hora para colocar tudo a funcionar com relação aos formulários. E, no meio dessa jornada, fiz uma publicação no LinkedIn falando sobre essa ideia da Inteligência Artificial, que a gente precisaria de voluntários para auxiliar nessa frente; meu computador, que era mais forte, ficou na nossa casa.

As pessoas foram se oferecendo para se juntar a essa frente, e acabamos nos unindo a outro grupo, que já tinha um site pré-pronto ali, o Pets RS, ele era chamado Pets Vale do Taquari, se não me engano. Eles têm uma ONG para auxílio dos animais, que já auxiliou na última catástrofe que a gente teve aqui no nosso estado [as inundações de setembro de 2023].

E a gente acabou juntando a nossa iniciativa junto com a deles, trazendo o nosso grupo de voluntários; eu acabei atuando mais como um facilitador, conectando os grupos, organizando quem ia fazer o quê.

Estamos com mais de 4 mil solicitações recebidas [de tutores buscando por seus animais]. E aí a gente tem outra dor, que é catalogar todos os animais que estão nos abrigos para que a gente possa realmente utilizar esse modelo de inteligência artificial 

Temos muito apoio da iniciativa privada: da universidade Unisinos; da PixForce, que é uma empresa de inteligência artificial que nos auxiliou com zero custo, recursos tecnológico e humano, e esse modelo de inteligência artificial pré-treinado…

Para poder operacionalizar essa inteligência artificial para que ela comece a reconhecer os animais, a gente precisaria de um treinamento e demoraria muito tempo se a gente tivesse que fazer isso do zero.

Conseguimos também o apoio da AWS, da Amazon, que fornece infraestrutura de poder computacional, eles montaram uma equipe para gente, com equipamentos e arquitetos de solução.

A Petlove ajudou com doações e a divulgação — eles têm 1 milhão e 200 mil seguidores no Instagram, e divulgaram essa base centralizada também para que a gente pudesse tratar essa nossa dor de ter dados pulverizados em tudo quanto é lugar

A Monday.com doou as licenças que custariam mais de 100 mil anuais. Também tivemos o apoio da empresa de microchips para identificação Petlink, e a empresa de assessoria para viagens Flypet, e as prefeituras de Porto Alegre, Lajeado, Teutônia e Gravataí.

Foi crucial todo esse apoio. Eu não conseguiria fazer sozinho esse tipo de coisa, são muitas frentes. Só nos nossos grupos do WhatsApp, a gente tem a frente dos cadastros, a frente dos abrigos, quem está cuidando do front-end, do desenvolvimento do site para ele ficar agradável de utilizar, e tem a frente de inteligência artificial.

Ao todo são quase 100 pessoas envolvidas nessa iniciativa. O trabalho não para por aqui realmente.

Então a inteligência artificial vai comparar as fotos enviadas pelos tutores com as fotos enviadas pelos voluntários dos animais nos abrigos? Eu vi algumas fotos com cachorros de costas, de cachorros muito parecidos entre si, talvez nem o tutor reconheceria por imagens…

JÉSSICA: Inclusive entre os voluntários que foram fotografar lá chegamos num ponto que às vezes a gente não sabia dizer se já tinha fotografado aquele cachorro ou não, porque era tão parecido…

Então, pode ter acontecido da gente ter cadastrado o mesmo cachorro duas vezes. Esperamos que a inteligência artificial seja mais inteligente que a gente neste caso.

GUSTAVO: A gente teve o primeiro match que estava muito claro que era o mesmo cachorro, pelas características dele, tem as orelhas maiores. Mas o nosso segundo match não estava tão óbvio assim, até porque a foto do tutor foi tirada meses atrás [quando o cão era filhote].

A IA compara não só a pelagem, raça, tamanho; da mesma forma que identifica os humanos, ela consegue comparar pontos específicos na face, no nariz, na cavidade ocular 

Inicialmente a gente ia analisar automaticamente cada imagem que entra no banco, a IA faz a comparação e avisa via WhatsApp para o tutor que tem um cão [ou outro animal de estimação] com tantos por cento de chance de ser o cão que ele está procurando.

E aí agora a gente está trabalhando no mecanismo que as pessoas vão poder subir e na hora já descobrir se tem algum animal correspondente no banco, ao mesmo tempo em que eles estão refinando esse treinamento da IA para que ela fique ainda mais precisa.

Vão acontecer casos que vai ter cinco ou seis cães que são muito parecidos e aí a gente vai poder comparar alguns fatores, como a localização em que ele estava por último e o abrigo que ele está agora para dar um percentual de match para isso

A IA não é perfeita. Parece mágica, mas a realidade é que existe todo um treinamento. A própria rede neural estava treinada para humanos e agora está sendo utilizada para animais, então a gente precisa dar opções para as pessoas.

E, mais do que isso, não podemos brincar com os sentimentos das pessoas de dizer que a gente achou o animal perdido, quando não é [de fato] o mesmo animal, para que a pessoa não passe por um segundo processo de luto. Então, estamos fazendo os matchs internamente antes de disponibilizar para o público.

E aí tem a responsabilidade dos voluntários que estão organizando o abrigo de, se o animal sair dali para outro abrigo e já foi cadastrado, avisar para onde é que ele foi… Essa parte deve ser bem complexa.

GUSTAVO: Esse seria o mundo ideal, mas são duas iniciativas diferentes, a do site é uma delas e os abrigos estão sendo autogerenciados pelos voluntários, então não tem muito processo. Tem abrigos, por exemplo, que as pessoas não estão deixando entrar.

Eu recebi um relato sobre um abrigo em Porto Alegre que tem muitos cães guardados em um lugar que eles não deixaram entrar para fotografar. Acho que o pessoal está com medo.

Aconteceu nos primeiros dias que a gente estava montando o primeiro abrigo, de pessoas passeando no abrigo dos cachorros e dizendo “ah olha aqui que bonito esse cachorro, esse cachorro é meu”, para cachorros de raça, labradores, border collie — enfim, cachorros caros. Tem pessoas que estão tentando se aproveitar dessa situação

Então é muito importante que a gente tenha apoio interno dos abrigos não só para fotografar e catalogar os animais, mas para ter esse controle de entrada e saída que hoje está acontecendo em pouquíssimos abrigos.

A comunicação que a gente vê em alguns deles é mandar no whatsapp: “cadê esse cachorro que tava aqui e não tá mais agora?” e ninguém sabe cadê porque realmente são muitos animais e a situação estava bem caótica, embora isso possa já ter mudado.

Além disso, os postos de gasolina estavam sem combustível, então os tutores estavam indo fisicamente em cada abrigo olhar se o seu cão está lá, o que dificulta o trânsito e tudo mais.

JÉSSICA: Existe uma rotatividade de voluntários, não tem uma única pessoa responsável, os voluntários mudam de abrigos também. Para você ter uma ideia, nos bairros tem suspeitos trocando tiros com a polícia, tentando invadir casas para roubar o que restou. Então, há muitos aproveitadores em todas as frentes.

No site vocês também colocaram a funcionalidade de lar temporário. Como funciona?

GUSTAVO: Sim, mas isso está muito mais relacionado às pessoas da comunidade, que já são atuantes na causa animal de fato, e a gente proporcionou para que eles possam cadastrar os seus lares para que esses animais sejam enviados para lá como lar temporário.

Só em Canoas tem quase 50 abrigos, mas os lares temporários são incontáveis, então estamos tentando cobrir essa parte também: às vezes, a pessoa já está com um animal em casa e depois ela vai ali e se cadastra no Pets RS 

Acontece bastante, eu recebi muitas mensagens: “ó, eu tô com esse animal aqui em casa e tal, pra onde é que eu mando a foto?” Aí a gente redireciona para o link do site que tem dois pontos: “eu perdi o meu pet” e “eu encontrei um pet”. E a pessoa que encontrou o pet preenche com seu nome, endereço, whatsapp, foto do pet encontrado.

Até o momento há cerca de quatro mil animais cadastrados pelos tutores. A maioria é cachorro? E quantos animais cadastrados pelos abrigos?

GUSTAVO: A maioria é cachorro, 65%, porém o número de gatos vai subir, a Jéssica mesmo está em contato com um local que está abrigando só gatos, chama-se Only Cats.

Os gatos têm um tipo de resgate um pouco mais complicado, eu mesmo tomei arranhão, é preciso transportar na caixa. Eles são um pouco mais independentes também, então subiram em cima dos telhados, das árvores, e os cães são mais sensíveis nesse aspecto 

A base de dados com fotos dos animais dos abrigos está em cerca de 2 mil registros. Quem puder, basta acessar petsrs.com.br e cadastrar as fotos dos animais e dados do abrigo.

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