“O mercado deveria ter vergonha de desqualificar alguém por ser mãe, por sua cor de pele ou por ser uma mina trans”

Tawane Silva - 3 jan 2020
Tawane Silva, criadora do Projeto Periféricas, hoje atua como diretora de arte da Agência Mestiça.
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por Tawane Silva

Passei muito tempo refletindo sobre espaços e oportunidades. Sobre sonhos e direitos. Tem muita gente ainda lutando pelo direito de sonhar. Temos milhões de brasileiros desempregados, sendo 59% mulheres, e esses são apenas os dados gerais.

Precisamos colocar nessa conta pessoas que não conseguem emprego pelas barreiras ‘simbólicas’ do preconceito de ser mulher periférica, mãe, não falar inglês e até não seguir os padrões ‘devidos’ para uma vaga

Não apenas pensando, mas vivenciando quase todas essas questões, percebi que estava na hora de construir algo real, algo que ajudasse os meus. Até porque sou essa mulher negra que precisou vencer preconceitos, passar por quase todas essas barreiras simbólicas para estar na área criativa de uma agência. E ainda preciso vencer alguns outros para ir além na construção e realização dos meus objetivos profissionais.

Com isso em mente, apresentei para o mercado o “Periféricas: A busca por novas narrativas”, um projeto que busca abrir as portas do mercado de publicidade e comunicação para mulheres que moram em regiões periféricas da Grande São Paulo. Ao fim do programa, a ideia é que elas saiam do nosso laboratório com um portfólio foda, com noção do que é trabalhar em agência, sabendo se curtem mais redação ou direção de arte, e com algum networking com profissionais do mercado.

Estamos falando sobre pertencimento em espaços nos quais essas mulheres não entram e não têm visibilidade. Ouço inúmeras perguntas sobre o que me inspirou ou quem me inspirou e a verdade é que a periferia me inspira todos os dias. Os meus amigos periféricos me ensinam todos os dias

Quando o assunto é distância do trabalho, particularmente eu entendo. Vocês têm noção de que passo duas horas no trem, uma média de 4h20 no transporte público todos os dias? Vocês querem mesmo falar de criatividade com a gente? No meu caso, são quase 170 km só pra ir e voltar do trabalho. Vocês querem mesmo falar de resiliência, empenho e vontade com a gente? Somos nós, os que têm menos, doando mais de si, todos os dias. Mano, sério que o RH da sua empresa quer saber se “eu vou vir mesmo trabalhar”?

É importante pontuar que estar nas grandes agências foi o meu foco profissional desde quando entendi que queria fazer Publicidade. Estamos falando de convencer as pessoas de que uma boa ideia pode mudar e salvar vidas, pode trazer esperança. Tive uma única oportunidade e a agarrei. É sobre isso, sobre acesso, oportunidades de escolhas e liberdade para que todos possam sonhar que estou falando.

A construção do Periféricas se dá justamente por entender que nem todo mundo precisa sonhar o que eu sonho, ou viver essa loucura de morar longe do trabalho, mas todo mundo precisa ter oportunidade de escolher o que quer para vida e não ser excluído.

Ninguém deveria mentir sobre onde mora com medo de não ser contratado, nenhuma mulher deveria ser excluída por ser mãe, muito menos, pela tonalidade da pele. E as minas trans? O mercado deveria ter vergonha de desqualificar alguém por qualquer uma dessas questões

Afinal, as mulheres não só estudam mais que os homens no Ensino Médio, como são maioria com Ensino Superior. É para isso que o Periféricas existe, pra trazer preparo visando a equidade das mulheres periféricas que estiveram todos esses anos sendo desconvidadas desses espaços.

Não é surpresa para ninguém que as agências buscam profissionais que passaram por grandes universidades, que ficam nos grandes centros. Porém, essa ideia de que os melhores profissionais estão lá, é ultra elitista e até ultrapassada.

Se as agências e o mercado como um todo não acompanharem a evolução do pensamento coletivo das próximas gerações, com certeza ficarão para trás, apegados aos seus modelos de negócios inflexíveis e totalmente retrógrados.

Enquanto as pessoas tiverem os mesmos perfis dentro das agências, a inclusão continuará difícil. A publicidade precisa de pessoas com vivências e narrativas diferentes para compor boas ideias. Nosso objetivo não é apenas falar sobre diversidade, mas incluir a maioria minorizada

A quebrada está cheia de gente talentosa e que não está esperando das produtoras e das agências uma oportunidade. Todos os dias, os coletivos crescem, os artistas inovam, os estilistas exploram a cultura e realizam trabalhos impecáveis. O cinema independente da periferia é surreal. É sensível e ao mesmo tempo impactante. É poético, político e educativo. É transgressor e de verdade. A geração que vem aí não aceita nada menos do que isso.

O Periféricas junta todas essas pontas. Une os grandes centros à periferia, une faculdades às agências. Nesta primeira edição, são doze encontros aos sábados, iniciados no dia 19 de outubro e previstos para acabar em 15 de fevereiro de 2020, um total de quatro meses. As reuniões acontecem na agência Mestiça, parceira do projeto, que selecionou dez estudantes da Universidade Mogi das Cruzes — a mesma onde estudei — para participarem.

A galera da agência topou se voluntariar e ajudar as meninas a montar um portfólio para a inserção nos departamentos de criação — aliás, é na criação que temos menos mulheres. Nestes doze encontros, estamos ministrando workshops e tentando ajudar na formação profissional delas, mostrando como é a vida em agência de propaganda, o lado mercadológico com o cliente e falando sobre liberdade criativa.

Nossos critérios de seleção para participar do projeto priorizou meninas que encontram mais barreiras simbólicas, entre elas: a dificuldade de inserção no mercado, a demora e forma do deslocamento até a faculdade e o pagamento do curso. Das dez selecionadas, nove são bolsistas. Isso diz muito sobre quem elas são, sobre suas lutas, dedicação e conquistas.

Queremos atingir outras agências, produtoras e empresas. Temos um milhão de possibilidades para o projeto. Seguir com polos espalhados por aí é uma delas. Felizmente, tivemos muita gente interessada em ajudar. Estamos pensando nos caminhos que temos para as próximas edições.

Sei que iniciamos um movimento que não começou em mim. Está lá atrás na luta de outros como eu, mas que marca o agora e impacta o por vir. Temos muito trabalho pela frente. Quem quiser que nos acompanhe, pois é junto que se constrói. A gente se transforma quando estamos conectados uns aos outros.

 

Tawane Silva, 23 anos, é Diretora de Arte na Agência Mestiça. Ganhou coletivamente o prêmio de Melhor curta-metragem nacional pelo júri popular com o “Perifericu” no 27° Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, além do prêmio especial de ”Filme Mais Transgressor”. Entrou, em 2019, para a lista dos 10 melhores na premiação internacional do Lusófonos, na categoria “Jovem Criativo” e este ano entrou na lista do Papel & Caneta como um dos “30 Jovens Que Lutaram Para Mudar a Indústria da Comunicação em 2019“, com a idealização do projeto Periféricas. 

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