O que Barcelona, Lisboa e São Paulo ensinam hoje sobre como construir uma cidade inteligente

Thomas Law - 15 mar 2022
Thomas Law, advogado e fundador do hub de inovação Ibrawork.
Thomas Law - 15 mar 2022
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Uma cidade pode ser considerada smart (ou “inteligente”) quando os investimentos incentivam o crescimento econômico e a qualidade de vida, focados no capital humano e social, no transporte e na infraestrutura de tecnologia da informação integrados.

Logo, o desenvolvimento de cidades inteligentes trabalha em consonância com o que preveem os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU. 

Quando se olha atentamente para os objetivos estabelecidos pela Organização das Nações Unidas e suas múltiplas metas, vemos, por exemplo, o quarto ODS, que visa o estabelecimento de “Educação de Qualidade” na esfera global.

Um dos elementos centrais para isso é a inovação, fundamental para o crescimento econômico. Por sua vez, o ODS 11, “Cidades e Comunidades Sustentáveis”, está relacionado a questões que vão desde os transportes até a implementação de políticas voltadas para mudanças climáticas. 

COMO A TECNOLOGIA PODE AJUDAR A SUPERAR DESAFIOS SOCIAIS, POLÍTICOS E ECNÔMICOS NAS GRANDES CIDADES

Mas por que isso é importante? Segundo o relatório global da World Tourism Organization, a população urbana mundial deverá crescer 61% até 2030.

O volume de pessoas vivendo em cidades aumentará para 5 bilhões. Os desafios sociais, políticos e econômicos serão mais complexos e aumentarão exponencialmente até o final desta década.

O uso das tecnologias inteligentes em espaços urbanos e a serviço das pessoas, equipadas com seus gadgets pessoais — smartphones, tablets e smart watches –, será importante para o poder público gerenciar multidões e catástrofes

As novas tecnologias, como inteligência artificial e utilização de grandes quantidades de dados sobre um determinado tema, o chamado big data, são aliados fundamentais nos processos modernos de gestão pública.

Sendo bem utilizados, podem oferecer previsões confiáveis sobre tendências e apontar que obstáculos precisam ser superados antes que se tornem um problema de grandes proporções.  

Também é necessário fazer um gerenciamento inteligente dos recursos naturais, por meio do governo participativo.

Este é um tema apontado repetidas vezes por especialistas e que tem muito a ver com a consciência cada vez maior de que a administração pública precisa imprimir a preocupação com sustentabilidade em todos os aspectos da vida cotidiana. 

ALÉM DA TECNOLOGIA, É PRECISO IMPULSIONAR A INDÚSTRIA CRIATIVA PARA CRIAR POLOS INTELIGENTES

Pode-se dizer que a constituição de uma cidade inteligente, inovadora e sustentável implica na garantia de uma boa qualidade de vida urbana para o conjunto de habitantes, o que passa pela questão da mobilidade urbana e da implantação de “clusters criativos”.

O conceito de clusters tem a ver com concentrações de empresas do setor criativo em uma determinada área geográfica. Isso inclui tecnologia, design, arquitetura, moda, literatura, gastronomia e artes visuais, entre outras

Popularizados na década passada, esses espaços vêm provocando mudanças positivas, tanto econômicas quanto sociais, em cidades que decidiram apostar nesta tendência.

Para termos uma maior clareza sobre como isso pode ser feito, basta analisarmos os exemplos de Barcelona, Lisboa e São Paulo.

Estas cidades são verdadeiros polos de inovação em seus países, servindo como agentes de transformação de regiões urbanas que eram consideradas áreas degradadas e se tornam polos estratégicos com forte atração de investimentos e empresas. 

COMO BARCELONA IMPULSIONOU A INOVAÇÃO APOSTANDO NA INTERNET OF EVERYTHING 

Ao observar-se mais de perto o que acontece em Barcelona, chama atenção o  Centro Global de Inovação criado pela Cisco na cidade espanhola, dedicado à Internet of Everything (IoE) aplicada às smart cities.

O investimento total foi cerca de 30 milhões de dólares, incluindo uma área de demonstração e um laboratório de desenvolvimento de soluções e serviços para a gestão inteligente dos serviços da cidade. 

O centro foi viabilizado por meio de uma parceria do município de Barcelona e tem a finalidade de ser uma plataforma de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e de novas oportunidades de negócios. Já está consolidado como um verdadeiro ecossistema de inovação

Afinal, o conceito de IoE ou “internet de tudo” permite não apenas o gerenciamento de dispositivos conectados que compõem a IoT (Internet das Coisas), mas também utiliza o compartilhamento de dados por meio de conexões e processos complexos entre diversos objetos e os seres humanos.

É um passo adiante na interação com a tecnologia, proporcionando uma integração real para a formação de uma rede online com o objetivo de permear ainda mais a vida em sociedade.

JÁ LISBOA APOSTOU NA CRIAÇÃO DE UMA ILHA CRIATIVA, A LXFACTORY

Outro bom exemplo está em Lisboa, onde se localiza a LXFACTORY. A Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense, um dos mais importantes complexos fabris da capital de Portugal, se instalou em Alcântara em 1846.

Posteriormente, esta área industrial de 23 mil foi ocupada pela Companhia Industrial de Portugal e Colónias, tipografia Anuário Comercial de Portugal e Gráfica Mirandela.

Uma parte da cidade que permaneceu escondida durante anos é agora devolvida à comunidade na forma da LXFACTORY, uma ilha criativa ocupada por empresas e profissionais dessa indústria

Ela também tem sido cenário de uma programação diversificada nas áreas da moda, publicidade, comunicação, multimídia, arte, arquitetura e música. Essa movimentação intensa gera uma dinâmica que tem atraído inúmeros visitantes a conhecer o espaço. 

Na LXF, o ambiente industrial foi transformado em uma fábrica de experiências que torna possível interagir, pensar, produzir, apresentar ideias e produtos num lugar que é de todos, para todos.

UM EXEMPLO DO QUE ESTÁ ACONTECENDO EM SÃO PAULO

Em São Paulo, no bairro da Mooca, existe uma transformação urbana visível. Em lugares das grandes indústrias fabris e galpões de outrora agora existem clusters de inovação como universidade, complexo desportivo e áreas de entretenimento.

Pode-se destacar que a existência na rua Borges de Figueiredo de novos polos de inovação como a Faculdade das Américas, a Ibrachina Arena (um complexo desportivo e clube formador com projetos sociais em Heliópolis, a maior favela da América Latina) e também a Garagem 55 (área de entretenimento com carros antigos, modernos e eventos corporativos).

Isso serve para demonstrar que a cidade de São Paulo está atingindo patamares interessantes de clusters de criatividade que enseja novos investimentos na capital e desenvolve áreas consideradas degradadas

Levando tudo isso em consideração, conclui-se que é preciso incentivar, cada vez mais, iniciativas focadas em inovação/criatividade em prédios privados para revitalizar ruas e bairros.

O fomento dessas áreas poderá transformar as cidades brasileiras em smart cities, onde a utilização do que a tecnologia tem de melhor a nos oferecer casa com o desenvolvimento das sociedades para um futuro melhor, conforme preconiza a Agenda 2030.

 

Thomas Law é doutor em Direito Comercial pela PUC/SP, sócio-proprietário do escritório de advocacia que leva seu nome, presidente da Coordenação Nacional das Relações Brasil-China da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), do Instituto Sociocultural Brasil-China (Ibrachina) e fundador do hub de inovação Ibrawork, além de diretor do Centro de Estudos de Desenvolvimento Econômico e Social da USP.

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