OhLord Intimates: como reerguer um negócio após uma jornada cheia de pedras no caminho

Aline Vieira - 19 fev 2015
Lingerie confortável para mulheres comuns: Laura Taylor usa OhLord, clicada por Camila Cornelsen.
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“Dizem que um negócio começa a dar certo só depois do seu segundo ano. Se for mesmo desta maneira, ainda estou no caminho certo”, brinca Letícia Saad, de 31 anos. Nascida em Curitiba, no Paraná, a designer é a fundadora da OhLord Intimates, uma marca de lingeries que tem, hoje em dia, praticamente 100% de sua venda via e-commerce. Depois de muitos “baixos” na caminhada rumo ao sucesso no negócio próprio, a OhLord consegue, pela primeira vez desde o seu lançamento, em 2013, se manter no “zero a zero”: ainda não dá lucro, mas já deixou de dar prejuízo.

Duas são as motivações de Letícia na jornada para emplacar a OhLord Intimates no mercado. A primeira é o desejo de ter um projeto pessoal que a satisfaça e que, quem sabe um dia, renda o suficiente para ser sua principal fonte de lucro. A segunda, a vontade de vender produtos de qualidade (o acabamento é o que mais importa para a designer) e com preços acessíveis para mulheres “normais”.

“O mercado de lingerie há 10 anos, quando comecei a pensar na marca, era bem diferente. Há 10 anos, a gente não tinha essa quantidade grande de modelos e de cores que temos hoje. E o que a gente tinha de especial por aqui era super caro porque realmente era diferenciado. Minha motivação veio daí: fazer coisas bonitas, com um toque retrô, que não custassem um valor tão absurdo”, conta.

Mesmo depois de perder praticamente tudo, Letícia Saad, da OhLord, não desistiu de fazer a marca dar certo

A empreendedora: mesmo depois de perder praticamente tudo, Letícia Saad não desistiu de fazer a marca dar certo.

Letícia cursou Design Gráfico no Centro Universitário Positivo do Paraná. Na semana de sua formatura, em 2005, conseguiu um emprego na editora Abril, em São Paulo, onde passou os próximos oito anos trabalhando na área de marketing da empresa. Por muito tempo, foi responsável por dar “cara” aos produtos, promoções e também às vendas do grupo.

O tempo passou, as funções já não lhe agradavam mais e as tentativas de remanejamento dentro da gigante do mercado editorial nunca davam certo. “Caí numa arapuca burocrática. Não conseguia ir para uma revista lá dentro porque o teto do designer era menor que o meu. Mas também não conseguiam aumentar o meu salário. Eu fazia uma coisa muito específica, de comunicação interna, e por isso também não conseguia trabalhar em uma agência. Não tinha know-how”, conta ela. Imersa em um ambiente que, além de exigir muito dela, esgotava todas as suas possibilidades de criação, a designer ainda levaria um tempo para encerrar de vez o ciclo.

“Quando eu saía da empresa, estava sempre esgotada. Não tinha energia para fazer nada, absolutamente nada que fosse produtivo, como freelas. Muito menos para cuidar de um projeto paralelo. Acho que por eu já não gostar mais da área em que eu trabalhava, aquilo consumia demais minha energia”, lembra. O único momento de tranquilidade de Letícia era durante as férias.

Seu maior hobby sempre foi viajar e ela sempre “ticava” no guia das cidades que conheceria as lojas que queria visitar — muitas de lingerie. Essas viagens, na verdade, eram um workshop intenso. O que o mercado lá fora oferecia? Quais referências eram incríveis para serem colocadas em prática no Brasil? Como produtos daquela qualidade poderiam ser feitos aqui? Aos poucos, Letícia foi respondendo a todas essas perguntas.

LauraTaylor em outra foto de Camila Cornelsen, parte do Diva's Project.

LauraTaylor em foto de Camila Cornelsen, parte do OhLord Diva’s Project.

O interesse da designer por lingeries aumentou — a ponto de, numa dessas férias, ela se dedicar a um curso de modelagem em Londres. Quando engravidou do filho, Pedro, em 2010, usou a licença-maternidade para fazer um curso de empreendedorismo (“Como Abrir uma Pequena Empresa”) no Sebrae. Também registrou a marca e procurou fornecedores. Era o início da OhLord Intimates, que só começaria a funcionar para valer três anos depois.

“Nesta época, já percebi que se quisesse fazer a OhLord funcionar, teria que me virar sozinha. Antes, havia tentado com duas amigas, uma que trabalhava com moda e outra fotógrafa. Elas curtiram a ideia, mas era para ser só uma ajuda mesmo. Em um mês, conseguimos nos reunir só uma vez. Eu pensava: não quero ficar obrigando vocês. Sou eu quem quero isso. Eu é quem quero fazer disso um negócio”, conta.

Também tentou sua primeira sociedade. E também não deu certo. Em dois meses, a sócia não conseguiu “sair do lugar”. Precisava ser cobrada o tempo todo. O sentimento de que aquilo não daria certo dominou. E o que Letícia fez foi… Continuar tentando.

Em 2012, ela enfim celebraria a demissão da Abril. “Eu já estava armada para isso. Era tudo que eu queria. Eu não tinha perspectiva ali, estava sempre em contenção de gastos. Eu não caía no passaralho, mas também não ia para frente. Me prendia aos benefícios”, conta. Com a demissão, ela considerou que já estava preparada para os meses que estavam por vir. “Pensei: legal, agora vou ter dinheiro para começar a minha marca, para fazer o que eu gosto. Nossa, eu estou livre! E aí, baseado nos cursos que eu fiz, eu comecei a colocar em prática todo o planejamento.”

NA HORA DE VIVER O SONHO, VEIO O PESADELO

Colocou a ideia em prática imediatamente. E viu os planos saírem do esperado e cerca de 25 mil reais, parte do dinheiro ganho na rescisão da Abril, irem embora num piscar de olhos.

Letícia passou agosto e setembro de 2012 focada na produção de um website que deveria ser funcional (onde o cliente poderia fazer tudo através de um sistema de carrinho online) e atrás de uma facção de profissionais com bom corte e costura. Encontrou em Guaxupé, cidade ao sul de Minas Gerais que era um verdadeiro pólo de produção de lingeries. Ela seria enrolada por ambos: o rapaz que construiria o site e também as costureiras.

“Fui atrás de um e-commerce, mas não existia essa facilidade que tem hoje. Me indicaram uma pessoa. Paguei metade do combinado em agosto de 2012, já para adiantar. Queria lançar em novembro. Ele começou a me ignorar quando foi chegando o prazo. Pegou outros trabalhos e não tinha tempo para o meu. Também achei uma equipe de costureiras no sul de Minas. Fechei a coleção com uma modelista aqui, cheguei lá em Guaxupé com os pilotos todos prontos e encomendei as quantidades. Conferi o acabamento delas, senti confiança… Fechamos negócio. De um mês para o outro, a facção de costureiras quebrou. Me deram um cano. Estragaram um monte de matéria prima. Falaram que deu muita chuva lá, que perderam as máquinas porque alagou muita coisa. Do que eu pedi, só recebi 30%, mesmo com qualidade bem inferior ao que é hoje”, conta, chateada.

Os meses que se seguiram só pioraram. Quebrada, Letícia não tinha lançado a marca, não tinha freela de designer e não tinha como ajudar nas despesas da casa. O dinheiro todo havia acabado. O grande impacto disso tudo na mente de Letícia, egressa de uma empresa na qual “se você recebe um email tem que responder, pois é cobrada por isso”  foi perceber que as pessoas não seguiam nenhum planejamento:

“Percebi que o mundo real é bem diferente. Ninguém cumpre prazo e ninguém tem compromisso. Eu estava fazendo, fazendo, fazendo, ninguém entregava nada e eu dependia de todas essas pessoas. Isso me fez muito mal”

Letícia tomou a decisão de apostar ainda mais alto — mesmo em meio às adversidades. Pagou um dinheiro extra para o programador entregar o site e lançou o endereço www.ohlord.co em junho de 2013, bem no meio das manifestações caóticas que tomaram conta do Brasil. Ela estava em ‘trabalho de parto’ do seu empreendimento há muito tempo. Não poderia esperar a confusão passar.

Ariana Dechen em foto de Jessica Pauletto.

Sim, as peças são lindas, e essencialmente confortáveis. Aqui, Ariana Dechen em foto de Jessica Pauletto para o OhLord Diva’s Project.

Desde então, a designer segue lutando para que a OhLord vá para frente. Encontrou uma nova facção de costureiras, em Juruaia, cidade próxima a Guaxupé. Elas têm um acabamento ótimo, mas o desafio continua o mesmo: Letícia e a OhLord ainda são muito pequenos e precisam ser ‘encaixados’ nos outros trabalhos encomendados da facção. “O que era para vir em fevereiro chega em agosto, sabe?”, conta ela, resignada.

Acostumada com dificuldade, Letícia não pensa em desistir. Sua marca ainda não dá dinheiro, mas agora se mantém no zero a zero. Com três coleções diferentes — a linha básica, a fru fru e a glam, e com peças que custam de 28 a 62 reais —, ela diz que o seu maior problema ainda é que as pessoas têm receio de comprar esse tipo de produto pela internet.

“O percentual de saída é sempre menor do que o percentual de entrada, de produção. Entre 80 peças que peço no mês, saem 15, 20, 25, no máximo. Meu estoque é sempre maior”, afirma. Em 2015, o desafio de Letícia é entrar no varejo. Ela quer que a loja saia só do online e que suas peças sejam revendidas em lugares físicos. Sabe que é difícil, mas acredita que cada parceria é importante. Também quer começar a modelar as peças por conta própria.

Para divulgar os produtos, Letícia investe no atendimento de qualidade e nas redes sociais, mesmo sendo ela a única pessoa que trabalha, de fato, na OhLord. Para gerar engajamento online, lançou, no ano que passou, o OhLord Diva’s Project, um projeto em que mulheres “normais” posam com as peças da marca para um calendário anual, que pode ser adquirido por qualquer cliente por um valor simbólico.

“Uma amiga minha, a Bruna Bismara, começou a me ajudar nesse projeto. Eu dizia para ela que não tínhamos dinheiro para o fotógrafo, para pagar as modelos. E ela insistiu para que tentássemos tudo com os nossos amigos. Conseguimos. Hoje, posso dizer que não tive custo nenhum nesse projeto. Foi tudo feito com gente que queria me ajudar. A intenção desse projeto não é que as meninas posem sensualmente. Elas são meninas normais que posam normais, como se estivessem confortáveis em casa”, conta Letícia.

Como o projeto não decolou da maneira que havia sonhado, em 2013, Letícia teve que voltar a dar expediente em empresas. Atualmente, ela trabalha na criação de identidade para uma empresa de engenharia e cuida, paralelamente, da OhLord, que agora já não dá mais prejuízo. Ela não desistiu da aventura de empreender, mas adequou o projeto ao que a realidade permitiu ser possível e, ao menos por enquanto, ela não abriu mão de fazer o que ama. “Não penso em ficar rica com lingeries. Não quero ser uma Victoria’s Secret. Só quero continuar tocando esse projeto porque gosto dele. E se ele me der lucro, melhor ainda”, diz.

draft card OHLORD

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