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“Tenho uma doença mental, mas ela não me define. Sou muito mais que meu transtorno bipolar”

Dyene Galantini - 22 dez 2017 Dyene Galantini convive há dez anos com uma doença mental. Ela teve a sorte de receber o tratamento e apoio familiar e social que, hoje, ela quer fazer chegar aos menos privilegiados.
Dyene Galantini convive há dez anos com uma doença mental. Ela teve a sorte de receber o tratamento e apoio familiar e social que, hoje, ela quer fazer chegar aos menos privilegiados.
Dyene Galantini - 22 dez 2017
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por Dyene Galantini

Há dez anos, descobri que tenho transtorno bipolar. Assim que veio o diagnóstico, minha terapeuta sugeriu manter um diário para organizar meus pensamentos, que estavam comprometidos por medos irracionais, questionamentos sobre minha lucidez e crises de depressão intermitentes.

A escrita levou-me a refletir e, consequentemente, a encontrar o equilíbrio e estabilização do transtorno bipolar – uma doença de difícil tratamento e uma das mais incapacitantes que existem.

Cada parágrafo me deu força para buscar formas de sair daquele sofrimento. Aos poucos, consegui buscar medicação adequada, terapia, meditação, exercício, nutrição, grupo de apoio, e tive a sorte de encontrar compreensão na minha família, além do acolhimento de um emprego com chefes e colegas de trabalho conscientes.

Depois de anos, e de um processo de coaching que me levou analisar com profundidade todas as áreas da minha vida, resolvi tornar pública essa parte tão íntima e privada da minha existência. A decisão de publicar em livro algo que estava engavetado há 10 anos não foi fácil, afinal, envolve riscos. O principal é que, ao expor este aspecto da minha privacidade, eu arruinasse minha carreira tão cuidadosamente construída. Outro é sofrer o estigma e preconceito, tão presentes na vida de quem tem um transtorno mental.

Perguntei-me sobre o que significava não publicar o livro e percebi que já estava na hora de “sair do armário”.

Meu silêncio significava a negação de uma parte de minha história. Significava a falsa ilusão de uma caminhada sem obstáculos

Significava a minha omissão ao ouvir piadas e comentários corriqueiros sobre bipolares, doentes mentais, autistas e esquizofrênicos. Só eu sei o quanto elas me sufocavam e o quanto me doía, pois sei que sou parte de uma estatística que se esconde, de uma grande comunidade que não tem voz e não é levada a sério. Ter chegado aonde cheguei me trouxe uma sensação de responsabilidade e a obrigação de falar e viver a minha verdade.

E a minha verdade é a seguinte: sou uma executiva de sucesso que desempenha otimamente minhas funções tanto no trabalho quanto nos compromissos sociais. Cumpro com minhas obrigações de cidadã brasileira pagando impostos e respeitando as leis. Ah! E tenho uma doença mental mas não me sinto definida por ela. Sou muito mais do que ela.

Em segredo, há mais de dez anos, convivo com o transtorno bipolar, uma doença psiquiátrica séria que afeta 2% da população brasileira

Quando não tratada, pode ser incapacitante. O transtorno bipolar causa danos irreversíveis ao cérebro e perda da capacidade mental e quem tem morre 20 anos antes da população sem esse diagnóstico.

Mas não é isso, nem de longe, o que me assusta. O que me assusta é o preconceito e o estigma. Eles é que são o verdadeiro malefício de qualquer doença mental. Sabe por que? Porque eles fazem com que as pessoas que sofrem de transtorno bipolar ou outras doenças mentais não busquem ajuda ou tratamento com medo de serem rotuladas de loucas ou de serem minimizadas em seu sofrimento mais profundo.

Eu tive o luxo e discernimento de procurar um tratamento logo no início, tive o apoio incondicional de muitas pessoas queridas, a sorte de trabalhar em empresas que me deram apoio na saúde e na doença e o privilégio de poder custear uma medicina de ponta, mas sei que nem todos tiveram a mesma sorte.

Sabe aquele mendigo que fala sozinho na rua e que chamamos de maluco? Com apoio e tratamento certo, ele poderia se integrar e contribuir com essa mesma sociedade que é tão rápida em zombar e julgar, mas tão lenta em lutar pelo que é correto.

Para mim, o correto foi sair da minha zona de conforto, parar de reclamar do governo nas mídias sociais e colocar a mão na massa. Comecei um trabalho voluntário dentro de um hospital psiquiátrico do estado do Rio de Janeiro para conhecer de perto o sistema. Lá, conheci um projeto incrível de inclusão social para pessoas com transtornos mentais através do emprego formal e oficinas de arte e culinária que geram renda para os usuários da rede de saúde pública. Lancei o projeto Vencendo a Mente, que viria a ser o título do meu livro, para apoiar essas iniciativas.

Minha visão é que todos tenham as mesmas condições que eu tive: emprego formal com adaptações razoáveis para a manutenção da vida sadia, acesso a tratamento e acolhimento psicossocial

Então, correr um risco de me deixar vulnerável a críticas destrutivas pareceu-me um pequeno preço a pagar diante da minha intenção. Quero facilitar um diálogo que tire o véu desse verdadeiro tabu chamado doença mental, quero ajudar a fazer com que os portadores de doenças mentais sejam incluídos nas famílias, sociedade, no mercado de trabalho e que tenham seus direitos garantidos com dignidade. Respiro fundo, cerco-me de pessoas do bem e digo: mãos à obra que essa caminhada será bastante longa, árdua e cheia de haters. Isso é só o começo.

 

 

Dyene Galantini, 41, é diretora adjunta de Marketing na IHS Markit e autora de Vencendo a Mente: como uma executiva de sucesso superou o transtorno bipolar (disponível em ebook nas principais lojas e em versão física na Amazon).

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