“O Natu Contos é um projeto que cresce no tempo das árvores, com o apoio de pessoas sensibilizadas em proteger a natureza”

Fernanda Sarkis Coelho - 7 fev 2020
Depois de sete anos, Fernanda Sarkis Coelho conseguiu viabilizar o app Natu Contos, disponível para iOS e Android gratuitamente.
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por Fernanda Sarkis Coelho

Naquele ano eu morava em Londres. Trabalhava na área de criação de um agência digital. Lá, tínhamos reuniões mensais para checarmos as novidades do mercado. Fui apresentada a um app de turismo que permitia às pessoas ouvirem histórias sobre a cidade à medida que passavam por pontos históricos. Achei a plataforma fantástica e fiquei com aquilo na cabeça.

Foi assim, durante um final de semana, numa tarde de clima ameno, andando com um amigo pela natureza do Kensington Gardens, que a ideia veio como um raio.

O contato com o verde me fazia muito bem, me acolhia da saudade que sentia da família nos dias cinzentos londrinos. A natureza salva. Enquanto caminhávamos, nos deparamos com uma estátua do Peter Pan, colocada ali em 1912. A estátua foi colocada sem permissão, da noite para o dia, para parecer que foi posta por fadas. Uma surpresa para as  crianças que iam ao parque dar comida aos patos. Meu amigo me contava essa história quando tudo se encaixou perfeitamente à cabeça:

“Uau! Como seria bom se as árvores pudessem contar histórias! Quantas histórias elas não presenciaram acontecendo por aqui?” Pausa. Mas, bem, elas podem!

Eu que vivia o mundo da publicidade, e na maioria dos casos criava projetos sem propósito algum, havia tido uma ideia da qual me orgulhava, que movia o mais profundo da minha alma. Minha jornada para tirar do papel o aplicativo das  árvores que contavam histórias se iniciava ali.

Mobilizei as pessoas da agência e muitas se disponibilizaram em ajudar. Mas, ao final, o projeto foi encerrado por falta de recursos. A Inglaterra passava por uma crise econômica. Cheguei a falar com muitas pessoas que estavam à frente dos parques de Londres, fui à Penguin, editora de livros, comecei, inclusive, a criar contos para diferentes espécies de árvores que eram facilmente encontradas ali. Dedicava a maioria do meu tempo livre ao Tree Tales, nome do protótipo na época.

No ano de 2013, a crise econômica ganhou força. O clima de xenofobia pairava nas ruas e no mercado de trabalho.  Afinal, como dar um emprego para estrangeiros sendo que tantos ingleses estavam desempregados? A falta de afinidade com o frio londrino, a crise e a perda de um emprego acabaram me trazendo de volta ao Brasil

Ao contrário da Inglaterra, o Brasil se apresentava como o país do momento. O país que ia sediar a Copa do Mundo. O país que estava crescendo e investindo em cultura. Muitos editais estavam sendo criados e as leis de incentivo pareciam ser uma ótima alternativa.

Cansada da publicidade, comecei a trabalhar em um produtora de audiovisual. Por intermédio de um amigo da produtora, fui apresentada à Andrea Pelagagi.  Ela também havia morado, por anos, em Uberaba (MG), cidade onde nasci. A Andrea, que é autora de livros, se apaixonou pelo projeto e me apresentou para o pessoal da Fundação SOS Mata Atlântica.

Formamos uma parceria. Apliquei o projeto em leis de incentivo, em editais, mas infelizmente nunca fui contemplada com um investimento. Confesso que a área de vendas não é o meu forte. A ideia parecia ser muito nova. Naquela época, não tinha Pokémon GO… Era muito difícil fazer com que as pessoas visualizassem o projeto. Elas me achavam meio louca. Amavam a ideia, mas desconfiavam se era mesmo possível. Eu nunca desisti.

Perdi a conta das milhares de vezes que fui a reuniões, das inúmeras apresentações que desenvolvi. Foram muitas versões. Perdi a conta dos inúmeros sábados e domingos em que trabalhei. Essa é a vantagem de ser apaixonada pelo seu projeto. Eu não tinha limites e não me parecia um trabalho

Em 2016, eu tive que enfrentar o projeto de vez. Já não cabia mais dentro do meu peito levar outro “não” de uma empresa que gostava do projeto mas não queria patrocinar. Embora meu ganha-pão viesse de outros trabalhos, eu sonhava e desejava muito ver o Natu Contos, nome que o app ganhou, saindo do papel, deixando de ser apenas uma ideia.

Foi num período muito difícil da minha vida que então tomei uma importante decisão. Eu estava insatisfeita com meu emprego em São Paulo e havia terminado um namoro de quase três anos.

Estava exausta de fazer e desenvolver projetos para os outros, muitos sem propósito algum, e de não ter tempo para o projeto que eu mais amava. O Natu tinha um propósito que misturava tudo que mais amo e acredito ser essencial na vida: natureza, educação, literatura, família

Decidi passar um tempo em Uberaba. Aos 32, voltei a morar com meus pais, depois de quase nove anos vivendo fora (seis em Londres e quase três em São Paulo). Por intermédio de um primo, que havia se formado no ITA, conheci um de seus colegas. Ele foi o primeiro programador do projeto e fez a promessa de me entregar um MVP, primeiro para iOS e depois para Android. Eu não entendia muito de tecnologia e tampouco do universo de trabalho da programação.

Fui em frente, comecei a criar o conteúdo e a mapear as árvores. Em Uberaba, eu tinha tempo e apoio familiar. Falei com o Claudio Fragata, grande autor de livros para o público infantojuvenil. Eu havia participado de uma oficina de escrita mediada por ele, além de ter passado outro ano desenvolvendo um livro infantojuvenil com seu apoio.

O Claudio é um entusiasta do projeto e foi essencial na formação do times de autores que hoje fazem parte da nossa equipe. Ele sempre me deu muita força para seguir adiante. A Andrea, claro, foi convidada para ser uma das autoras. Depois, fui juntando outros amigos. O Antônio, botânico e amigo de infância, colocou-se à disposição para me ajudar. Juntos, criamos as fichas técnicas e ele foi me ensinando sobre as árvores.

Era tão fascinante aprender mais a fundo sobre cada uma delas! Árvores são entidades maravilhosas que precisam ser valorizadas

A partir dos dados científicos, desenvolvi um briefing para os autores, que foram criando os textos. Outro amigo de Uberaba, o Tiago Calçado, prontificou-se a fazer a primeira animação de uma das árvores para o projeto. O amigo de um amigo, o ilustrador Arthur D’araújo, disse que faria as ilustrações. Ele me ajudou a desenvolver a identidade visual e também tornou-se um investidor. A moeda era seu trabalho. Outro amigo de minha cidade natal, da época de faculdade, disse que faria o soundmix. E, assim, tudo começou a se encaixar.

Uma amiga, a Raquel Paoliello, se prontificou a fazer o design do aplicativo, também no risco. Disse que eu pagaria pelo seu serviço “quando e quanto pudesse”. De um lado, havia a SOS Mata Atlântica me ajudando com sua chancela e curadoria de informação, possibilitando que as pessoas fossem cada vez mais acreditando no projeto. De outro, eu estava articulando com meus amigos e pessoas que amam genuinamente natureza e literatura. Que acreditam na urgência de restabelecer a conexão das pessoas com as árvores e com a natureza das cidades.

Uma delas foi o Lenine. Ele topou dar voz ao Jequitibá. Depois, ficou mais fácil trazer outros artistas. Eu mal podia acreditar quando a Fernanda Takai disse sim, depois a Tiê, a Mart’nália e por fim, o Ney Matogrosso. Que honra ter gente de tanto peso a bordo do projeto. Meu coração se enchia de coragem. Depois de tantos NÃOS, de tantas reuniões, de tanto tentar, finalmente as pessoas diziam SIM. Sim, eu quero participar porque essa ideia me move

Falei com os representantes dos parques, fui ao Rio de Janeiro mapear o Jardim Botânico, fomos eu e Andrea para Belo Horizonte gravar com a Fernanda Takai. Conheci o pessoal do Parque do Ibirapuera, do Trianon, de tantos parques. Conheci o pessoal da Secretaria do Verde, da UMAPAZ, vários botânicos, educadores e por aí vai.

E quando vi, puxa, eu já conhecia muita gente envolvida com o meio ambiente, literatura, educação, amigos que me deram muita força para que eu pudesse persistir no sonho de tirar o projeto do papel. O material estava pronto, as árvores foram mapeadas.

Em 2017, começamos a produzir o app com o colega do meu primo. No meio do ano, voltei a morar em São Paulo. Esse período, contudo, foi também difícil. Eu achei muito complicado trabalhar com programadores. Eles apresentam problemas, mas não soluções. Diziam que o projeto deveria custar mais do que acordaram e, por fim, me entregaram o material pelas metades.

Eu nem tinha forças, nem dinheiro para processar ninguém. Fiquei sem chão. Como ia contar para todos aqueles que haviam se envolvido com o projeto, gente que havia se dedicado tanto, que o sonho estava se desmoronando? A tristeza bateu forte mesmo.

Tive que engavetar o projeto por um tempo. Cheguei a sentir raiva dele. Me senti estúpida, mal comigo mesma. O tempo passou. O que é de verdade, sobrevive. Meu amor pelo propósito era bem maior e eu não podia deixar tudo que havia conquistado se desfazer.

Foi em 2018 que procurei um outro programador. Ele topou ajustar a versão que tinha para iOS e finalizá-la. Ele fez um valor camarada. Então, trabalhei como freelancer para fazer um extra, juntei mensalmente dinheiro e fui pagando aos poucos.

No final de 2018, subimos o app para a loja da Apple. Quanto alívio, quanta felicidade!!! Em 2019, lançamos o projeto durante a 4ª Semana Senac de Leitura.

Quando vi as pessoas interagindo com o app, as crianças ouvindo as histórias, aprendendo a identificar as árvores, naquele dia, tudo valeu a pena. FINALMENTE!

Depois de sete anos! Mas ainda estava incompleto: o problema é que não tínhamos verba para fazermos para Android. Eu não podia lançar o aplicativo como havia sonhado. Ao final de 2019, em parceria com a Fundação SOS Mata Atlântica, criamos um financiamento coletivo para conseguirmos desenvolver a versão para Android, democratizando a plataforma para mais crianças, famílias e escolas! Sempre lembro que é uma plataforma oferecida gratuitamente. Tive muito medo do financiamento não dar certo, mas me surpreendi! Conseguimos! A versão Android será lançada em julho deste ano.

Natu Contos é um projeto que cresce no tempo das árvores, com o apoio e colaboração de muitas pessoas que nem conheço pessoalmente, mas que são movidas pelo desejo de fazer algo de bom para o mundo, que estão sensibilizadas com a importância de se proteger e reconhecer a natureza como ela merece. Isso é lindo demais

Em um momento da história brasileira e mundial em que vivenciamos um descaso enorme com a natureza, eu só agradeço a todos aqueles que contribuíram com o projeto, não visando o dinheiro, mas visando algo MUITO maior, que não tem preço. Que compreendem que é só através de micro políticas que podemos mudar o mundo, com pequenas atitudes — mas atitude que tocam. O projeto sempre me fez ter muita fé na humanidade e aproveito para agradecer a todos da equipe que o acompanham há anos, a todos que estão se mobilizando.

Nosso sonho continua: espalhar o projeto para muitos lugares, desenvolver mais histórias, atividades que possam mobilizar as pessoas para fazerem atividades ao ar livre e a terem um olhar mais afetivo com a natureza. Aos que são fã de natureza, sejam todos muito bem-vindos. Obrigada.

 

Fernanda Sarkis Coelho é pós-graduada em Direção de Arte e Redação pela West Herts College, Londres, onde trabalhou na área de criação digital. É idealizadora, fundadora e diretora criativa do projeto educacional Natu Contos, edição Contos das Árvores, realizado em parceria com a Fundação SOS Mata Atlântica. Vive e trabalha em São Paulo como roteirista, atuando também nas áreas de pesquisa criativa e concepção de projetos audiovisuais.

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