“O que fiz em 2015. Como vejo 2016” Nossa conversa de fim de ano com Herman Bessler, d’o Templo

Isabela Mena - 1 dez 2015
Herman Bessler conta que O Templo, no Rio, sentiu a crise no início do ano, mas voltou a crescer e projeta um 2016 positivo.
Isabela Mena - 1 dez 2015
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Passar a régua neste ano de 2015 significa falar de crise e retração na economia. Este ano a inflação atingiu 9,93% (em outubro, segundo o IPCA) e o dólar já bate nos 4 reais (ante 2,80 de janeiro, quem se lembra?). A crise econômica pegou em cheio os negócios dos pequenos e médios empresários — 77% dos entrevistados de uma pesquisa encomendada pelo Sindicato da Micro e Pequena Indústria de São Paulo ao Datafolha dizem que temem ter de fechar seus negócios. Mas riscos sempre estiveram no cardápio do empreendedor. E nem só números se fazem os balanços do ano.

Por isso, estamos publicando uma série de conversas com empreendedores, makers, inovadores e criativos para saber como os negócios disruptivos se comportaram em 2015. Com as mesmas 10 perguntas para todos, queremos saber que transformações ocorreram, que aprendizados é possível tirar do ano, que estratégias foram criadas e usadas para superar dificuldades. É hora, sobretudo, de olhar adiante.

Seguimos a série com Herman Bessler, fundador do Templo, o maior espaço de coworking do Rio de Janeiro. Empreendedor em série, ele fundou e gerenciou negócios nas áreas de produção cultural e investimentos imobiliários, atuou no mercado financeiro e no terceiro setor. Hoje, foca na estratégia de negócios passando frequentemente pela economia criativa e pelas estruturas em rede. Desenvolveu projetos para a formação de líderes em comunidades cariocas e com os doutores da alegria no Hospital do Câncer de Jerusalém. Trabalha com facilitação e educação não-formal desde 2005 e dedica-se a pesquisar, desenvolver e experimentar com novas formatos de trabalho, educação, produção e consumo. 

Se você tivesse que escrever um verbete sobre a atual crise brasileira, como você a descreveria?
A crise que vivemos no Brasil hoje é uma crise que passa pela esfera econômica mas não se limita a ela. É acima de tudo uma crise institucional, de confiança e de expectativas que têm reflexos graves na política, na economia, mas principalmente na sociedade. Eu diria que o que está em jogo é o modelo de nação que queremos construir e quais as instituições e bases ideológicas que estão por trás disso. Não é uma questão de impeachment ou de política monetária e fiscal, ou mesmo de corrupção, ainda que essas coisas sejam importantes e essenciais na discussão. Uma nova pesquisa do Datafolha mostrou que pela primeira vez na história a corrupção é a maior preocupação do brasileiro. Ótimo, estamos descobrindo e nos revoltando com algo que é venenoso e culturalmente arraigado no Brasil há 500 anos. No entanto, não podemos perder de vista que essa crise existe dentro de um contexto maior e que ela é uma excelente oportunidade para mudanças estruturais.

Como foi 2015 no seu quintal? Como a crise está afetando o seu negócio?
2015 foi um ano difícil e fomos muito abalados pela crise no início do ano, especialmente no nosso braço de coworking. Algumas empresas que ocupavam diversas posições (desks) fecharam ou demitiram muitos funcionários e isso deu um baque real na nossa previsibilidade mensal de receita. No entanto, conforme o ano foi se desenrolando, empresas que normalmente optariam por um escritório próprio vieram para o Templo e outras startups cresceram aproveitando as oportunidades que surgiram daí. Hoje, voltamos a estar cheios e a crescer. Também começamos a nos reposicionar buscando novos formatos de receita e hoje estamos equilibrados e crescendo novamente.

Com que cenário você está trabalhando para 2016? Que medidas tomou diante da crise?
Acredito que será um ano difícil no que se refere à situação política e econômica do país. Mas não me assusto demais com isso. As pessoas tendem a reagir excessivamente a mudanças de cenário e, no final das contas, a crise de expectativas agrava a crise real. Espero uma posição cambial ainda de desvalorização mas que pode ajudar a entrada de investimentos externos diretos por aqui. Acredito que apesar desse cenário macroeconômico desfavorável o ecossistema de startups está em franco crescimento, em especial no Rio e em São Paulo, e especialmente quando falamos do setor tech e da economia criativa.

A crise de modelo industrial não se reflete negativamente quando falamos de uma economia criativa baseada no conhecimento

Aqui no Templo começamos um trabalho de reposicionamento, tirando um pouco o foco do espaço físico para estender os braços para nosso trabalho de articulação de redes. Trouxemos mais eventos e cursos de parceiros para dentro das casas, começamos a empreender o Estaleiro Liberdade no Rio, há alguns meses, ampliamos nosso portfolio de serviços aproximando também de parceiros corporativos que buscam soluções em novas formatos de trabalho e as ferramentas de colaboração entre residentes e nossa rede estendida. Também começamos a modelar duas novas iniciativas, mas a gente deixa para anunciar isso no Draft no início do ano! Uma é uma plataforma colaborativa para o ecossistema da moda no país e a outra tem a ver com ajudar grandes marcas a resolver problemas utilizando inteligência criativa em rede. Já já elas saem do forno.

Crise traz mesmo oportunidades ou se trata apenas de uma ameaça?
Existem oportunidades na própria natureza da palavra crise. A palavra grega krísis era usada pelos médicos antigos com um sentido particular. Quando o doente, depois de medicado, entrava em crise, era sinal de que haveria um desfecho: a cura ou a morte. Crise significa separação, decisão, definição. O momento que vivemos é um desses momentos de decisão, de transição de modelos, de interregno. Sendo assim, acredito que existe a oportunidade de surgirem novas ideias, iniciativas, modelos e instituições diferentes daquelas moderno-industriais que já não dão conta das necessidades complexas do mundo pós-moderno em que vivemos. De forma mais tangível, é um excelente momento para arriscar e comprar barato (já que a economia está toda “em promoção”).

Se você tivesse amanhã 1 milhão de reais para investir, o que faria com esse dinheiro?
Faria um pequeno fundo para investir em 20 iniciativas disruptivas com modelos baseados em economia colaborativa, impacto social e novos modelos de trabalho, educação, produção e consumo. Iria desenvolvê-las junto com a comunidade do Templo, dentro das casas. Todas se tornariam sócias umas das outras, desde a fundação, em caráter de experimento. Assim, poderíamos trocar experiências, ferramentas, conhecimentos e conexões entre essas startups e as empresas da nossa comunidade maximizando a possibilidade de impacto positivo, compartilhamento de valor e geração receita para todos os lados.

Se assumisse a presidência do Brasil em janeiro, no lugar da Dilma, o que faria no seu mandato até 2018?
Primeiro me deixe dizer que eu jamais aceitaria essa possibilidade em nenhuma circunstância em sã consciência. Se eu fosse obrigado, começaria desenhando um projeto de país e cenário de futuro de forma colaborativa dialogando com as diversas esferas da sociedade, movimentos sociais, empresas e mais do que tudo com a população, os comuns. Para isso vamos precisar de ferramentas digitais que permitam que esse diálogo aconteça de forma ágil e funcional. Uma vez construído, poderíamos entender e mapear resíduos que possam ser transformados em recursos a partir da coordenação conjunta desses agentes em torno de um propósito em comum: a construção desse país que representa a todos. E, mais do que tudo, eu investiria pesado em repensar radicalmente o nosso sistema educacional, entendendo que a escola e a universidade como conhecemos hoje não são nem a única nem a melhor forma de desenvolver pessoas para o século XXI.

O que você faz para se manter motivado em tempos como esses?
Acho esses tempos extremamente motivantes. Meu negócio tem como objetivo primordial experimentar com novos modelos de trabalho, educação, produção e consumo; contribuir para a transição da velha para a nova economia, construir um mundo onde cada um é livre para empreender a própria vida e o próprio trabalho; contar a história dessa transição e para ela contribuir.

Vejo essa crise como uma fricção natural, como o resultado de uma série de péssimas escolhas políticas, econômicas, morais e institucionais que precisam ser transformadas

Não acho que isso seja necessariamente ruim, acredito que faz parte do processo.

Quais são os três pontos que mais lhe incomodam no ambiente de negócios brasileiro?
Em primeiro lugar, o Estado. A soma entre a burocracia, a ineficiência em estimular pequenos empreendedores e a carga tributária fazem dele o principal entrave para o ambiente de negócios no Brasil. Ele poderia ter um papel importante nesse estímulo mas falta coordenação interna nas três esferas, e entre elas, para que isso possa acontecer efetivamente.
Em segundo, a formação. A educação que temos como base em escolas e universidades forma pessoas para serem previsíveis, buscar respostas certas e se conformar. Além disso, não existe educação financeira e de empreendedorismo real nesses ambientes. É uma educação conteudista, hiperfragmentada e punitiva do erro. Isso é extremamente ineficiente num mundo de negócios onde é preciso empreender, fazer escolhas difíceis, lidar com a incerteza, administrar riscos, buscar soluções que ainda não existem. Precisamos de generalistas pragmáticos e de criativos, não de burocratas eficientes. O erro é essencial para a inovação, o pensamento divergente também. E a inovação é essencial para um ambiente fértil de negócios. Além disso, não temos mão de obra verdadeiramente qualificada em larga escala por todo o país e isso desequilibra o jogo e os ecossistemas como um todo.
Em terceiro, a aversão ao risco. Temos um histórico de juros e inflação altíssimos e baixa disponibilidade de crédito e capital de risco disponível. Isso criou uma cultura na qual o brasileiro médio investe 80% do seu dinheiro em renda fixa e imóveis e apenas 20% em renda variável e negócios. Em outras palavras, historicamente é tão fácil ganhar dinheiro deixando ele parado que o estímulo ao investimento produtivo, em negócios disruptivos e inovação é muito baixo. Mesmo investidores anjo, fundos e ventures buscam garantias e negócios mais safe. Ou seguem tendências de investimentos extremamente específicas como “startups tech com produtos mobile B2B, software como serviço”. As grandes vitórias para investidores nunca chegam a replicar o que já foi feito, ainda por cima em outro país ou ecossistema, vêm de tomar um risco com conhecimento de causa, apostar no novo consistente, ajudá-lo a crescer e colher os louros por isso. A mesma lógica se aplica aqueles que pensam em abrir novos negócios.

O que você diria para quem está nos lendo agora e pensando em abrir a sua startup ano que vem?
Se o seu produto é verdadeiramente bom, seu time é excepcional e o timing de mercado está certo, nada pode te parar. Crise é uma questão do agregado da economia mas sempre vai haver outliers. Abrir uma startup é algo que sempre se faz com as estatísticas contra você. Você é empreendedor da sua vida e mestre do seu destino. Minimiza teu risco no que der mas, em última instância, aposte naquilo que você acredita e vai fundo!

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