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Existe uma diferença fundamental entre resolver um problema e fazer o possível para evitar que ele surja. No caso do lixo, a reciclagem faz o primeiro. É uma resposta válida e necessária, porém tardia. Já a economia circular recusa o problema desde o início, propondo caminhos para repensar como os produtos são criados, usados, compartilhados e devolvidos ao ciclo produtivo.
Quem leva essa ideia a sério e faz disso um projeto de vida é Beatriz Luz. Natural do Rio de Janeiro, a engenheira química trabalhou na Braskem com plástico verde até entender que precisava ir além para promover a sustentabilidade.
Essa inquietação a levou a fundar, em 2015, a Exchange 4 Change Brasil (E4CB), plataforma pioneira de troca de conhecimento sobre economia circular no país. Cinco anos depois, criou o Hub de Economia Circular (HubEC), que reúne empresas de setores distintos para construir em conjunto soluções relativas ao tema.
À frente também do Instituto Brasileiro de Economia Circular (IBEC), fundado em 2023, ela articula empresas, governos e a academia em torno de uma ideia central: nenhuma transformação real acontece de forma isolada.
Ao Draft, Beatriz conta sobre as propostas das organizações que criou para ajudar a impulsionar a transição para a economia circular no Brasil, como ajuda empresas a se conectarem para abraçar esse modelo, os obstáculos que ainda existem para que ganhe escala e as conquistas em dez anos de atuação pela causa:
De forma bem prática, a economia circular traz uma nova forma de pensar negócios. Existe um modelo em que, em busca de praticidade e conveniência, a indústria faz um produto, as pessoas compram, usam e jogam fora. Mas a gente percebeu que esse modelo estava criando desgastes ao meio ambiente e que não existe “jogar fora”.
Então, a economia circular traz esse novo modo de pensar: produtos mais duráveis, que possam ser compartilhados e consertados. Para isso é preciso reavaliar o processo produtivo, redesenhar produtos e serviços, rever valores, atitudes e comportamentos.
É uma economia que cresce desassociada do impacto do lixo e da poluição, mas que precisa estar no ambiente de negócios e não só na área de sustentabilidade ou na social. Tem que estar sendo discutida do chão de fábrica ao liderança
Do contrário, não vai virar negócio e, sim, projeto de gestão de resíduos ou social. Tudo isso é válido, mas para escalar, a economia circular não pode ser só mais um tema de projetos bonitinhos para as empresas. Tem que ser negócio.
Quando conheci a economia circular, estava na Braskem trabalhando com renováveis. A grande virada do meu pensamento aconteceu quando os clientes internacionais, da Europa, começaram a perguntar: “Eu faço a embalagem com plástico verde, mas o que acontece com ela depois?”. Eles me abriram esse horizonte de que havia muito mais do que o universo de matéria-prima envolvido nesse processo. Para expandir esse olhar, é preciso conhecimento do todo. E aí comecei a ter um olhar que não era só o do setor plástico.
Nessa discussão mais ampla, vi que existia sempre um ator independente, lá na Europa, que fazia esse meio de campo, falava com um ator, falava com outro, e integrava todo mundo. Era um facilitador
Decidi ser esse facilitador no Brasil, sem ficar limitada ao setor do plástico. Foi assim que fiz minha transição, saindo da Braskem.
A Exchange 4 Change nasceu como uma grande plataforma de troca de informações sobre o tema, com vários parceiros de conhecimento internacionais. Porque eu sabia que para fazer essa transformação a base de tudo é a educação.
A primeira ação mais significativa que fizemos foi criar um núcleo de estudo. Então, eu fui à Universidade Federal do Rio de Janeiro, comecei a dar várias palestras, todo mundo queria saber sobre o assunto, e resolvi convidar as pessoas a estudar.
Sempre quis manter o Brasil alinhado com a discussão global, criando essas pontes, formando alianças, mas também trazendo a cara do nosso país, com soluções globais adaptadas à realidade brasileira.
Desde a essência, entendi, a partir da oportunidade que tive de conversar com atores europeus, que a economia circular depende de uma ação conjunta, colaborativa.
Então, comecei a fazer consultorias, treinamentos específicos para empresas. E todas as minhas recomendações eram na linha de as empresas olharem suas cadeias produtivas, conversarem com fornecedores, entenderem o seu mercado e construírem essa solução juntos, porque senão cria-se algo em um elo da cadeia que vai prejudicar o outro. Não adianta só um setor mudar, precisa ser uma ação multissetorial.
O hub nasceu nesse lugar de ser um ecossistema de troca para construir soluções conjuntas. A gente trouxe empresas do setor de plástico, do aço, de provedores de soluções tecnológicas, máquinas, automotivo, eletroeletrônico, entre outras, e foi juntando todo mundo.
Hoje, mais de 30 empresas participam dessas trocas no hub.
A gente divide o hub em subgrupos e um exemplo de aprendizado vem do subgrupo do plástico filme. Vimos nessa coalizão que tinha uma empresa que fazia a reciclagem desse material e descobrimos que o varejo estava comprando plástico filme reciclado, embalando o produto e colocando na prateleira de volta. Então, a gente podia contar essa história e criar indicadores de sucesso para esse varejo, mostrando que se comprasse mais plástico filme reciclado, reduziria o seu impacto. Então, bora coletar mais plástico filme utilizado também. Só que aí é preciso mexer na área de compras, de estratégia, de estoque…
Fui ao longo desses vários projetos do hub fortalecendo essa mensagem da necessidade de integração e de ter um facilitador, porque senão aquela discussão perde fôlego
E outro aprendizado é o de conectar a área de comunicação para mostrar os benefícios. Hoje é muito mais uma discussão de número do que de palavras. Não precisamos só de narrativa, mas de ação. É essa nova conta que precisa ser feita.
Ainda sobre aprendizados, depois da COP30, resolvemos criar um modelo para, juntos, desenharmos o Mapa do Caminho para a Economia Circular no Brasil. A ideia é pegar todo o nosso aprendizado nesses seis anos e levá-lo para “dar a volta” ao Brasil. Vamos fazer cinco reuniões em cinco regiões diferentes do país. Quatro empresas do hub, que nomeamos como membros honorários [Covestro, Electrolux, Tomra e Wise Plásticos], vão nos ajudar a apresentar esse balanço.
O primeiro encontro acontece no dia 24 de março, em Porto Alegre, e a discussão será sobre o que é impacto circular. Em maio, vamos para Brasília; em julho, estaremos em Vitória; em setembro, a reunião será em Salvador; e, por fim, em novembro, em Belém, onde entregaremos o mapa.
O desafio, de forma geral no mundo inteiro, é o da escala, transformar aquela ideia que nasceu no hub em algo que realmente se tornará uma nova prática.
Vimos vários projetos que nasceram ali limitados ao nível de esforço que as empresas conseguem colocar. Para avançar, precisamos ter mais ecossistemas como esse, aproximar o poder público do privado, de mais financiamento para esses ecossistemas.
Vemos vários casos bacanas sendo estruturados, mas é sempre a nível local ou regional. Tem uma narrativa legal, mas quando você vai lá e pergunta “qual é o volume, qual é o dado?”, a resposta é “calma, vou expandir”…
A gente tem também um dilema de comunicação: qual é a narrativa, o que propõe o projeto, o que faz um negócio circular, como uma cadeia circular pode trazer benefícios econômicos, gerar emprego e criar transformação regional? O grande desafio é esse: olhar para o todo.
Sim, precisávamos de um articulador independente, com um viés de benefício geral para a sociedade, um ator que trabalhasse para fortalecer esses ecossistemas sem fins lucrativos.
A gente começou esse trabalho em Pernambuco [com o primeiro Plano Regionalizado de Economia Circular do Brasil]. Conseguimos trazer o poder público, a Secretaria de Estado, para sentar junto com a Federação das Indústrias, pesquisadores e universidades. E aí desenhamos um modelo onde todos esses atores se comprometeram em pensar, agir e criar ações para construir esse caminho favorável à economia circular.
O Ibec tem como objetivo estar próximo do governo para ajudar no desenvolvimento de políticas públicas de economia circular. Como presidente do instituto fui convidada para ajudar a desenhar o Plano Nacional de Economia Circular, lançado em maio do ano passado durante o Fórum Mundial de Economia Circular
O plano contempla cinco pilares: criação de metas, diretrizes e indicadores; educação e capacitação; desenho de produto e gestão de resíduos; financiamento; e relação interfederativa.
A Holanda é um ator que sempre me inspirou. Em 2016, fui até o consulado, estudei a experiência deles e me convidaram para participar de uma missão quando foram lançar a visão de ser um país 100% circular até 2050.
Uma coisa que me chamou muito a atenção é a parte do financiamento. O país tem uma estrutura público-privada muito bem feita. Eles tinham esses hubs que formavam subgrupos de trabalho, geravam a ideia e no final pegavam recursos do governo para formar aqueles pilotos. A forma com que a gente vinha fazendo aqui no Brasil era meio que um crowdfunding — todas as empresas botavam um pouquinho.
Quando você tem uma base, uma ideia e uma agenda comum, e vem o recurso de fora para alavancar essa jornada, facilita as empresas irem da teoria à prática, do projeto para a escala
Então, a missão do Ibec neste ano é trabalhar novos modelos de financiamento. Junto com o BNDES e o Ministério da Fazenda, estamos pesquisando esses modelos público-privados, desenhos de instrumentos financeiros, financiamento de ecossistemas, de desenvolvimento de produtos e de ações para o letramento.
Hoje em dia tem muito mais gente falando do assunto, uma maior consciência do que é o problema e percepção dos desafios pela frente. Mas a gente ainda não está sabendo como fazer para resolver isso. E esse “como” não vai acontecer de forma isolada.
Sobre sonhos, quero criar cada vez mais ecossistemas e ambientes de troca, em que a gente fortaleça essas relações de confiança entre diversos atores para realmente avançar.
Existem muitas possibilidades para o Brasil. Temos um agronegócio que gera bastante resíduo com potencial de ser transformado em produtos circulares, colocando o país no mapa da economia circular. Na Europa, já fazem tecido de casca de laranja e aqui esse insumo ainda está sendo usado em ração animal… Está sendo bem destinado? Sim, mas a gente pode fazer mais
Qualquer mudança demanda um esforço tanto individual quanto coletivo, então quero poder reunir mais pessoas para darmos o segundo e o terceiro passos juntos. Colocar o Brasil como um ator relevante da discussão da América Latina, criar essas narrativas para o Sul Global.
Conseguimos caminhar e ter grandes conquistas nesses últimos dez anos. Poderia ter sido um pouco mais rápido, mas agora temos muito mais gente preparada para seguir e fazer a diferença.
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