Verbete Draft: o que é Techlash

Isabela Mena - 26 fev 2020
Pôster do estúdio digital Mala Forever para o site investigativo The Markeup. Na ilustração se lê “Big Tech Is Watching You. Who’s Watching Big Tech? The Markup".(Imagem: NiemanLab/Reprodução).
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Continuamos a série que explica as principais palavras do vocabulário dos empreendedores da nova economia. São termos e expressões que você precisa saber: seja para conhecer as novas ferramentas que vão impulsionar seus negócios ou para te ajudar a falar a mesma língua de mentores e investidores. O verbete de hoje é…

TECHLASH

O que acham que é: Uma nova tecnologia para maquiar os cílios (inglês, eyelash).

O que realmente é: Techlash, acrônimo formado a partir das palavras techonology e backlash (forte reação negativa a questões sociais ou políticas) é o termo que define a animosidade pública em relação às grandes empresas de tecnologia, especialmente as do Vale do Silício.

As ações e reações recaem principalmente (mas não só) sobre a Alphabet (Google), Apple, Amazon, Facebook e Microsoft, considerado o grupo das cinco empresas mais poderosas do mundo.

Na prática, o Techlash acontece por diferentes vias: acusações de funcionários das companhias sobre o ambiente tóxico de trabalho e de assédio sexual; queixas da sociedade civil (inclusive diretamente a congressistas) quanto a políticas escusas de privacidade, a mal uso de seus dados, à publicidade invasiva; escrutínio de governos sobre regulação das empresas, combate do truste e fim do uso de plataformas sociais para disseminação de fake news (principalmente em época de eleições governamentais); movimentos por regulação trabalhista por empresas da gig economy. Em muitas dessas frentes há trabalho organizado por ativistas.

Débora Albu, pesquisadora do ITS Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade), diz que no contexto do Techlash estão o escândalo envolvendo a empresa Cambridge Analytica e o Facebook (nas eleições americanas de 2016 e no plebiscito sobre a saída do Reino Unido da União Europeia), assim como a publicação de pesquisas sobre o futuro do trabalho e de como robôs substituirão a mão de obra humana. Há ainda o aumento de casos de vazamentos de dados e de evidências sobre como redes sociais e inteligência artificial são usadas como mecanismo de difusão de desinformação. “A reação é a intensificação das regulações para diminuir o poder e a influência dessas grandes companhias, assim como o alcance de desinformação e o aumento da conscientização por parte dos consumidores em relação às consequências do uso intensivo dessas tecnologias.”

Passados dois anos do escândalo da Cambridge Analytica, entra em vigor, em maio de 2018 o GDPR (General Data Protection Regulation), nova legislação sobre proteção de dados pessoais da União Europeia. O Techlash aumentou (a Google foi multada pela França em 150 milhões de euros) e o Estados Unidos  pôde mais se manter alienado.

Ainda em 2018, o termo Techlash foi considerado “palavra do ano” pelo jornal Financial Times e quase levou o mesmo título pelo dicionário inglês Oxford, sendo um dos finalistas (a palavra vencedora foi “toxic”).

O ano seguinte: Em palavras do The Guardian, em publicação feita em dezembro do ano passado (link em “Para saber mais”), 2019 foi um ano brutal para o Facebook, a Google e a Amazon, em razão do Techlash.

O texto, que se expande também para a Alphabet (Google) e Apple, conta (assim como praticamente todos os veículos de comunicação da época) como essas gigantes da tecnologia enfrentaram audiências no Congresso sobre questões como privacidade, antitruste e desinformação.

Em julho, Facebook, Google e Amazon estiveram sob o subcomitê da câmara respondendo sobre antitruste. Uma semana depois, o departamento de justiça dos EUA anunciou que estava abrindo uma ampla revisão sobre o tema nas cinco gigantes. Estes são alguns exemplos dos escrutínios pelos quais as empresas passaram. Há mais.

O início: Em 2013, Adrian Wooldridge, um dos editores da The Economist, escreveu “The coming tech-lash” (link no item “Para saber mais”), uma previsão (segundo o próprio autor), de que o comportamento da elite das empresas de tecnologia faria com que se juntasse a outras elites já demonizadas pelo público, como banqueiros e magnatas do petróleo.

A grafia ainda era outra (hifenizado), o termo aparecia apenas no título e o texto tratava muito mais da similaridade entre o novo e o velho poder (e o do quanto o último estava incomodado com o primeiro) do que da reação pública. O último parágrafo é uma fala do então presidente da Google, Eric Schimidt. “Vivemos em uma bolha e não me refiro a uma bolha de tecnologia ou de avaliação, mas uma bolha em nosso próprio mundinho. Este pequeno mundo foi protegido da raiva popular pela desigualdade. O estouro da bolha será uma das maiores mudanças na economia política do capitalismo no próximo ano.”

Hoje, Schmidt é presidente Conselho de Inovação do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, o que o texto não prevê literalmente, mas está lá.

Os efeitos 1: Embora os valores das multas estejam aumentando, eles ainda são considerados baixos diante do lucro descomunal das empresas. Ou seja, as multas são inócuas.

Semana passada, um texto publicado na The Economist (link no item “Para saber mais”) diz que, enquanto os reguladores discutem novas regras e os ativistas se preocupam com o direito à privacidade, as ações do já citado grupo das cinco estão em alta nos últimos 12 meses, com aumento de 52%.

De qualquer forma, até agora, aconteceu o seguinte:

— O Facebook foi multado em quase 5 bilhões de dólares pela Federal Trade Commission por manipular incorretamente os dados do usuário no caso da Cambridge Analytica.

— A Amazon cancelou seus planos de construir uma sede em Nova York após moradores, líderes sindicais e legisladores locais contestarem a ideia que de, para se estabelecer na cidade, a  empresa deveria receber 3 bilhões de dólares do estado.

— A Google, em 2018, enfrentou protestos internos por condutas de assédio sexual no ambiente de trabalho e sobre planos para um mecanismo de busca censurado na China. Sobre esta segunda questão a empresa declarou que nunca planejou expandir a pesquisa na China e que os planos para um projeto naquele país haviam sido encerrados.

Os efeitos 2: Do Techlash faz parte também a percepção e o sentimento da sociedade civil que se vê compelida a mudar de comportamento, seja por meio de atitudes individuais seja através de organizações ativistas. Segundo uma pesquisa do Pew Research Center, feita ano passado, a parcela de americanos que acredita que as empresas de tecnologia tenham um impacto positivo na sociedade caiu de 71%, em 2015, para 50% em 2019. O dado está em um texto publicado em janeiro no New York Times (link em no item “Para saber mais”) sobre a mudança de interesse dos alunos que estudam em faculdades reconhecidas e que, até pouco tempo, sonhavam em trabalhar nas gigantes de tecnologia. Não mais. Sua questão: a falta de ética.

Em função disso, de acordo com Albu, muitos desses novos profissionais estão criando startups a partir de melhores práticas e com novas tecnologias que trazem exemplos às gigantes. “Esses acontecimentos, que desembocam no Techlash, geram uma maior conscientização por parte dos consumidores em relação aos modelos de negócio empregados por essas empresas”, afirma.

Os efeitos 3: Para uma grande parcela da população, o surgimento da gig economy por meio de empresas como Uber e Lyft, trouxe mão de obra barata, sem vínculo empregatício e, consequentemente, sem direitos trabalhistas. Há anos acontecem protestos pedindo regulamentação no setor. Para citar um exemplo, em junho último ativistas, imigrantes e funcionários da Amazon fizeram um grande protesto contra a companhia por suas práticas trabalhistas e seu envolvimento com os esforços de deportação das autoridades dos EUA.

O lado positivo: Ao atingir diretamente a sociedade civil (com o usuário comum e o trabalhador de aplicativo), o Techlash se torna um incômodo que, em muitas pessoas, deflagra um movimento participação no debate e nas escolhas.

Um exemplo, segundo Albu, é Marco Civil da Internet no Brasil, um dos primeiros casos de uma lei construída de forma multissetorial online por meio de uma plataforma que aceitava comentários de todos os usuários da própria internet. “Muitas vezes o caminho de mais regulação parece óbvio como solução, mas não é o mais efetivo, por não dar conta da velocidade com a qual essas tecnologias avançam.”

O Techlash estimulou o surgimento de iniciativas como o The Markup, uma nova publicação investigativa digital focada na responsabilidade tecnológica, lançada esta semana (link em no item “Para saber mais”). A imagem que ilustra esse Verbete é uma propaganda do site. O pôster foi colocado bem próximo a um ponto de ônibus para os funcionários da Google, em São Francisco. Na ilustração se lê “Big Tech Is Watching You. Who’s Watching Big Tech? The Markup”. Em tradução livre: As grandes empresas de tecnologia estão de olho em você. E quem está de olho nelas? O Markup.

Para saber mais:
1) Leia, na The Economist, The coming tech-lash.
2) Leia, no The Guardian, A brutal year: how the ‘techlash’ caught up with Facebook, Google and Amazon.
3) Leia, na The Economist, How to make sense of the latest tech surge.
4) Leia, no New York Times, ‘Techlash’ Hits College Campuses Facebook, Google and other major tech firms were every student’s dream workplaces. Until they weren’t.
5) Leia, no Wall Street Journal, ‘Techlash’: Whipping Up Criticism of the Top Tech Companies (só para assinantes).
6) Leia, no NiemanLab, “Big tech is watching you. Who’s watching big tech?” The Markup is finally ready for liftoff.

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