A violência contra mulheres e meninas cresceu na pandemia. Saiba como o Instituto Avon mobiliza empresas para encarar o problema

Bruno Leuzinger - 2 set 2020
Daniela Grelin, diretora-executiva do Instituto Avon.
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Criado há 17 anos, o Instituto Avon tem hoje foco em duas grandes causas: o combate à violência contra mulheres e meninas e a prevenção do câncer de mama.

Para atacar essas frentes, o braço social da Avon se dedica a consolidar conhecimentos a respeito dos temas, a realizar doações para estruturar organizações sociais e a mobilizar setores diversos no enfrentamento desses desafios. 

“O Instituto é uma ponte entre a iniciativa privada, organizações sociais e serviços públicos”, diz a diretora-executiva Daniela Grelin. “A gente conecta as partes para que funcionem em rede.” 

Os dois temas, infelizmente, vêm ganhando ainda mais urgência com a pandemia.

Enquanto o receio da Covid-19 afasta pessoas de clínicas e hospitais (atrasando diagnósticos de câncer e o tratamento necessário), o contexto de distanciamento social agrava fatores de risco da violência doméstica, como o abuso de álcool e a própria permanência prolongada em casa — na companhia do agressor.

Pré-pandemia, o Instituto Avon já havia liderado a criação de uma coalizão empresarial de combate à violência contra mulheres e meninas. Com o surgimento da Covid, desenhou um programa que mobiliza 20 empresas em ações de atendimento e suporte (psicológico e jurídico, inclusive) e hoje beneficia 4 mil mulheres.

A seguir, Daniela fala sobre esse e outros projetos — e sobre os temas no alvo do Instituto:

 

Você está no Instituto Avon há quatro anos. As causas com que o Instituto trabalha já faziam parte da sua vida?
Nunca passei, graças a Deus, por um câncer de mama, nem cresci numa família marcada pela violência doméstica. Mas me lembro de um episódio. 

Quando jovem, em Belo Horizonte, ouvi falar: “olha, teve uma menina que foi estuprada ali perto do [colégio] Santa Marcelina”… Eu tinha de passar por ali a pé, indo para a aula de inglês, e quando chegava perto, saía correndo em disparada… 

Esse era o meu grande medo, na infância e na adolescência. Mesmo sem nunca ter vivido o problema, eu ficava preocupada com a vítima: o que aconteceu com essa menina? Como ela vai recriar a vida dela?

Essa experiência pessoal me ajudou a amadurecer uma convicção: a gente precisa se apropriar do problema para depois se apropriar da esperança. A violência contra mulheres e meninas, assim como câncer de mama, não para nas mulheres

Não existe sociedade saudável quando 50% da população não tem direito a uma vida segura e livre de violência. Ou não tem direito a uma vida saudável. Então, fui entendendo que esse era um problema do qual eu não poderia escapar, e nem terceirizar. 

A neutralidade não existe, é um voto pelo status quo. E fui me apropriando desse chamado para fazer avançar essas causas.

A aquisição recente da Avon pela Natura trouxe alguma mudança para a atuação do Instituto?
Só no sentido positivo. A Natura preservou o protagonismo do Instituto Avon nas duas causas. E, ao mesmo tempo, agora como o quarto maior grupo de empresas de beleza do mundo, temos uma plataforma de impacto ainda maior para falar desses temas.

Em 2019, o Instituto Avon lançou a Coalizão Empresarial pelo Fim da Violência contra Mulheres e Meninas. Como é o desafio de trazer esse tema para a agenda corporativa?
A Coalizão nasceu de uma provocação do nosso CEO à época [José Vicente Marino]. Estávamos apresentando números de acolhimento de mulheres em situação de violência na Avon, e ele ficou impressionado: “Será que todas as mulheres que passam por violência vieram trabalhar na Avon…?”. E aí, mostramos os números do Brasil todo.

Uma em cada cinco faltas de mulheres por licença-saúde são motivadas por violência doméstica. Segundo uma pesquisa da Universidade Federal do Ceará com o Instituto Maria da Penha, empresas no Brasil perdem cerca de 1 bilhão de reais por ano com absenteísmo causado por violência doméstica

Esse mesmo CEO, apaixonado pela causa, começou a usar sua rede de contatos para chamar outros CEOs. A coalizão foi lançada num café da manhã, em agosto do ano passado, mês da Lei Maria da Penha. Desde o primeiro momento ficamos impressionados: já naquele momento mais de 70 empresas se interessaram em fazer parte.

Parecia que a gente tinha tocado num ponto nevrálgico, uma preocupação latente mas que ninguém sabia como endereçar — e nem qual era o papel da empresa.

Com um ano de coalizão, temos mais de 100 empresas engajadas. Fazemos campanhas de comunicação em conjunto, temos pilares de treinamento e formação para facilitar a criação de políticas internas contra assédio no ambiente de trabalho e preparar as empresas para acolher e assistir a mulher em situação de violência.

Também trabalhamos com o engajamento dos CEOs, para que a mais alta liderança tome posições firmes e mova toda a organização nesse sentido.

Você falou no “papel da empresa”. Qual é o papel delas para mudar essa realidade?
Costumo dizer que as empresas são “co-arquitetos da sociedade” que queremos construir. O papel das empresas é se apropriar da sua capacidade de criação de valor e de gerar inovação social para ajudar a endereçar essas demandas prementes. 

E se a pandemia nos ensinou algo, é que pessoas olham para as marcas na sua capacidade de gerar valor, inovação social, e de usar isso para criar soluções para demandas sociais. E isso é ainda mais verdade agora

Quando o Itaú lançou aquela doação de 1 bilhão de reais, o presidente do banco disse: “Não há empresa próspera em uma sociedade miserável…”

Poderíamos usar o mesmo raciocínio para dizer que não há sociedade justa construída com violência contra a mulher. A violência e o câncer de mama não param nas mulheres e nas meninas, permeiam todas as organizações. 

Como a pandemia vem mudando, para pior, todo esse contexto de violência contra mulheres?
Todos os países que experimentaram a pandemia, começando com China, Itália, tiveram um aumento, às vezes de mais de 20%, nos índices de violência doméstica. Isso é medido pelos números de feminicídio, de ocorrências de violência física, violência sexual… 

Dados de maio da Decode junto com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostraram que no Brasil houve um aumento de 22% nos casos de feminicídio, um aumento de mais de 340% em relatos de brigas de vizinhos.

O isolamento social, tão importante para conter a Covid, tem o efeito indesejado de agravar fatores de risco da violência doméstica. O problema se tornou mais urgente — e mais silencioso. Porque a violência doméstica acontece entre quatro paredes. E a nossa é uma cultura que diz que aquilo não é responsabilidade da sociedade…

Para nós, então, como investidores sociais, o horizonte de tempo se encurtou. Por isso, criamos o programa “Você não está sozinha”, buscando ampliar os canais de acesso às assistências possíveis para a mulher nesse momento. 

Pode dar exemplos de ações de empresas engajadas pelo Instituto e pela Coalizão, no escopo do programa, para combater a violência doméstica durante a pandemia?
Temos visto várias empresas se voluntariando para usar sua expertise e possibilidade da criação de valor a favor da causa. O Grupo Pão de Açúcar, por exemplo, já distribuiu mais de 2 mil cestas básicas para mulheres vítimas de situação de violência. O Grupo Accor e a Uber também vêm disponibilizando seus respectivos serviços, de hospedagem e deslocamento, para mulheres vítimas de violência.

O Instituto Avon, a Uber e a Smarkio desenharam juntas com a Decode uma ferramenta de inteligência artificial disponível por WhatsApp. É como se fosse uma amiga virtual, um chatbot batizado de Angela, que fica à disposição da mulher 24 horas por dia. 

Ao iniciar uma conversa, a Angela faz algumas perguntas que, em primeiro lugar, visam fazer uma triagem para entender qual a necessidade daquela mulher. A que tipo de situação de violência ela está exposta? Ela corre risco iminente à vida? 

Uma vez compreendidas essas questões, a mulher é encaminhada a algumas assistências possíveis. Por exemplo, assistência psicológica, por meio de parceiros como o Psicologia Viva, que desenvolveu uma terapia breve de dez questões para dar um reforço emocional à mulher nessa jornada de reconhecimento da violência.

Pode ser também um apoio jurídico, por meio do escritório De Vivo, Castro, Cunha e Whitaker Advogados, que ajuda a mulher a entender seus direitos e como buscá-los. Ou ainda um encaminhamento a algum dos 5 mil serviços públicos de apoio à mulher em situação de violência cadastrados. A ferramenta indica por geolocalização a estrutura mais próxima. 

Recentemente tivemos o episódio terrível da menina de 10 anos que foi estuprada pelo tio e enfrentou protestos para realizar um aborto legal… Como o Instituto se posiciona frente a temas e episódios como esses?
O Instituto não se posiciona em casos específicos, e sim sobre a causa de maneira geral. E já há algum tempo estamos atentos à violência contra meninas. Mudamos inclusive o nome da causa — que antes era de enfrentamento à violência [apenas] contra mulheres.

A gente busca muito falar com homens, porque faz toda a diferença. Em 2016, fizemos uma pesquisa sobre o papel do homem na desconstrução do machismo. E vimos que o meio mais eficaz para um homem mudar de atitude era conversar com outro homem. Então a gente incentiva muito a conversa com eles — e entre eles

Nossa atuação se dá produzindo conhecimento — e não do tipo “professoral”. Na pandemia, montamos, em parceria com o Papo de Homem e o Quebrando o Tabu, uma série de posts e vídeos, sobre temas como consentimento, como falar com homens sobre a violência contra mulheres e meninas… 

Esse material foi produzido em parceria com homens, pela mediação do Papo de Homem. De forma que, quando as peças de comunicação ficaram prontas, elas se espalharam naturalmente pela rede de homens interessados no assunto.

Outro foco do Instituto é o combate ao câncer de mama. E a pandemia traz um receio das pessoas irem a hospitais — atrasando possíveis diagnósticos…
Estamos atentas também a esse problema. A pandemia fez com que muitas adiassem a realização de seus exames de rotina e algumas adiassem até a busca de resultados ou de início do tratamento. 

E isso é terrível: o tempo é ouro para a realização de um diagnóstico precoce e de um tratamento ágil e assertivo. E é essa combinação, de diagnóstico e tratamento, que salva vidas

Já fizemos campanhas de conscientização, e vamos reforçar isso no Outubro Rosa, exortando que as mulheres não adiem seus exames de rotinas, o rastreamento de sintomas, as consultas com ginecologistas e oncologistas. Fizemos também uma série de lives, buscando jogar luz sobre esse problema. 

Lançamos ainda uma parceria com o Instituto Oncoguia, um portal para orientação do paciente, amigos e familiares de câncer, não só de mama, mas todos os tipos. O Instituto Avon patrocina o canal LigueCâncer, que orienta sobre como os serviços estão funcionando na pandemia, quais os direitos dos pacientes, como acessá-los…

Olhando para trás, que realizações do Instituto trazem mais orgulho para você?
A Avon tem uma rede de representantes de mais de 1 milhão de mulheres. E a gente sabia que entre elas haveria aquelas que já lideram seus projetos para defesa de interesses das pacientes com câncer de mama ou voltadas ao enfrentamento da violência. Mas não sabíamos onde estavam essas iniciativas, nem se eram maduras, estruturadas… 

Então, lançamos internamente o prêmio “Juntas Transformamos”. A intenção era identificar quais os empreendimentos sociais, mesmo que latentes, já existiam na nossa rede e que poderíamos acelerar por meio de mentorias, capital-semente…

É maravilhoso ver o respeito na vida da mulheres. Vou dar um exemplo. O nome dela é Luzitânia, uma jovem de Tancredo Neves, na Bahia. 

Ela vive num dos municípios mais violentos para mulheres do Brasil. Sofreu com abandono de pais, tentativa de estupro. E tinha um projeto de escrever a sua história e convidar outras mulheres a escrever as delas. Porque, pela narrativa, elas poderiam fazer a transição de vítima para sobreviventes — e agentes de transformação

Eu conheci a Luzitânia quando ela ganhou o prêmio. Até então, o projeto era uma ideia, apenas. E ela era tão tímida que logo depois eu não lembrei mais dela. 

Um ano depois, fizemos um novo encontro. E aí ela já tinha passado pelo programa de mentorias e empreendedorismo social, já tinha publicado seu livro com outras mulheres… Ela havia se tornado conselheira do Conselho da Mulher, do Adolescente e da Criança do município dela, tinha conseguido financiamento de outros fundos sociais… 

Era outra pessoa, irreconhecível. Uma mulher que sabia contar a sua história, falar da sua intenção. Uma mulher que transformou dúvidas em resiliência, convicção.

Eu me orgulho muito desse aprendizado. Muitas vezes, essas empreendedoras sociais passam despercebidas, estão desconectadas — mas elas estão aí. E a gente tem a possibilidade de conectar, impulsionar e reconhecer o trabalho delas.

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