“Todos os setores vão precisar lidar com a transição energética. Esse não é um tema só do segmento de energia”

Aline Scherer - 13 jun 2024
André Miceli, CEO e editor-chefe da MIT Technology Review Brasil, que organiza o Energy Summit Global (foto: divulgação).
Aline Scherer - 13 jun 2024
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Em conversas com executivos(as) das áreas de tecnologia, informação e inovação, ao falar em transição energética, André Miceli costuma ouvir “mas eu não sou desse segmento” ou “esse tema não tem muito a ver comigo”.

“A consciência sobre a importância da transição energética para toda a organização precisa ser reforçada”, afirma o CEO e editor-chefe da MIT Technology Review Brasil. “Todo mundo vai precisar lidar com esse tema.”

Fundada em 1899 pelo MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, a MIT Tech Review chegou ao Brasil em 2020, pelas mãos de Miceli (ele é sócio-fundador da Infobase, uma integradora de TI criada em 1998, enquanto cursava Informática na PUC-Rio).

Além de uma revista com foco em tecnologia e inovação, a MIT Tech Brasil produz análises e relatórios e serve de ponto de apoio a iniciativas do MIT, como o programa de aceleração de empreendedorismo regional do qual o Rio de Janeiro participa desde 2020. O objetivo é transformar a cidade em um “Vale do Silício” da transição energética e da sustentabilidade. 

Um dos resultados dessa aceleração é o Energy Summit. O evento deve reunir representantes de governo, universidades, corporações, startups e investidores de risco entre 17 e 19 de junho, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio (mulheres do setor de energia têm 80% de desconto).

“Vamos ter mais de 80 C-Levels participando das discussões, masterclasses com professores do MIT…”, diz Miceli. “A CEO global da MIT Technology Review vai falar sobre as dez tecnologias que o MIT acredita que vão mudar a nossa vida nos próximos anos.” 

Sócio e membro do conselho do Energy Summit Global, Miceli fala a seguir sobre o que esperar do evento e os desafios (e oportunidades) para o Brasil no contexto da transição energética:

 

Por que a MIT Tech Review resolveu fazer o Energy Summit?
Em 2020, a cidade do Rio de Janeiro aplicou para ser participante do MIT REAP, ou Regional Entrepreneurship Acceleration Program, um programa de aceleração do MIT de regiões empreendedoras que tem como objetivo formar ecossistemas que funcionam a partir de um tema. 

Assim como Tel Aviv, com os softwares de segurança; como o próprio Vale do Silício, com tecnologia da informação; como Boston, com biotecnologia, a ideia do Rio de Janeiro era, naquele momento, começar esse processo de se tornar um “vale do silício” de transição energética e sustentabilidade

O Rio já tem uma vocação para o tema energia, por causa da Petrobras; já tem aqui Vibra, Eletrobras, e aí o MIT REAP junta cinco pontas: governo, academia, grandes empresas, startups e investidores. E a partir dessas conexões surgem esses grandes ecossistemas. 

Entre 2021 e 2023, o programa aconteceu. Em 2023, tivemos um evento aqui no Rio com cinco professores, pessoas do setor, cerca de mil participantes. Era para ser bem pequeno e teve um interesse gigantesco – conseguimos reunir os presidentes da Vibra, da Eletrobras e da Petrobras. 

Vimos o segmento inteiro olhando para aquele evento, e aí entendemos que poderia ser a oportunidade de fazer algo mais estruturado

Eu já estava próximo do pessoal do REAP, porque a MIT Technology Review foi a “casa do conteúdo” do REAP no Brasil. E começamos a produzir relatórios, análises — apesar de conhecida pela revista, como modelo de negócio a MIT Tech Review funciona muito mais com suporte ao processo de inovação corporativa.

Esse movimento fez a gente se aproximar [ainda mais] do REAP, e houve um aumento de interesse natural no segmento de energia. O governo federal, o estadual, todo mundo entrou no negócio.

Em abril, a Prefeitura lançou o [hub de tecnologia e inovação] Porto Maravalley, que está sendo administrado pelo [polo de transição energética] Rio Energy Bay, um produto desses dois anos de MIT REAP, e o Energy Summit também.

O que o público pode esperar do Energy Summit?
A ideia é fazer uma conferência mais voltada, no primeiro dia, para o segmento de tecnologia, como todo CIO vai precisar lidar com a transição energética. Essa conferência é o EmTech, a Conferência de Emerging Technologies da MIT Technology Review. Ela acontece em oito regiões do mundo, uma delas vai passar a ser o Rio. 

Nos outros dois dias, [será] uma conferência um pouco mais técnica para todo o setor de energia. Não é um produto de conteúdo para empresas de petróleo ou para empresas de nuclear; a ideia é juntar essas cinco pontas que eu mencionei e olhar essa organização de ecossistema sobre a perspectiva do processo de transição energética em geral e da recomposição das matrizes energéticas. 

O processo de transição energética vai ficar muito grande para toda empresa. E ainda está embrionário. Tem várias teses de geração e distribuição de energia: eólica, onshore, offshore, hidrogênio verde, biomassa… Elas vão precisar coexistir

Muitas empresas vão nascer nesse processo e a gente quer ajudar a organizar essa história, participar desse negócio. O avanço da inteligência artificial deve elevar a demanda por energia, com uma explosão do consumo elétrico dos data centers.

Que tipo de foco, intensidade e urgência tem a transição energética na agenda de líderes de tecnologia e informação nas empresas?
É basicamente a pergunta que queremos responder no primeiro dia do evento. Temos alguns painéis voltados para os grandes consumidores de energia. 

Essa avaliação da inteligência artificial é importante, porque eles vão se deparar com um grande paradoxo. De um lado, um aumento de demanda pelo uso de inteligência artificial nas suas corporações; e, por outro, uma pressão por descarbonização, por diminuir as emissões de carbono. 

Do jeito que nós estamos estruturados hoje em dia, não tem como bater essas duas metas. Para fazer isso, será preciso reorganizar o processo de consumo de energia. E aí existem várias teses: redimensionar a sua estrutura de consumo, ter as suas próprias matrizes energéticas… 

O papel do governo vai ser fundamental. Dependendo de onde as empresas estão – em quais segmentos, e onde esses CTOs e CIOs trabalham –, vão ter urgências maiores.  As empresas que buscam crédito, especialmente fora do Brasil, já conseguem medir retorno sobre investimento, porque pegam dinheiro mais barato quando batem meta de diminuição de emissão de carbono. E o governo pode acelerar esse processo 

Então, dependendo dos acordos que o governo for signatário, e dos desdobramentos que isso trouxer para as organizações, os CTOs podem ter uma pressão muito forte para diminuir a emissão de carbono e redesenhar a sua matriz de consumo de energia. 

O fato é que essas diferentes teses vão ficar cada vez mais à disposição desses CTOs e CIOs. Eles vão poder comprar de fornecedores diferentes – com o mercado livre de energia isso já pode acontecer. E vão ter a alternativa de, de alguma forma, produzir energia para si mesmos também. O que, na nossa opinião, dependendo do tamanho da empresa, vai se tornar inevitável.

Os data centers vão ser certificados pelo consumo de energia que cada um deles tem, pela composição desse consumo de energia. E isso faz com que esse processo deva ser mais bem pensado. 

Do ponto de vista de políticas públicas, um dos processos de transição energética é a democratização, e isso vai aumentar o consumo; por isso esse processo precisa ser pautado numa estrutura bem desenhada de composição de matriz para que não tenha, em conjunto com essa democratização, um aumento das emissões de carbono. Senão a gente resolve um problema criando outro. 

Tem uma tese que o Gustavo Montezano, antigo presidente do BNDES [e colunista da MIT Tech Review], fala muito e com a qual concordo plenamente: países de desenvolvimento precisam olhar ESG de trás para frente. Primeiro você trata da governança das empresas, depois você consegue olhar para o social – e só depois para o ambiental 

Por exemplo, na guerra da Ucrânia, a Rússia cortou o fornecimento de gás para a Europa. Eles religaram a indústria de carvão, porque senão as pessoas vão morrer de frio. Então, sabem que vão aumentar a emissão de carbono num primeiro momento, mas precisam resolver um problema social para depois resolver o ambiental. 

A gente vai passar por um processo parecido. Governança, social e ambiental, nessa ordem. Só que isso precisa estar bem estruturado por governos e empresas.

A organização do evento manifestou a vontade de posicionar o Rio como capital mundial da transição energética. O que isso significa de fato? E em qual nível de maturidade está o Brasil na transição energética hoje?
O Brasil tem esse processo muito bem definido, é um país referência em matriz energética limpa há muito tempo. A gente tem uma costa grande, o que facilita a geração de eólica on e offshore. 

A Petrobras tem um estudo interessante do processo de descarbonização dos combustíveis fósseis. A gente não vai parar de usar petróleo, mas vai usar petróleo diminuindo as emissões de carbono. 

Mas isso ainda não está construído como política de Estado e a gente ainda precisa amadurecer os mercados de venda de energia para que o Brasil se torne um player fundamental nessa composição global. 

Tem uma professora do MIT, a Cheryl Martin, que fala que, no momento em que a transição energética começar no Brasil de verdade, o mundo vai mudar, porque vamos passar a vender isso, fazer negócio, gerar startups que podem participar globalmente desse processo de transição energética, de ter empresas que são protagonistas desse modelo globalmente 

A gente [hoje] ainda é um bebezinho no nível de maturidade da transição energética. Internamente, temos uma matriz interessante, empresas, know-how, mas a gente vende mal essa história e, globalmente, o Brasil não é um player relevante. 

Temos uma baita oportunidade pela frente. Então, queremos posicionar o Rio de Janeiro, que já é um estado com uma experiência grande em relação à produção e distribuição de energia, por causa da Petrobras, e todo o seu entorno. E isso pode ser uma oportunidade para o ressurgimento do próprio estado, no final das contas. 

Acho muito difícil que o Brasil se torne um líder desse processo de transição energética, mas ele pode se tornar um grande player, como é no agro, por exemplo. O MIT acredita muito na relação entre essas cinco pontas: governo, academia, grandes empresas, startups e investidores 

As coisas, inevitavelmente, passam por estruturas bem definidas pelo governo, políticas públicas bem desenhadas. A partir daí, temos condição de atrair capital de investimento — especialmente com a desvalorização do real, essa estrutura de câmbio favorece a chegada de capital. 

Embora o planeta não viva um momento abundante em relação a investimentos em startups e capital de risco, ainda assim tem muito dinheiro para boas ideias. E a gente ainda não é capaz de atrair esses investidores. 

Então, com o dinheiro dos investidores e políticas públicas bem definidas, a gente consegue ter startups que podem ajudar nesse processo de inovação.

As empresas bem estabelecidas são fundamentais num processo de inovação de geração e distribuição de energia. As grandes empresas brasileiras estão definindo projetos de corporate venture capital, de inovação aberta, para que essa roda comece a girar. 

Mas a gente precisa de dinheiro, e empresas com capital em bolsa têm necessidade de resultados de curto prazo. Então, essa estrutura de inovação mais pesada só existe com apetite de investimento — e com políticas públicas

A DARPA — que tem a sua analogia na ARPA-E, a agência do governo americano associada à evolução de transição energética e de construção de inovações nesse sentido — é uma agência governamental m, foi responsável pela constituição da internet. 

Uma empresa não faria a internet acontecer, precisa de um governo. E ainda não temos políticas públicas bem definidas nessa direção.

Um dos painéis do Energy Summit que você vai participar é o “CX Strategies in Energy”. Como a transição energética afeta a experiência do consumidor?
Se você não tiver a percepção que está consumindo energia de fornecedores diferentes é sinal que ela está funcionando bem. 

Quando você bota painéis solares em casa e eles injetam na rede a energia gerada e isso é descontado automaticamente da sua conta — sem você ficar girando uma chave, por exemplo, que determina se você está usando do seu painel ou do seu fornecedor de energia —, isso é sinal de bom funcionamento

Mas tem uma pergunta fundamental que é como a experiência do consumidor vai afetar a transição energética. Essa demanda de como se consome energia vai ajudar a construir os próximos passos. 

Não adianta, por exemplo, investir em nuclear – uma tendência importante – se o planeta não estiver disposto a consumir energia nuclear ou se as pessoas não estiverem dispostas a ter um gerador de energia nuclear no quintal de casa. 

Existe uma empresa financiada pela The Engine, uma aceleradora que nasceu no MIT, que tem como ambição criar plantas pessoais de geração nuclear para usar em pequenas fábricas ou em residências, as personal nuclear power plants. Isso pode mudar completamente o modelo de consumo de energia e a estrutura de todo o segmento

É uma questão polêmica, sem dúvida. Mas, do ponto de vista de emissão de carbono, a geração de energia nuclear é muito limpa, [desde que] funcionando corretamente. Só que ainda não temos a questão da segurança plenamente resolvida, e tem a questão de escala de produção, de custo. 

Quais os outros temas são prioritários para a MIT Tech Review?
Ao longo de 125 anos, a MIT Tech Review acompanhou o aumento da importância da tecnologia na vida das pessoas. Os colunistas famosos, como Thomas Edison, [Winston] Churchill, sempre trouxeram essa visão de tecnologia pervasiva. 

À medida que a tecnologia avança, ela vai fazendo parte da nossa vida e essa questão da invisibilidade, que eu falei da experiência do cliente no que diz respeito ao consumo de energia, vem acontecendo em relação ao uso da tecnologia também. 

A gente parava para se conectar à internet; depois, os nossos computadores já estavam conectados o tempo inteiro; depois, os nossos celulares… Temos como missão democratizar e aumentar a reflexão sobre o uso da tecnologia em todos os segmentos

Naturalmente, energia é uma das nossas prioridades. Saúde também: o MIT fica no meio de um centro de biotecnologia, em Boston, de onde saiu a vacina de mRNA para Covid. 

Inteligência artificial, estamos olhando com muita cautela para as implicações psicológicas, sociais e estruturais que ela pode ter, assim como as redes sociais tiveram. A gente entende que as redes sociais são um modelo com partes tanto de sucesso quanto de fracasso. 

Qual tendência, inovação ou tecnologia que você destacaria, que muitos nem conhecem ainda aqui no Brasil, mas já está em desenvolvimento e pode transformar realidades?
O modelo de inteligência artificial que vem amadurecendo vai ser embarcado em praticamente tudo o que temos; então, os devices autônomos, com inteligência artificial, vão crescer em larguíssima escala. Só que, para isso acontecer, precisamos resolver um problema gigantesco de semicondutores e microchips. 

Desde o começo da guerra da Rússia, do aumento das tensões entre Estados Unidos e China – desde a Covid, na verdade –, essa cadeia ficou quebrada, gerou uma demanda reprimida grande; e, quando o mundo reabriu, ele reabriu com uma configuração um pouco diferente. Então, essa questão tem desdobramentos importantes 

Uma maneira de minimizar os impactos da questão dos microchips é com uma tecnologia de chiplets, que são meio que uma estrutura física que pode ser preenchida por processadores diferentes. O processo de produção de tecnologia é mais simples do que o dos microchips que a gente está acostumado. 

Esses chiplets podem ser usados em muitos dos dispositivos conectados. Por exemplo, uma geladeira estar conectada e avisar quando um produto está acabando… Algumas dessas coisas plenamente viáveis, mas ainda não totalmente disponíveis, podem ser resolvidas através dessas tecnologias.

Os chiplets podem ser produzidos localmente, o que torna a produção mais ecologicamente correta: se produz localmente e se consome localmente. Não é tão rocket science quanto as grandes fábricas de semicondutores que têm uma cadeia de suprimento muito longa, mas são uma tecnologia importante da qual se fala pouco. É uma das 10 breakthrough technologies que vamos apresentar no Energy Summit

Outro dia, a MIT Technology Review publicou um artigo sobre chiplets e tinha um monte de gente corrigindo: “não é chiplets, é chips, digitaram errado”

Foi curioso. Isso mostrou o quanto essa tecnologia ainda é distante; mesmo com a leitura muitos não tinham ideia do que a gente estava falando. Mas ela pode ser bem relevante no futuro e ajudar a resolver questões que vão se tornar ainda mais importantes com o avanço do uso da tecnologia no geral.

 

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