Por que troquei o conforto do meu belo emprego na Microsoft para contar centavos numa ONG

Andrea Gomides - 27 nov 2014
Andrea no Lajão, projeto em uma laje na comunidade dos Tabajaras, no Rio, que será transformada em biblioteca.
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Por Andrea Gomides

Em 2002, eu entrei pela porta da frente da maior empresa de tecnologia e almejada por muitas pessoas: a Microsoft. Estava assumindo um cargo executivo para liderar a área de vendas através de parceiros de negócios e deixando a HP, que também é uma grande empresa de tecnologia. Tenho que assumir: senti um orgulho enorme ao passar por aquela porta como funcionária.

A primeira vez que estive com o Bill Gates, em um estádio de futebol americano, quando milhares de funcionários, de todo o mundo, o aplaudiram por mais de 10 minutos, em pé, chorei de emoção. Posteriormente, em uma reunião pequena com o Bill Gates, tive a noção do gênio que ele era. Há 12 anos ele já falava de dispositivos de tecnologia que já são realidade e outros que virão nos próximos anos. Dias antes de começar, recebi em casa uma cesta com champanhe, taças e um DVD de boas-vindas, preparando o começo em uma empresa com uma cultura totalmente diferente da que eu estava acostumada.

O escritório era lindo, as mesas decoradas com bichinhos, miniquadra de golfe, cesta de basquete, bem descontraído. A minha sala era enorme, com mesa de reunião, quadro branco e espaço suficiente para receber várias pessoas.

A minha agenda, quase no mesmo dia se tornou mais lotada do que médico de plano de saúde. Para falar comigo, era preciso agendar para mais de um mês depois, não porque eu queria, mas porque o dia tem apenas 24 horas e as mais de 10 horas dedicadas não eram suficientes.

Na Microsoft aprendi muitas coisas, entre elas o ditado que um diretor falava sempre: “Be hard on the problem, soft on the people” (“Seja duro com o problema, leve com as pessoas”, em tradução livre). Se todo mundo vivesse este ditado, acabariam as intrigas, as brigas e os problemas seriam resolvidos de uma forma muito mais eficaz. Lembro de um problema sério que aconteceu na empresa e várias pessoas foram chamadas para uma reunião. O começo da reunião foi buscando o culpado. Logo apareceu o ditado, “Be hard on the problem, soft on the people”, não adianta crucificar ninguém, vamos resolver o problema.

A minha semana se contrastava com o meu sábado pela manhã. Todo o glamour do ambiente corporativo se convertia em cuidar de crianças e mães da favela próxima ao bairro do Limão, em São Paulo. Eu adorava ir para a favela.

“A semana tinha um grande objetivo: ganhar. Ganhar dinheiro, prestígio, orgulho e ajudar a empresa a bater as suas metas. O sábado era doar. Doar meu tempo, doar meu conhecimento, doar minha audição (ouvindo as histórias de superação, de luta, de sofrimento), me doar”

Jamais esqueci a cena de uma senhora, bem jovem, talvez tivesse um pouco mais que a minha idade na época. Ela tinha dois filhos no projeto e participava todos os sábados. Era daquelas fiéis, que não faltava às aulas de artesanato e culinária por nada. Um sábado ela não foi. Perguntei por ela e ninguém tinha notícias. Chamei uma criança para ir comigo para dentro da favela. Fui até o local onde ela morava e a vizinha disse que ela tinha ido para outra casa. Fui até o coração da favela, bem no meio, onde as casas eram todas de madeira. Eu não conhecia aquela parte da favela, fui observada por vários rapazes que ficam acompanhando a movimentação, mas não me impressionei. Bati no barraco que disseram que ela estava. Ela abre a porta, desfigurada. Tinha apanhado muito do marido. As crianças estavam agarradinhas nas pernas dela. Triste. Muito triste. Sai de lá arrasada.

Um outro dia, uma adolescente abriu a bolsa de uma voluntária e pegou dinheiro. Eu vi da janela. O que fazer em uma situação assim? Chamei a menina para conversar, ela negava, até que confirmou e me disse que estava com fome. Disse para ela que tínhamos que conversar com a mãe dela. Fui até a sua casa, um barraco menor do que a minha sala da Microsoft, onde a mãe, abandonada pelo marido, morava com os cinco filhos. Ela comprava salgadinho, aqueles biscoitos tipo isopor, pois era muito caro comprar o gás para fazer a comida. Conversamos longamente sobre os filhos, sobre a vida. Aprendi muito.

Ganhar ou doar? O que você escolhe?

No meio de tudo isso, eu estava no aeroporto e, enquanto esperava o voo atrasado, fui até a livraria (adoro ler!) e vi um livro com o título: “Saí da Microsoft para mudar o mundo” e a capa era um homem, com cara de executivo, montado em um camelo. Claro que comecei a ler em pé na livraria, comprei o livro e li em um dia. O John Wood, mega executivo, saiu da Microsoft para fundar a Room to Read, ONG que constrói escolas e dá bolsa de estudo para mulheres.

Era isso. Não era um plano B, era um plano A. Tudo aconteceu ao mesmo tempo. Precisava voltar para o Rio de Janeiro, o livro, as questões sociais… Apresentei para a pessoa a quem eu me reportava na Microsoft um plano para trabalhar no Rio de Janeiro, na mesma posição, mas não fazia sentido para a empresa e, na verdade, nem para mim. O que fazia sentido era seguir o que eu gostava de fazer, ajudar as pessoas.

Durante um almoço, junto com amigos da Microsoft, fomos desenhando no guardanapo o que seria hoje o Instituto Ekloos. Fui para a Europa para conhecer um modelo de organização chamada ONGD – Organização Não Governamental para o Desenvolvimento, que investe recursos financeiros em projetos na África, Ásia e América Latina, mas também envia recursos humanos para ajudar na gestão do projeto.

Juntando tudo isso, em 2007 fundei o Instituto Ekloos, que é uma organização que ajuda o desenvolvimento de outras ONGs nas áreas da gestão, projetos, marketing, negócios e tecnologia. O Brasil tem 290 mil ONGs, não adiantava fundar mais uma para ajudar crianças, adultos, mas ter uma ONG que ajudasse para que as outras ONGs crescessem e gerassem mais impacto.

Recentemente em uma entrevista, o repórter perguntou de onde tinha vindo esta preocupação pelo outro, pelas questões sociais. Eu nunca tinha pensado nisso. A resposta que veio na cabeça, na hora, foi uma lembrança da infância, em que a escola que eu estudava me levou para conhecer um orfanato. Eu era pequena, mas nunca me esqueci da cena de brincar com aquelas crianças que não tinham família. Mas depois, pensando melhor, vi que não era só isso.

Vinha do meu pai. Meu pai era uma pessoa muito especial. A minha mãe sempre diz que ele dava tudo para todo mundo, o que tinha e o que não tinha. Há muito pouco tempo eu estava com ele na UTI, enquanto ele fazia a hemodiálise, e ele estava acompanhado por uma enfermeira. Eu disse: “Vou aproveitar que ela está com você e descer para comer alguma coisa”. Na mesma hora ele disse: “Traz um lanche para ela também”. “Mas, pai, ela não vai poder comer porque nós estamos aqui no hospital e ela está trabalhando”. Ele ficou quieto. Quando eu estava na lanchonete, claro que comprei um pedaço de bolo para a enfermeira. É isso! O modelo de vida do meu pai tem uma influência muito grande na minha vida, graças a Deus!

Quando pensei no que escrever para o Draft alguma coisa que ninguém sabia, a primeira coisa que me passou pela cabeça foi dizer, o que parece óbvio, o que talvez as pessoas desconfiem, mas não saibam, EU SOU FELIZ! Muito feliz!

“Esta felicidade vem das oito horas que passo no trabalho, porque cada segundo é para ajudar a alguém! Cada ação que fazemos tem um impacto direto na vida de muita gente”

Há pouco tempo fizemos um vídeo institucional para a Ekloos que tinha como tema “olho, mas não vejo”. Este título reflete o dia a dia de muita gente. Olha a favela, o mendigo, a criança na rua, o ladrão, o governante corrupto, mas…não vejo, não faço nada. A preocupação com o meu tempo, meu dinheiro, meu PODER, meu bem-estar é tão grande que as pessoas acabam não vendo e não tendo o sentido de pertencimento de uma sociedade desigual, sofrida e desamparada. A resposta sempre é: a responsabilidade é do governo, eu pago imposto. Concordo em parte, mas quem pensa assim não sabe que quem é feliz é aquele que se doa e não necessariamente apenas quando recebe.

É a história do mendigo que estava fila da sopa de noite, junto com dezenas de outros mendigos. Mas a diferença era que ele tinha uma colher, enquanto os outros iriam beber a sopa. Ele ostentava a colher, lambia, mostrava para os outros enquanto aguardava na fila. Eu me pergunto: Será que ele gostou tanto da sopa quanto os outros? Ou será que a preocupação com a colher era mais importante do que o sabor da fome saciada?

Mas, e o glamour do mundo corporativo? Não sinto falta, mas também não vou dizer que gerir uma ONG, principalmente no Brasil, é fácil. Não é! Para a minha felicidade ser completa eu precisava de mais dinheiro. Parece incoerente com tudo o que acabei de falar, não é? Mas, não.

“Se eu tivesse muito dinheiro, conseguiria estruturar um número muito maior de ONGs e em alguns casos o dinheiro daria um empurrão considerável”

Agora, estamos no meio do projeto da Olimpíada Solidária de Estudo, um projeto mundial, que eu trouxe para o Brasil em 2007, que incentiva o estudo e a leitura. Cada hora que você passar em uma das 57 bibliotecas cadastradas no Brasil, nós converteremos em 1 real e o total arrecadado será utilizado para comprar livros para montar uma biblioteca no Projeto Lajão, localizado na comunidade dos Tabajaras, no Rio de Janeiro.

O projeto chama Lajão porque são três andares de laje. Laje mesmo, destas que você já viu na TV, quando filmam as favelas. Vamos montar uma biblioteca, com atividades de contação de história e mediação de leitura. Hoje já há alguns livros, mas as crianças sentam no chão, no cimento, para ler. Se tivesse um pouco mais de dinheiro, teríamos pufes, estantes… Só que no Brasil as pessoas não têm a cultura da doação.

Para muitos, ONG é sinônimo de corrupção. E não é! Em alguns casos, sim, da mesma forma que algumas empresas também são de fachada. Mas até hoje já ajudamos mais de 90 ONGs e apenas uma não estava bem intencionada. Em um país onde não há a cultura da doação e o governo não disponibiliza incentivos fiscais para a pessoa física, gerir uma ONG é quase um milagre diário.

Enquanto na Microsoft eu tinha um orçamento bem gordo para ações de marketing, aqui contamos os centavos para mudar o mundo.

Os desafios são enormes, mas a alegria também!

 

Andrea Gomides é diretora do Instituto Ekloos.

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