TED ou SxSW – qual é o melhor evento de inovação e criatividade do mundo?

Ricardo Cesar - 10 out 2014Ricardo Cesar, em dia de exploração arqueológica. Arthur, às costas, infelizmente não pôde comparecer ao TEDGlobal 2014: South! devido a compromissos previamente assumidos
Ricardo Cesar, em dia de exploração arqueológica. Arthur, às costas, infelizmente não pôde comparecer ao TEDGlobal 2014: South! devido a compromissos previamente assumidos
Ricardo Cesar - 10 out 2014
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Por Ricardo Cesar

“Muito louco esse lance aí cheio de guardassol, né não?”, disse o taxista carioca, emendando uma interrogação retórica ao final da frase – a obviedade do fato me desautorizava a discordar. Não dava para ficar indiferente àquela estrutura erguida na praia, enfeitada de cima a baixo com ombrelones brancos e vermelhos e ligada ao hotel Copacabana Palace por uma passarela sobre a Avenida Atlântica – como no histórico show dos Rolling Stones, em 2006.

É ali que a cidade do Rio de Janeiro abrigou nesta semana a primeira edição latino-americana do incensado evento TEDGlobal. Pelos palcos do TED já passaram algumas das mentes mais brilhantes e inovadoras do planeta, de figurões como Steve Jobs e Bill Clinton a nomes desconhecidos do grande público, sejam empreendedores, ativistas sociais, poetas, neurocientistas, arquitetos, marqueteiros, designers, educadores, filantropos e até, pasmem, um campeão de iô-iô.

Sim, sim. Muito louco. Entrei. Seria minha primeira experiência em um TED, mas sabia que muita gente ali é assídua e forma uma espécie de comunidade, os “TED Fellows”. No final do primeiro dia já me peguei imaginando o que o taxista pensaria se tivesse assistido a um pouco da programação. Perto das apresentações, os guardassois eram até caretas.

Em um tablado redondo se revezaram, em falas de poucos minutos – marca registrada do TED –, um índio amazônico, uma escritora peruana discorrendo sobre Simón Bolivar, um PhD em geofísica, um cientista da computação versando sobre criptografia e por aí afora. O público frequentemente aplaudia de pé e vibrava ao fim de cada palestra-relâmpago. No meio das sessões, tempo para trocar cartões e fazer “networking”, o que é facilitado por um aplicativo para celular que conecta quem está no ambiente.

Tem coisas no TED que quebram a espinha da gente.

Tem coisas apresentadas no TED que dão um nó na gente.

Há diversas semelhanças com outro evento “fora da caixa” ao qual também fui pela primeira vez este ano, em março: o South by Southwest, ou simplesmente SxSW, que ocorre em Austin, no Texas, Estados Unidos. Ambos estão seguramente entre os melhores representantes de um tipo de movimento que junta gente diferente e muito qualificada para oxigenar ideias, sair do quadradinho, abrir a cabeça, arrancar a tampa. Em ambos, a linha entre a piração inútil e a genialidade cheia de consecução nem sempre é fácil de ser traçada. Vale a pena? E qual dos dois eventos é melhor?

Sem suspense: sim, os dois são ótimos e valem a pena, cada um do seu jeito. Mas é recomendável saber de antemão no que você está embarcando. O denominador comum do TED e do SxSW é uma daquelas expressões que só funcionam mesmo em inglês: “food for thought”. Algo como “alimento para o cérebro (ou para o pensamento)”. Só que se trata de comida não processada, matéria-prima, um bife cru que você leva para casa e depois tenta descobrir como preparar e deglutir.

Não imagine sair de um evento desse tipo com uma solução de prateleira para aplicar na sua empresa, ou na sua vida, e obter resultados no mês seguinte. Ao invés disso, o sujeito pode ganhar uma visão mais ampla do mundo, descobrir novos ângulos sobre questões importantes, arrumar um circo inteiro de pulgas atrás da orelha e um bolso cheio de cartões de visita importantes. Estabelecer contatos talvez seja o ganho mais prático e imediato. O resto você coloca na bagagem e vê mais tarde como usar. Fatalmente se esquecerá de uns 70% do que ouviu – no meu caso, está mais para 90%, resultado de neurônios que testemunharam uma juventude bem aproveitada. Uma parte do conteúdo vira papo de bar, para entreter os amigos e mostrar como você é insider e antenado – aliás, uma autoavaliação não muito rara em quem frequenta o TED e o SxSW. Talvez uma fração você consiga aplicar para valer em sua vida. A mágica é que essa gotinha, só ela, já pode fazer uma baita diferença.

Enquanto o TED tem só um palco e uma sequência única de palestras, no SxSW tem várias coisas acontecendo ao mesmo tempo agora.

Enquanto o TED tem só um palco e uma sequência única de palestras, no SxSW tem várias coisas acontecendo ao mesmo tempo agora.

Os mais cartesianos (dentre os quais me incluo), os céticos (idem), os menos nerds (olha eu aqui de novo), ou simplesmente os mais velhos (adivinha!) podem arrefecer nos momentos de maior extrapolação. Em mais de uma ocasião, enfiei a cara no celular para checar e-mails de trabalho. Mas é preciso resistir à tentação de chafurdar nos pequenos problemas do cotidiano ao invés de viajar nas grandes questões da humanidade. Na vida que levamos é tão rara a chance de praticar esse tipo de exercício mental que não faz sentido perder a oportunidade. O melhor é se entregar e mergulhar para valer na onda do evento.

Um exemplo? A palestra de Michael Green sobre como a medição do PIB se transformou em uma ferramenta inadequada para avaliarmos o progresso de nossas sociedades no século XXI – e como o uso generalizado dessa régua burra está piorando a minha e a sua vida, para não falar sobre o que fará com a de nossos filhos. Tudo provado matemática e cientificamente com dados coletados de dezenas de países ao longo de anos. É genial, embora infelizmente eu não tenha absolutamente nada para fazer com isso amanhã ou depois, entre contas a pagar e reuniões para agendar. Esse é o tipo de entrega do TED, bem como do SxSW.

Contudo, se os eventos se parecem, existem diferenças também. O TED se transformou em uma grife. Continua inovador, porém já não dá para negar que tenha virado mainstream. Os speakers são criteriosamente selecionados – e treinados exaustivamente para que suas palestras sejam nada menos do que impecáveis. A audiência também é filtrada: além da inscrição pra lá de salgada – 6 mil dólares –, ainda é preciso preencher questionários e mandar uma biografia para ser aceito. Nem todos passam pela peneira. Os eleitos costumam ser gente qualificada, de presidentes de empresas com milhares de funcionários até cientistas, artistas e filósofos – ou pelo menos alguém com uma visão inteligente ou original de algum cantinho do saber humano. Há muita curadoria no TED – sobre o palco e à frente dele.

“O TED tem uma curadoria mais rigorosa e um palco único que concentra todas as palestras e ordena o dia de quem está na plateia. O SxSW tem várias atividades acontecendo ao mesmo tempo e a curadoria está mais a cargo do participante do que dos organizadores do evento”

A principal diferença do TED em relação ao SxSW, aliás, está exatamente no palco único que concentra todas as palestras – sempre ministradas seguindo a receita de bolo de falar em poucos minutos, com imagens de impacto e de preferência com aquele entusiasmo de quem está trazendo em primeiríssima mão uma verdade que mudará o mundo. Funciona.

Já o SxSW é mais livre, leve e solto. A inscrição me custou 1 600 dólares. Trata-se de um evento maior, muvucado mesmo, com um público apresentando média de idade – e de saldo bancário – consideravelmente inferior ao do TED. Nem por isso as pessoas são menos brilhantes, mas o pique é meio universitário. O que pega no SxSW é que há dezenas de palestras paralelas. É um sistema descentralizado: o SxSW se esparrama por toda a cidade em diferentes edifícios e casas, com tudo acontecendo ao mesmo tempo agora. Cada aventureiro que chega a Austin tem de montar sua grade particular – e nem sempre é simples escolher ao que assistir e o que será preterido. Há keynotes estrelados com performances fracas e desconhecidos que dão show. Os títulos das apresentações também são enganadores: alguns prometem conteúdos geniais, mas se revelam um blablablá enfadonho. E vice-versa.

Ao escolher uma sala para entrar, no SxSW, você abre mão de outras tantas. Por isso tudo ali vira uma experiência muito individual. Três colegas que tenham ido juntos podem afirmar que o evento é incrível, mediano e uma decepção – e todos estarão certos. A seleção por parte dos organizadores é menor tanto de quem sobe aos palcos como daqueles que formam as plateias. Cada um faz a sua própria curadoria. O duro é acertar nas escolhas. Mas as melhores apresentações do SxSW são espetaculares – e não devem em nada ao suprassumo do TED.

Por fim, vale uma rápida menção para a simbiose desses eventos com as praças onde ocorrem. Eis aí outro ponto alto em comum. O SxSw fincou raízes em Austin e o conjunto da obra – a experiência evento-cidade – é excelente. Austin é jovem e efervescente e está muito além dos estereótipos de barbecue e petróleo que tanta gente nutre sobre o Texas. (Mas não despreze o barbecue e as steak houses de lá – seria um erro imperdoável!) Já o TEDGlobal é, bem, global. Viaja pelo mundo. Nunca fui a outro, mas diria que a coisa funcionou muito bem no Rio de Janeiro. Deu liga. As culturas combinam: o TED tem a ver com informalidade e conexão entre pessoas, características absolutamente cariocas.

Se na Copa do Mundo o Brasil ganhou fora de campo e perdeu dentro – com direito a vexame –, no TED a cidade do Rio de Janeiro foi bem em todas as frentes e marcou um golaço. Esse é o tipo de evento que confere prestígio internacional à cidade e ao país, ao trazer para cá as cabeças mais arejadas do mundo e lhes mostrar um pouco do que temos a oferecer também. É uma bela troca. Os organizadores do evento se esforçaram para fazer um link com o país anfitrião e salpicaram a agenda com shows de capoeira e samba, tudo embalado e processado como um biscoito fino que agrada ao exigente paladar internacional.

Nesses momentos de descontração, os gringos – o TEDGlobal no Rio somou 1 000 inscritos, dos quais 800 estrangeiros – arriscavam uns passos meio desencontrados, mas cheios de sincera empolgação. Ao som de Dorival Caymmi, um deles chegou ao meu lado e perguntou o que eu estava achando de tudo aquilo que ocorria bem ali, nas areias de Copacabana.

Muito louco, my friend. Muito louco.

 

Ricardo Cesar é sócio-fundador da Ideal, da Concept PR e da The Factory, que edita o Draft.

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