“Na minha cabeça, o câncer era igual à morte. Quando me abri à escuta, aprendi a olhar de outro jeito, não só a doença, mas a vida”

Bruna Monteiro - 2 dez 2022
Bruna Monteiro, fundadora do Além da Cura.
Bruna Monteiro - 2 dez 2022
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Você já sentiu um incômodo pelo jeito como alguém olhou para você ao chegar em um local? Já olhou diferente alguém sem nem ouvir sua história?

Vivemos numa sociedade que nos adoece, formada por indivíduos isolados que parecem não conseguir se comunicar. Têm percepções pré-concebidas do outro a partir de símbolos, imagens ou rótulos e decidem se afastar ou se aproximar de alguém sem ao menos enxergar quem aquela pessoa realmente é. 

E, se ao invés de muros, começássemos a construir pontes? Entender de onde o outro está olhando, ouvi-lo, ir até lá e aí sim começar o diálogo? Falo de coração aberto porque isso aconteceu comigo e me transformou profundamente.

Por meio do Além da Cura, ouvi mulheres com câncer ao redor do mundo e acabou que aprendi também a olhar de outro jeito, não só a doença, mas a vida

Elas me ensinaram que existem muitos jeitos diferentes de contar uma mesma história e isso influencia o que chamamos de sociedade ou coletivo. Um coletivo adoecido, que ao não ouvir o outro e agir de modo automático, reproduz, repete preconceitos e adoece os seus pares.

Mas que, com disposição de escuta, pode perceber sua capacidade criativa de lidar de uma maneira mais diversa e inclusiva, de um modo de cura. 

QUANDO MEU MELHOR AMIGO TEVE CÂNCER, PERCEBI QUE PRECISAVA DESMISTIFICAR ESSA DOENÇA E FUI OUVIR MULHERES EM TRATAMENTO

Em 2013, quando tinha 21 anos, vi um dos meus melhores amigos ser diagnosticado com câncer. Na minha cabeça, câncer era igual a morte e eu tive certeza que ele iria morrer.

Percebi que, não sabendo lidar com a doença, eu também não sabia mais lidar com ele. O momento do corte do cabelo foi bem marcante.

Para minha surpresa, ao sair na rua, as pessoas lhe deram parabéns. As pessoas presumiram que por ser jovem e careca, ele havia acabado de entrar na universidade e tinha raspado o cabelo no “trote”.

Isso me levou a refletir: E se fosse comigo, uma mulher? Se eu tivesse que ficar careca por causa do tratamento do câncer? Como seria? Como me olhariam? Será que também iriam me dar parabéns?

Deste lugar, acabou surgindo o Além da Cura, um projeto no qual entrevisto mulheres com câncer ao redor do mundo. O objetivo é ouvir sobre a vivência dessas mulheres de diferentes contextos econômicos, políticos e culturais, para, quem sabe, entender melhor e conseguir lidar com a doença do meu amigo

Ao longo desses sete anos, impactamos mais de dois milhões de pessoas sensibilizando e informando através dos nossos conteúdos.

Passamos por onze países entre África, América Latina, Ásia, Oceania e Europa e vimos de perto o poder transformador da comunicação.

Esses materiais se tornaram filmes, podcasts, livros, exposições fotográficas e também outros conteúdos como a websérie “Além do Câncer”, disponível no nosso site e canal do YouTube.

Ao associar câncer diretamente à morte, eu também estava repetindo uma história que me contaram. Também olhava com estranheza para aquela cabeça sem cabelos e, sem saber, contribuía para que meu amigo sofresse ainda mais diante uma doença que já era difícil.

Eu havia criado um muro e, não ouvi, por exemplo, quando meu amigo disse que o câncer estava num estágio inicial e ele tinha 80% de chance de cura.

ENTENDI QUE A ESCUTA ATENCIOSA FAZ TODA A DIFERENÇA NA VIDA DE QUEM ESTÁ COM ESSA DOENÇA

Foram mais de 70 mulheres entrevistadas até agora, só para perceber que um dos maiores desafios de quem está enfrentando o câncer é o de não ser ouvido. A escuta ainda acontece de um jeito egoísta, desatencioso.

Não escutamos de fato como as pessoas estão — e de forma atenta. Criamos estereótipos e muitos muros. É como se o diagnóstico do câncer fosse um quarto escuro: em vez de ligarmos a luz e ver o que acontece, preferimos ficar imaginando monstros que nos contaram

A proposta é iluminar isso tudo aos poucos e perguntar: como podemos lidar juntos com isso do melhor jeito possível?  A resposta, acredito, veio da escuta das mulheres com câncer e suas relações. 

É importante desmistificar o câncer e trazer um novo olhar sobre a vida, não só pelas mulheres com câncer, mas também pelas pessoas que estão ao seu redor. Família, amigos, companheiros de trabalho e até pessoas em suas atividades mais corriqueiras, com as quais cruzam ao sair na rua.

Ao abandonar nossas bolhas e reconhecer o outro, percebemos a possibilidade de contar uma história diferente, além da que nos contaram.

No fim, meu amigo ficou bem, várias das entrevistadas também estão. Não é que câncer seja oposto à morte. Mas será que é só isso?

TIVE A CHANCE DE CONHECER MULHERES FORTES E INSPIRADORAS QUE QUERIAM ALGO SIMPLES: TER SUAS HISTÓRIAS OUVIDAS

E da escuta que nasce uma força potencializadora que, ao invés de muros, nos permite construir pontes. É sobre essas pontes que as mulheres que ouvi me ensinaram ao contar o que sentem.

Como quando entrevistei Zuvaida, na Índia, por exemplo. Ela estava usando uma burca e eu só podia ver seus olhos. Eu me sentia incomodada por estar lá, mostrando meu cabelo, meu olho enquanto ela estava coberta.

Foi um misto de sensações. Para minha surpresa, ela disse que um dos fatores que a ajudou a superar o câncer foi justamente a burca, pois ao sair na rua, as pessoas não sabiam que ela enfrentava a doença.

Ao final da entrevista, ela abaixou o véu e agradeceu pela oportunidade de contar sua história para outras mulheres do mundo. 

Outro momento importante foi com Desiree, na Alemanha. Eu não sabia falar alemão ou inglês e nos comunicamos por intermédio de uma intérprete. No final, Desiree falou que nunca havia se sentido tão ouvida por alguém que não sabia uma palavra da sua língua

Outra experiência incrível aconteceu com Carla, brasileira que mora na França, e me perguntou o que estávamos fazendo em Paris. Eu lhe respondi que viajávamos para fazer as filmagens. Ela se emocionou dizendo: “Então vocês viajaram só pra escutar minha história?”.

QUANDO O COLETIVO PERCEBE SEU PODER DE CURA, CRIA-SE UMA REDE DE APOIO QUE NUNCA ADOECE

Ao ouvir essas mulheres tive a possibilidade de reconhecer as diferenças, acolher a diversidade e, com o projeto, criar espaços para que as experiências fossem ressignificadas.

Quando as filmagens começaram a ir ao ar, houve um movimento dos amigos e familiares, que ao ouvir suas histórias pelo vídeo, se reaproximaram e passaram a entender um pouco mais do que acontecia com elas.

Assim como eu consegui aos poucos entender e me reaproximar do meu amigo, o coletivo começou também a perceber seu poder de cura

Dessa vez, não formado por indivíduos isolados, mas por uma rede de pessoas, instituições públicas, empresas, ONGs, entre outros, que se posicionam para além das demandas do dia a dia.

É sobre ouvir e estar dispostos para reconhecer outras histórias possíveis para aí sim criar um novo futuro possível e melhor.

No fim, tudo isso é muito além do câncer ou da cura. Podemos ver que se o coletivo é capaz de ser muro, ele também é capaz de construir pontes, ou melhor, construir uma rede de pessoas conectadas de verdade, uma rede, tátil, firme, entrelaçada, que acolhe, suporta e transforma. E a rede, acredite, não adoece!

 

Bruna Monteiro é jornalista e empresária, com foco em campanhas inclusivas, diversas e de impacto social. Já trabalhou em criação de campanhas para instituições como UNICEF, Pfizer e Plan Internacional. É fundadora da Ganda – Lab Criativo, hub de mulheres e pessoas LGBT+ que oferece serviços de comunicação e consultorias para marcar conscientes, e da startup social Além da Cura. Foi reconhecida como Young Leaders of America Initiative (2021) e eleita jovem inspiradora pela AIESEC no Brasil (2017), além de já ter realizado palestras para o TEDx e ONU Mulheres.

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