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O que fazer quando seu negócio desaba? A fábrica da Chokolah foi literalmente para o chão – e se reergueu

Adriana Fonseca - 4 jan 2018 Claudia Schultz, da Chokolah, conta como o doce entrou na sua vida para, aos poucos, transformar tudo.
Claudia Schultz, da Chokolah, conta como o doce entrou na sua vida para, aos poucos, transformar tudo.
Adriana Fonseca - 4 jan 2018
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O ano de 2016 jamais será esquecido pela empreendedora Claudia Schultz, 43, dona da marca de chocolates orgânicos Chokolah. Foi quando a fábrica da empresa, novinha, operando há poucos meses, veio abaixo durante um forte temporal. Instalada em São Roque, a 60 quilômetros da capital paulista, a estrutura não resistiu aos fortes ventos e foi parar no chão. “Em uma situação assim, o primeiro reflexo é o choque. Eu não sabia o que fazer, o chão desapareceu. Mas, aí, começam a chegar as pessoas e, em uma tragédia dessa, me deparei com a solidariedade”, conta Claudia.

Atitudes como a de um grande amigo, que chegou ao local logo após o desabamento e organizou um mutirão, ajudaram a salvar o que era possível (parte dos equipamentos, estoque e matéria-prima). Ainda assim, o prejuízo foi de 4 milhões de reais. A fábrica era um sonho, o ápice da Chokolah até então. Diante de Claudia, agora, estava o desafio de reconstruir algo que acabou significando muito mais que apenas um business em sua vida.

O QUE UMA SOCIÓLOGA VIU NO CHOCOLATE?

A relação dela com os chocolates começou quando ainda cursava a faculdade de Sociologia. Sim, Sociologia! Nada a ver com gastronomia. Mas, durante o curso, para levantar dinheiro, Claudia começou a fazer chocolate caseiro para vender. Na época ela não fabricava o doce, apenas comprava barras prontas, derretia e inventava alguns recheios. “Eu até gostava de fazer aquilo, mas não me encantava”, lembra.

Os produtos da Chokolah são do tipo "bean to bar", produzidos artesanalmente, sem ingredientes artificiais e praticando comércio justo.

Os produtos da Chokolah são do tipo “bean to bar”, produzidos artesanalmente, sem ingredientes artificiais e praticando comércio justo.

O que a encantou veio só depois, em 2002, quando foi convidada por uma ONG para ajudar em estudos sobre processamento de cacau na Bahia, a fim de desenvolver protocolos para produção de versões orgânicas do fruto. Foi quando deu liga. Claudia se envolveu de maneira muito forte com o projeto e enxergou ali a possibilidade de criar algo, como conta:

“O Brasil é plantador de cacau e consumidor de chocolate, mas não se destacava na produção de qualidade. Percebi que podíamos começar a alterar isso”

Nessa época, o negócio de chocolates caseiros já tinha crescido um pouco e ela já fornecia para festas e restaurantes. Depois da experiência na Bahia, aos poucos, com os conhecimentos que adquiriu em livros, cursos (até para a Suíça ela foi) e em muita conversa aqui e acolá, Claudia foi melhorando a qualidade do que fazia.

Só em 2009, no entanto, é que ela encontrou o caminho para produzir o seu próprio chocolate, que tem o diferencial de ser orgânico, ter baixa carga de açúcar e alta carga de cacau. Foi aí que, de fato, nasceu a Chokolah. Usar matéria-prima brasileira, aliás, é uma premissa do negócio. “Não faz sentido trazer de fora quando temos produtos tão bons aqui”, diz Claudia. “Acredito que consumir localmente e fomentar o trabalho do brasileiro é o mais lógico a se fazer.”

Ela compra cacau direto de produtores orgânicos do Norte e Nordeste do Brasil, sem atravessadores, para remunerá-los melhor, algo que Claudia também entende como fundamental. “Além de justo, por pagar melhor o preço do cacau, posso exigir mais qualidade da matéria-prima”, afirma. Seu business é um expoente do bean to bar (em tradução livre, “do grão à barra”), denominação dada a chocolates que, mesmo industrializados, têm um cuidado artesanal em seu preparo.

Produtores orgânicos de cacau para a Chokolah experimentam a versão final do produto.

Produtores de cacau orgânico para a Chokolah experimentam as barras prontas.

Na Chokolah, por exemplo, um profissional fica responsável por separar manualmente a amêndoa do fruto, que será utilizada na fabricação das barras de chocolate. É uma forma de evitar impurezas e amêndoas ruins. Em seguida veem as etapas de torra, refino (que segue o padrão europeu, com moinho de rolo), conchagem e cristalização.

Normalmente, os bean to bar reúnem alguns pontos comuns: seleção de cacau especial, uso de poucos ingredientes e sempre naturais (não entram aromatizantes, por exemplo) e a remuneração justa para o produtor. Por todas essas razões, um produto Chokolah custa mais do que o chocolate de consumo popular. O sabor também é diferente: mais sutil, menos doce. É quase outra coisa.

De tempos em tempos, ela ou parceiros levam algumas barras do produto final para os agricultores. No facebook da Chokolah, uma foto de agricultores na roça de cacau informa que eles têm preferido cada vez mais os mais “amargos”, em vez dos super doces da grande indústria. Qualquer paladar pode melhorar. É neste caminho que Claudia aposta.

No começo, a produção da Chokolah tinha que ser feita em fábricas terceirizadas, pois Claudia não tinha dinheiro para investir em maquinário e espaço próprios. “Eu não sabia atrair investidor e não consegui aprender isso com ninguém”, conta, e prossegue:

“Hoje, se eu puder fazer uma recomendação a qualquer empreendedor, digo: monte um bom plano de negócios e vá atrás de investimento”

No caso dela, o negócio foi crescendo sempre devagar, contando somente com recursos próprios. Até a construção da fábrica, que ruiria, foi paga com dinheiro gerado pelo negócio de Claudia — que, aliás, não tem sócios, e agora está formalmente em busca de investidores.

UMA OBRA QUE ATRASOU, UM SONHO QUE FOI AO CHÃO

Após dois anos de operação, a construção da fábrica começou, em 2011, e a previsão de entrega era para o ano seguinte. Mas, como acontece com muita gente, a obra atrasou – só que atrasou muito —, e a linha de produção só ficou pronta em 2015. Foram poucos meses operando no local, engendrado com tanto carinho. Claudia conta que como a Chokolah estava em uma boa curva de crescimento, sua previsão era lançar doze novos produtos em 2016, além de aumentar a produção própria e também para terceiros (algo que o tamanho da nova fábrica permitiria).

Com o desastre, todos os planos tiveram que ser ajustados, mas ela conta que nunca passou pela sua cabeça desistir. “Na minha família tem muita gente que veleja e acho que temos essa ‘cultura do mar’, algo que nos dá prontidão para a tragédia, porque com o mar não se brinca. A força para agir veio de algum lugar que não sei qual, e o cansaço apareceu só depois. Estou vivendo isso agora, na verdade”, diz a empreendedora.

Em junho de 2006, um vendaval destruiu a fábrica da Chokolah. A produção ficou parada por apenas 15 dias.

Em junho de 2006, um vendaval destruiu a fábrica da Chokolah. A produção ficou parada por apenas 15 dias.

Decidida a não deixar seu negócio desaparecer junto com a fábrica, Claudia rapidamente alugou um espaço na mesma São Roque. Ali, onde recebeu a reportagem do Draft e de onde sai neste mês de janeiro (para uma nova fábrica, em Cotia, na Grande São Paulo), montou de forma provisória a linha de produção da Chokolah. A “força para agir” foi tamanha que a produção ficou parada apenas 15 dias: “Foi só o tempo de trocar os componentes das máquinas e transportá-las”.

Desde então — a mudança aconteceu cerca de um ano e meio atrás —, Claudia vem tentando equilibrar o fluxo de caixa. O aluguel, de 30 mil reais mensais, do espaço locado às pressas, não estava previsto no orçamento e hoje pesa nas contas da pequena empresa, que tem 15 funcionários. Mesmo com a situação adversa, o faturamento da Chokolah cresceu 20% em 2017. No ano anterior, faturou 3 milhões de reais e tinha crescido 30%, pois antes do episódio da fábrica Claudia havia fechado contrato com diversos novos clientes, já pensando na nova capacidade de produção.

A SORTE DE ESTAR EM UM SETOR AQUECIDO

“Em 2017, crescemos porque o mercado de chocolates orgânicos e bean to bar, de forma geral, cresceu”, afirma. Para este ano que está começando, a empreendedora conta que o catálogo de produtos vai aumentar. Hoje há dez sabores no portfólio, com versões clássicas de 62%, 70%, 80% e 99% cacau, além dos sabores Menta, Castanha do Brasil, Nibs de Cacau, ao Leite e Leite de Cereais, entre outros (todos sem glúten e boa parte sem lactose, em versões veganas que usam leite vegetal). A barra de 80g custa cerca de 18 reais, e a versão menor (20g) sai por cerca de 5 reais. Em 2018, a linha completa terá 17 produtos.

Claudia conta que todo começo de ano se propõe a disponibilizar algo novo para o consumidor. É também nessa época que ela retira do mercado o que não está registrando boas vendas. Quem sai de linha este ano é o chocolate branco. “O nosso é um branco menos doce do que o ofertado por aí, mas as pessoas não sabem disso e, como a Chokolah é pequena, não conseguimos investir em comunicação, então as pessoas não sabem que o nosso branco tem menos açúcar”, diz, e segue com a lógica empreendedora: “Sei que temos grandes fãs do branco, que provavelmente vão se chatear, mas teríamos que ter um consumo maior para fazer sentido manter a produção”.

Alguns dos produtos da Chokolah. A barra de 80g custa cerca de 18 reais.

Alguns dos produtos da Chokolah. A barra de 80g custa cerca de 18 reais.

Ela conta que, mesmo depois que a fábrica veio abaixo, a Chokolah conseguiu colocar no mercado dois novos produtos: a Castanhella e a Cajuella. O primeiro é um creme de castanha do Brasil (castanha do Pará) com chocolate e, o segundo, um creme de castanha de caju. Os dois cremes lançados recentemente – Castanhella e Cajuella – já representam 10% do faturamento.

A socióloga está cada vez mais à vontade com a vida de empreendedora. Sim, ainda precisa “aprender” a atrair investidores. Mas já provou que sabe reagir rápido e manter o foco no negócio mesmo quando tudo parece ter acabado. Hoje, a Chokolah produz cerca de quatro toneladas de chocolate por mês, quantidade que vai aumentar este ano, assim que a mudança para as novas instalações terminar. Conhecendo Claudia, vai ser jogo rápido.

DRAFT CARD

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  • Projeto: Chokolah
  • O que faz: Chocolates orgânicos "bean to bar"
  • Sócio(s): Claudia Schultz
  • Funcionários: 15
  • Sede: São Roque (SP) mudando-se para Cotia (SP)
  • Início das atividades: 2015
  • Investimento inicial: não houve
  • Faturamento: R$ 3 milhões (em 2016)
  • Contato: [email protected] e (11) 4612-3841
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