“Sempre quis ser chamado de pai, mas a vida tinha outros planos para mim. E me tornei avô!”

José Antonio - 18 jul 2016Marina, a "tsunami", de 5 anos, e José Antonio, o "vovô tan-tan", de 63.
Marina, a "tsunami", de 5 anos, e José Antonio, o "vovô tan-tan", de 63.
José Antonio - 18 jul 2016
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por José Antonio

Avô. Esta palavra mágica que entra pelos ouvidos e se instala no coração! Sempre gostei muito de criança, verdadeira paixão por estes pequeninos seres que além de colocar em nós novos olhos para ver o mundo, também raptam os nossos corações despertando um poder de amar que acreditávamos não possuir mais.

São verdadeiros transformadores da vida, se você quer sair da zona de conforto, curta e conviva com uma criança. Gosto muito de prestar atenção em uma criança porque ela me mostra um mundo que eu me desacostumei a ver, a enxergar. Tudo para elas é novidade, estão sempre descobrindo, explorando e crescendo nas suas descobertas.

Estão sempre questionando: por que pode? por que não pode? por que você pode fazer e eu não? por que você tem que trabalhar? por que é doce? por quê?… Procuram e querem resposta para tudo, questionam tudo, mas sem “pré-conceito” nenhum.

Um pedaço de madeira se torna uma espada poderosa, a boneca uma princesa intocável. São capazes de ficar um tempão observando uma pequena flor, uma joaninha, assistindo a um desenho de super heróis e se transportando para o mundo mágico onde tudo é possível e poderoso!

Quantas vezes não cheguei atrasado no escritório para assistir um pouco do Glub-Glub na TV Cultura? Eu não podia, em hipótese alguma, abrir mão de me envolver no mundo infantil, de me transportar para este mundo de magia que me fazia sentir também um pouco mágico, um pouco dotado de superpoderes.

Uma vez, na sauna do prédio, disse ao menor que mesmo lá dentro eu via os carros passando na rua porque tinha visão de raio-x. E disse que quando ele fosse mais velho também teria a mesma visão, para enxergar através da parede. Ele me olhou com um olho arregalado e cheio de esperança, algo que só uma criança consegue transmitir. Quando eu disse que era brincadeira, ficou muito bravo dizendo que eu tinha superpoderes e não queria contar para ele! Posso esquecer isso? Posso deixar de participar e incentivar este mundo de fantasia? Jamais!

Como as crianças, também quero ser um transformador da vida. Quero redescobrir tudo de novo com meus olhos, minhas emoções, minhas sensações, como se elas nunca tivessem sido experimentadas antes

Como se tudo fosse de novo a primeira vez, sem medo e sem ego.

Participar deste mundo, é renascer em mim mesmo, é multiplicar meus olhos para enxergar mais e multiplicar meus braços para abraçar mais. Quero ser sempre o mesmo mas sendo sempre outro!

Contei tudo isso para dizer que sempre quis ter filhos. Imaginava minha mulher contando que eu iria ser pai, imaginava na maternidade segurando o meu filho, minha filha. Sentia o cheiro e ouvia o choro, me imaginava descobrindo o mundo junto com ele ou ela, me imaginava sendo levado por suas descobertas, seu mundo.

Sempre quis ser chamado de pai… Mas a vida, o universo, a minha história, tinham outros planos para mim

Eu era solteiro e há 26 anos conheci uma morena, 1,80m de pura beleza, que conserva até hoje, recém-separada e com 3 filhos. João com 8, Gabriel com 7 e Miguel com 2. Depois de um ano de namoro resolvemos morar juntos, porém tomando todos os cuidados para que esta nova etapa na vida das crianças fosse a mais tranquila possível. Conversa franca e jogo aberto o tempo todo, criança não gosta de ser enganada e de se sentir traída.

Que aprendizado… Quanta história, quanta bagunça, quanta descoberta, quanta confusão! Nunca ouvi ou fui chamado de pai (até porque eles curtem muito o pai deles), mas eles sabem que eu considero cada um “meu filho de coração”.

Em compensação, hoje eu ouço uma outra palavra mágica, vovô! A filha do mais velho, Marina com 5 anos, por conta própria me chama de vovô, que delícia. Mas não é um simples vô ou vovô, é mais completo, eu a chamo de “tsunami” e ela me chama de “vovô tantan”.

Imagina o que eu não faço de bagunça? Imagina como me sinto realizado, é uma benção. Sempre foi e sempre será

Acredito que uma criança tem muito a ensinar para a gente. Elas possuem um saber imenso, mas não sabem e nem têm conhecimento disso.

Enquanto escrevia este texto, uma idéia muito louca me veio a cabeça: contratar crianças para nos ensinarem como fazer uma descoberta nova a cada dia, como olhar o mundo de uma maneira que só eles sabem, como resolver os problemas que nós mesmos criamos de uma maneira simples e eficiente. Como deixar o ego de lado, esquecermos o medo e encontrar a felicidade que teimamos em procurar nos lugares errados! Talvez, este mundo melhor que tanto procuramos, esteja bem do nosso lado, basta olharmos para as crianças!

 

José Antonio Melo e Silva, 63 anos, publicitário, fundador da Espaço Aberto, são-paulino mas que torce principalmente para que as pessoas acreditem cada vez mais no potencial de transformação que trazem dentro de si.

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