“Ser conteudista é aceitar que o mundo mudou”

Luisa Migueres - 24 jun 2016
Conteudistas de diversas formações questionaram velhas regras da comunicação na aula da Academia Draft. (Foto: Lu Ferreira)
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Na sala aconchegante do segundo andar do Unibes Cultural, em São Paulo, Leandro Beguoci, autor de um dos textos mais elucidantes que o Draft já publicou – que você lê aqui – começou a sua primeira aula da Academia Draft investigando o significado por trás de uma profissão aparentemente nova: a de conteudista.

O público, formado quase exclusivamente por comunicadores (jornalistas, publicitários, Relações Públicas etc.) participou e muito dos questionamentos que Leandro trouxe. Tanto que a aula terminou antes mesmo da apresentação dos slides – que ele montou pensando com carinho na série de dúvidas que surgiriam na cabeça dos alunos.

Não era para menos. O turbilhão de informações a que todos nós estamos expostos não só significa uma nova experiência para o leitor como muda radicalmente a produção do conteúdo, diz ele. Assim, a cada novo input, apareciam três novas indagações sobre o futuro de quem trabalha com comunicação. O professor já avisou logo de cara:

“A mudança é a regra. E uma graduação acadêmica já não resume o que a maioria dos profissionais de comunicação fazem”

Então, se não basta mais nos definir como “repórteres”, “assessores”, publicitários”, quem é esse profissional que escreve, edita, posta em redes sociais, gerencia comunidades, faz relatórios, tudo ao mesmo tempo?

BEM-VINDO AO MERCADO SEM SEGMENTAÇÃO

A resposta está no hibridismo. Por que não inventar novos job descriptions? Nada impede que um repórter também seja editor de comunidades digitais, criador de branded content, por exemplo.

O saudosismo precisa dar espaço para a curiosidade. Para resolver um problema, para descobrir a melhor tecnologia a usar, para pensar qual relação queremos que as pessoas tenham com um conteúdo.

Contrariando um vício da comunicação, Leandro também diz que ter consciência do valor daquilo que se produz é mais importante do que criar algo bonito. O que esse conteúdo traz ao leitor, de verdade? Além de um texto rebuscado ilustrado por uma foto incrível? Ou um vídeo cheio de imagens motivacionais? A mensagem precisa estar em primeiro lugar.

Foi-se o tempo em que a primeira tela que víamos no dia era a home de um portal de notícias. Hoje não é preciso nem sair da cama para saber, pelo Facebook, o que acontece no mundo. Então, nesse mundo onde informações surgem de todas a sorte de fontes, o que diferencia o seu conteúdo dos demais? Eis a pulga que o professor deixou na orelha de cada um de nós: “A gente tem que ter segurança no trabalho faz, mas não deixar de olhar para o todo”.

 

COMO SOBREVIVER A TANTA MUDANÇA?

Os alunos levantaram uma bola importante: se já é difícil definir o trabalho que um conteudista faz, como cobrar por ele? Segundo Leandro, o principal é não usar o “achismo” para valorizar o seu próprio trabalho, saber o que leva tempo, o que pode ser negociado, e principalmente manter o padrão de qualidade alto. E nada de reforçar a “guerra” entre o editorial e comercial. “Tem que chegar junto, mostrar de que maneira eles podem vender o que você produz”, diz ele.

O velho – e ainda tão atual – choque entre jornalismo e publicidade também precisa ser contornado no dia a dia. Mas com boas práticas, alinhamento editorial, de métricas e cumplicidade entre quem publica e quem vende o conteúdo. Ele diz estar em paz com essa missão:

“Eu vivo com isso dentro de mim, o conflito. E tudo bem. O que não pode é entrar no autoengano”

Leandro gosta de usar jargões futebolísticos. Por isso, resumiu um dos maiores erros de comunicadores com um verbo: “Vampetear” (em referência ao jogador Vampeta que, em sua passagem pelo Flamengo, disse que o clube fingia que o pagava e por isso ele fingia que jogava). Em termos práticos, o erro é o conteudista que produz algo em que não acredita, o jornalista que escreve só para si, o cliente que não tem métricas, o veículo que trabalha por vaidade…

ONDE A TECNOLOGIA IRÁ NOS LEVAR?

A aula de Leandro teve tom de introdução. Por trazer tantas provocações, não deu tempo de chegarmos em um ponto importante: o do empreendedor da comunicação. Como ele próprio observou na sua conclusão da aula, a história está repetindo. O jornal de um homem só e os pequenos empreendimentos existiam antes da imprensa ser controlada por um grupo seleto de famílias. A diferença é que agora temos a tecnologia a nosso favor.

A escassez de informação não é mais o problema, e sim o excesso. Mas “problema” é uma palavra poderosa hoje em dia, que vem acompanhada de “oportunidade” e “solução” — por isso é tão usada por startups. Leandro garante que o conteúdo nunca foi tão importante, mas que é preciso virar a chave e enxergá-lo de maneira diferente:

“Ser um conteudista é aceitar que o mundo mudou – e algumas coisas desse mundo novo ainda não têm nome”

Que venham as próximas aulas para desbravarmos juntos!

Nos próximos dias 4 e 11 de julho, Leandro expandirá a conversa, em duas novas aulas. Na primeira, ele aborda o conteudismo como profissão, para profissionais da comunicação interessados em carpir a sua empregabilidade nesses novos tempos. Já a segunda será focada no conteudismo como empreendimento, para publishers e produtores de conteúdo interessados em abrir ou manter empresas e serviços autônomos.

 

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