Por que decidi me vestir como o Batman para visitar pacientes com câncer (e o que aprendi sobre motivação com o Homem-Morcego)

Cristiano Zanetta - 23 dez 2022
Cristiano Zanetta, em ação como Batman em palestra para lideranças.
Cristiano Zanetta - 23 dez 2022
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A palavra herói nos lembra personagens de ficção e sempre temos nossos favoritos dos filmes, séries e quadrinhos. Eu descobri que essa palavra, na verdade, se traduz como ação e que esse “ato heróico” é algo que está ao alcance de todos.

Isso é o que a minha história permite contar. Não me fiz um herói, despertei aquilo que já existia em mim. Hoje, minha ação é principalmente sobre motivar pessoas e, se eu precisasse nomear alguma coisa como um superpoder, seria isso

Foi na infância que senti o primeiro chamado de um ato de heroísmo diante de mim. Aos 6 anos, presenciei um incêndio em casa, sozinho com minhas irmãs menores.

Claro que somente eu poderia salvá-las e salvar a mim mesmo! Mas isso não fazia de mim forte ou preparado. Eu não conseguia empurrar a porta que, com o fogo, estava cheia de obstáculos.

Nós não teríamos opção se não a ajuda de terceiros. E, após ver primeiro a maldade humana atuar, diante daqueles que entraram em casa para saqueá-la e nos deixarem para trás, vi as pessoas que nos salvaram e nunca os esqueci. Inclusive, sou grato até hoje! 

COMO O BATMAN VIROU MINHA INSPIRAÇÃO

Com a memória dos bombeiros, dos saqueadores, do fogo e principalmente da frustração ao tentar salvar minhas irmãs, simplesmente desacreditei em super-heróis.

Nenhum chegou voando ou apagando o fogo em casa. Tempo depois, minha família observou que eu pintava desenhos apenas nas cores vermelho e preto…

Fui levado para a psicóloga que, após saber do ocorrido, me apresentou o Batman. Um herói com quem eu tinha algo em comum: muita vontade de fazer algo e falta de poderes especiais

Ele se tornou uma inspiração, de uma forma muito parecida, pois em sua história também houve um trauma na infância e a sensação de impotência, a partir da qual ele se fez.

E a partir da qual fiz quem sou hoje.

REINVENTANDO O TRABALHO SOCIAL. OU COMO PASSEI A ME VESTIR DE BATMAN PARA VISITAR HOSPITAIS, APÓS O CÂNCER DO MEU PAI

Ainda adolescente, pude conhecer os Doutores da Alegria. Fiz parte do grupo e vi a importância do trabalho social para muitos pacientes.

Interrompi minha participação depois que meu pai teve câncer. E não apenas uma vez, mas três, com uma grave depressão na última.

Vi tristeza e desesperança nos olhos do meu pai e, curiosamente, nem parecia partir tudo dele, mas como o reflexo de algo.

Diante disso, prometi estudar a respeito do tema, mas naquele momento precisava ser enérgico, aplicando as palavras certas para fazer com que meu pai voltasse a ser o homem corajoso que sempre foi

Então, o lembrei dos dizeres de um filme a que assistimos, Gladiador: “Cada espadada que um guerreiro dá é como se fosse a última da sua vida”.

Era isso. Se fosse o último esforço, seria para valer. Como resultado, meu pai saiu vencedor e então percebi que a força tinha de vir da essência.

A doença do meu pai foi o meu segundo chamado. Entendi o que precisava ser feito.

Quando retornei ao trabalho social, não era um personagem de entretenimento, eu era o Batman, em toda a sua essência. Com sua força e com apenas ferramentas emocionais para levar aos pacientes

Precisei impor minha presença nos hospitais por diversas vezes até que, após verem o resultado, passei a não ser mais um intruso, mas um convidado, a pessoa acionada para uma missão específica.

TIVE QUE SUPERAR AS CRÍTICAS E A DESCRENÇA NO QUE FAZIA E ATÉ BURLAR AS REGRAS, COMO BATMAN CERTAMENTE FARIA

Lidei com muita descrença e entendo. Não era uma pessoa convencional no serviço social. Eu era uma nova forma de fazê-lo.

Assim como o Batman, usei a tecnologia ao mesmo favor. Além de entrar escondido, como Batman faria, comprei um drone para vigiar as possíveis entradas “fáceis” dos hospitais

Cheguei até a me passar por médico. Já fui o Dr. Paulo, o Dr. Jorge, tudo para atender as crianças. O Batman quebra regras, então foi assim que trabalhei durante uns cinco anos da minha vida.

Importante lembrar que a popularidade dos heróis e dos filmes, como são projetados hoje, não é a mesma coisa de 15 anos atrás.

Quando saiu o primeiro filme do Batman, de 2005,  percebi que podia existir um herói que fizesse a diferença em uma situação de caos. Mas, infelizmente, na época, eu não tive apoio da minha família. 

Com o tempo, eles perceberam e entenderam o resultado final do meu trabalho.

Quando houve resultado — o reconhecimento de hospitais e as duas homenagens do exército –, as pessoas entenderam que não é só um trabalho de recreação, e que existe uma ciência por trás disso

E que, muitas vezes, a gente entende que as críticas não trazem um papel importante, já que o resultado do trabalho bem feito é o que faz a diferença. 

O DIA EM QUE O BATMAN ENTROU CHUTANDO A PORTA DE UM QUARTO DE HOSPITAL PARA CONVERSAR COM UMA CRIANÇA 

Um dia, em casa, depois de passar por uma crise renal, um número de telefone desconhecido me ligou e solicitou ajuda.

Era uma mãe pedindo minha visita e uma conversa com seu filho, de 4 anos, que enfrentava um câncer, estava sofrendo de depressão, não falava e recusava qualquer tipo de alimento.

Cristiano, ou melhor, Batman com um pequeno paciente.

Preocupada, ela explicou que se a criança não continuasse o tratamento, poderia perder a vaga do hospital, o que despertou a minha necessidade em conhecê-lo.

Com a dificuldade de vestir os 25 quilos da roupa do homem morcego no hospital, preferi então ir de moto, pronto, já vestido de Batman. 

Quando cheguei, me deparei com um outro segurança, que não era aquele que já me conhecia e me deixava entrar escondido.

Expliquei toda a situação e o novo segurança, obviamente, não me deixou entrar, até que ele me falou sorrindo que precisava tomar uma água e voltava em cinco minutos.

Ao acessar o hospital, conversei com a mãe minutos antes de encontrar o garoto. Emocionada, ela me contou que o pequeno ficava sentado, olhando para a parede na maior parte do dia —  a mesma cena vivenciada por meu pai quando estava em tratamento da depressão.

A mãe entrou no quarto e fiquei do lado de fora, pensando: o que o Batman faria em uma situação como essa?

Resolvi entrar chutando a porta e ao olhar para o menino, que não falava há muito tempo, ele grita: “Mãe, você chamou o Batman!”

Um rebuliço tomou conta do hospital por conta do barulho e, em seguida, um enfermeiro, com roupa hospitalar verde, entrou na sala, pronto pra me tirar de lá.

Minha reação foi falar para o garoto: “Você está vendo? Até o Lanterna-Verde está aqui para te salvar”. Eu me lembro que todos riram, inclusive o garoto — minha conquista do dia.

QUANDO O CHEFE DA ALA ONCOLÓGICA PERCEBEU O RESULTADO DAS AÇÕES DO BATMAN, GANHEI PASSE LIVRE NO HOSPITAL

Depois de muita conversa, o que inclusive me fez esquecer da minha crise renal, o menino entendeu que era preciso se alimentar direito e escutar seus pais.

No dia seguinte, recebi uma ligação da chefe da ala de oncologia, me dando autorização para entrar a hora que eu quisesse no hospital

As crianças estavam respondendo muito bem aos tratamentos, a notícia se espalhou e comecei a receber ligações dos pais das crianças internadas para visitá-las, pois sabiam dos relatos de outras famílias quanto à melhora de seus filhos. 

Atendendo a esses pedidos, confirmei que era isso o que eu tinha de fazer. Era o melhor que eu podia fazer. E é isso que eu faço! 

O VILÃO E O HERÓI NESSA HISTÓRIA DA VIDA REAL

Na minha história da vida real, o vilão é o câncer, a doença mais temida, cujo nome se evita pronunciar.

E a minha missão não é curar, mas fazer com que os pacientes não abandonem os tratamentos, muitas vezes dolorosos e fatigantes ao físico e ao emocional, que vai se debilitando, muitas vezes com um quadro de depressão. Um grande mal do século

Ao longo de mais de uma década de trabalho social, fui percebendo que, na verdade, o meu maior vilão era o tempo, que resumia a minha ação a uma única oportunidade de sucesso.  

Não vou mentir, já pensei em desistir diversas vezes. Em cada situação que enfrentava nos hospitais, ficava em uma linha de frente em que outros profissionais precisavam de mim e, claro, outras crianças e adultos passando pelo câncer, também precisavam.

Então, sempre busquei aperfeiçoamento e, utilizando dos princípios do Batman, me manter preparado e buscar técnicas que pudessem, no confronto com as minhas dificuldades, gerar os resultados merecidos. 

Em paralelo, faço um acompanhamento especial quando chego em casa, após realizar as visitas. São situações muito difíceis que encontramos todos os dias nos hospitais.

Então, em casa, tenho uma intensa batalha com o meu psicológico. Mas também, me apego no bem que o meu trabalho faz e, principalmente, no quanto faz a diferença no dia a dia de cada paciente.

PERCEBI QUE TAMBÉM PODERIA AJUDAR O MUNDO CORPORATIVO E OUTRAS ÁREAS COM MEUS APRENDIZADOS

As minhas vivências de infância são pontos-chave da minha história de vida. Além dos traumas, quando pequeno, também fui diagnosticado com dislexia e TDAH e cresci com os piores prognósticos de médicos e especialistas.

Mas, minha essência não aceitou que as portas se fechassem. Eu “peguei” cada fator negativo e transformei em um novo desafio a ser superado. 

Com isso, me desenvolvendo na área corporativa, hoje também sou empresário e palestrante.

Viajo pelo país levando minhas palestras sobre humanização para ambientes corporativos, falando de inteligência emocional e comportamental para alcançar resultados dentro das empresas

Inclusive, o canal Motivação Grid, com mais de 1 milhão de inscritos no YouTube, elegeu a minha palestra como a “Melhor Palestra de 2021”, tendo como base duas palestras: a TEDx e Fator X. 

Cada palestra é personalizada ao cliente ou para a cidade onde vou palestrar. Me programo para realizar uma visita no hospital daquela região, ou seja, um trabalho fomenta o outro, já que preciso de recursos para continuar com meu trabalho social. 

O QUE É A “CIÊNCIA DO BATMAN” E COMO APLICÁ-LA NO DIA A DIA

Após anos de estudo e, claro, trabalho social na prática, desenvolvi a “Ciência do Batman”.

Cristiano revelando a “identidade secreta” do Batman.

Para entender um pouco melhor o que é isso, pensamos no medo, na raiva e na dor.

Estes são os três pilares daquilo que defino como a “Ciência do Batman”.

Quando você tem estes três elementos e mostra como é possível trabalhá-los e entendê-los, consegue extrair duas coisas extremamente valiosas dos outros: confiança e esperança.

A “Ciência do Batman” é a maneira como eu chamo a metodologia de saber o que me trouxe até aqui.

Em outras palavras, trata-se de uma série de princípios e experiências que se tornam um guia de aprendizado.

E eu desenvolvi em passos, fragmentei essas lições e criei essa “ciência”.

O que destaco é que, com ela, aprendemos a lidar e fazer uso das nossas emoções para que elas não nos controlem, mas sirvam aos nossos propósitos

Mais do que falar sobre a “Ciência do Batman”, acredito que mostrá-la em ação é fundamental!

Além disso, estou finalizando a produção do meu livro, com previsão de lançamento no primeiro trimestre de 2023. Nele, vou contar mais sobre minha história e experiências e ainda trabalhar essas informações e dicas para quem deseja realizar trabalhos voluntários assim como eu. 

 

Cristiano Zanetta, 43 anos, mora atualmente em Bragança Paulista (SP), mas é natural de Clevelândia (PR). É formado em Educação Física, mas atua como palestrante e criador da modalidade de treinamento Super Hero. É membro convidado da Oncologia do Hospital São José/SC e condecorado pelo Exército Brasileiro. Reconhecido oficialmente pela produtora norte-americana de filmes Warner Bros. Entertainment Inc. como o Batman do Brasil, é o único Batman a ser verificado pelo Instagram, além dos perfis oficiais da própria Warner. 

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