Essa é uma boa hora para acabar com a empresa tradicional. Viva o Novo Capitalismo!

Adriano Silva - 24 abr 2020
(Imagem de Chris Reading por Pixabay) 
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A visão clássica de uma empresa é assim: tem um dono, que aporta capital (próprio ou obtido junto a terceiros) e corre sozinho o risco do empreendimento. Tudo dando certo, ele usufrui sozinho do retorno sobre o seu investimento, principalmente por meio da margem de lucro, que é a diferença entre os preços que ele pratica e os custos que ele contrai.

Ou seja: trata-se de um modelo baseado no individualismo, que isola o sujeito dos demais, numa jornada do tipo eu-contra-o-mundo. Seja quando tudo vai bem, seja quando tudo vai mal, a receita sempre passa por solidão e pela defesa intransigente dos seus interesses, e dos seus poucos sócios, em oposição a todos os demais

Como na maioria das empresas os produtos ou serviços são obtidos por meio do trabalho de outras pessoas, a margem de lucro, também conhecida como resultado operacional, significa tomar o valor do trabalho produzido pelos funcionários e aplicar sobre ele um “mark up”, que fica no caixa da empresa – ou no bolso do dono.

Você pode entender que a margem de lucro recompensa a iniciativa do empreendedor, sua capacidade de enxergar alguma coisa onde ninguém via nada e de transformar em realidade aquela visão. E que ela remunera o risco contraído pelo capital ao financiar uma empreitada quando ainda não havia garantia de retorno.

Você também pode entender que a margem de lucro é injusta com as pessoas que produzem os resultados da empresa na medida que elas recebem apenas uma parte da riqueza que geraram com seu trabalho.

É PRECISO HACKEAR A RELAÇÃO BASEADA NA MAIS-VALIA E TORNÁ-LA MENOS TENSA E MAIS EFICIENTE PARA TODOS

Estabelece-se aí, no cerne do modelo tradicional de empresa, uma contradição indissolúvel entre capital e trabalho. 

O empresário dirá que o funcionário recebe o seu salário e dorme tranquilo, sem precisar se preocupar com a sobrevivência do negócio, nem de onde virá o dinheiro que pinga na sua conta todo dia 30. 

E o funcionário dirá que se recebesse o valor justo pelo seu trabalho, esse valor equivaleria ao preço que a empresa cobra de seus clientes pelo que ele produz — e assim não haveria margem de lucro.

Há saída para essa tensão que está na base do capitalismo? Dá para hackear essa relação baseada na mais-valia, de modo a torná-la um pouco menos tensionada e um pouco mais eficiente para todo mundo?

Alguém dirá que não são todas as pessoas que têm estômago e resiliência suficientes para abrir novos mercados, gerar novas demanda, cavar clientes, desenhar processos, inventar novos produtos e serviços, botar seu dinheiro e sua reputação na reta, dar a cara a bater – sabendo, desde o início, que a inércia jogará contra e que a grande probabilidade é que nada disso venha a dar certo e que todos os esforços e recursos investidos desçam pelo ralo. 

Essa mesma pessoa dirá que faz sentido que os colaboradores, que chegam depois, quando o carro já está rodando, recebam uma fatia proporcionalmente menor dos ganhos. Uma coisa é dirigir bem um automóvel, e bons pilotos têm muito valor; outra coisa é a capacidade, muito mais rara, de montar um automóvel funcional, que possa ser dirigido por bons pilotos – chassi, motor, rodas, câmbio –, a partir do primeiro parafuso.

CRISES ACELERAM MUDANÇAS. A PANDEMIA PERMITE PENSAR UM NOVO MODELO DE EMPRESA

Ainda assim, creio que é possível pensar um novo modelo de empresa. Especialmente nós, que vivemos e fazemos a Nova Economia. E que estamos vivendo esse momento de ruptura trazido pela pandemia – uma dessas famosas crises que aceleram mudanças e criam oportunidades de reinvenção.

E se uma empresa funcionasse como um marketplace de talentos? Como uma associação de expertises complementares e relevantes para a solução de problemas presentes no mercado? E se essas relações fossem líquidas e efêmeras, definidas pelas demandas existentes e pelos projetos contratados? 

E se uma empresa fosse um canvas aberto à colaboração, e não uma propriedade privada fechada; um ambiente coletivo afeito à participação, com cuja reputação todos os seus integrantes tivessem que contribuir e de cujos resultados todos pudessem usufruir?

Pense no tal sentimento de dono – que é uma atitude bacana. Mas com prerrogativas de dono correspondentes, inclusive no que se refere à remuneração. E não apenas nos bônus, mas também nos ônus do negócio.

ABAIXO A DITADURA DA ESCALA, ABAIXO O MITO DA EXPONENCIALIDADE

Imagine uma empresa com uma órbita de talentos que tragam para dentro da nave-mãe não só sua capacidade de trabalho e de entrega, mas também leads, prospects, novos clientes, novas receitas — numa equação em que todos os envolvidos se beneficiem proporcionalmente com esses novos negócios.

E se uma empresa fosse uma organização flexível, maleável, um organismo vivo, capaz de reagir rapidamente aos estímulos, uma plataforma just in time e just in case que pudesse se expandir e contrair e se transformar conforme as oportunidades com as quais fosse lidando ao longo da sua trajetória?

E se as empresas não fossem mais desenhadas para a ditadura da escala, para o crescimento a qualquer custo, para o mito da exponencialidade, mas, sim, para serem muito relevantes, essenciais naquilo que fazem, e o seu tamanho fosse apenas um resultado disso, e não uma premissa? 

E se parássemos de nos medir pelos faturamentos? E se o dinheiro não fosse um fim, um objetivo em si, que você precisa amealhar e acumular, operando pela lógica da escassez, e fosse um meio para produzir e distribuir felicidade humana, operando pela lógica da abundância?

E se a sustentabilidade das relações estabelecidas ao redor da empresa, entre colaboradores, fornecedores, parceiros e clientes, num olhar de construção e de longo prazo, fosse mais importante do que os resultados imediatos do trimestre?

Nesse cenário, o fundador de uma empresa seria o gestor de um hub de competências. O síndico do condomínio. O diretor de redação que assina a publicação mesmo sem ter escrito uma linha sequer diretamente. 

Pense no dono atuando como o maestro de uma orquestra. Como o compositor que gera as partituras que os outros irão tocar. Como o líder de um talentoso exército de free agents.

E se todos pudessem ser acionistas do negócio que ajudam a construir – com participações desproporcionais, definidas pelo aporte de cada um, com participações temporárias, com participações eventualmente restritas à porção da empresa em que atuam?

Imagine os colaboradores deixando para trás sua condição, a um só tempo confortável e atrofiada, de funcionários. E assumindo mais riscos. E participando ativamente dos resultados da companhia. E gerenciando de forma mais ativa, e menos passiva, suas carreiras. 

E se os talentos deixassem de ser empregados para se tornarem parceiros estratégicos, para serem co-empreendedores do fundador? 

NA RELAÇÃO PATRÃO/FUNCIONÁRIO COMO É HOJE, UM DOS LADOS SEMPRE SE SENTE TRAÍDO

Eu trabalhei para patrões durante muito tempo. E hoje, já há mais de uma década empreendendo, não quero ninguém trabalhando para mim. Quero gente trabalhando comigo. Estive dos dois lados da relação patrão/funcionário e posso dizer, olhando tanto de um lado quanto de outro, que ela é muito ruim.

Quando as coisas vão bem, o funcionário se sente traído, porque não participa dos ganhos. Ser empregado é investir em renda fixa – você nunca vai perder dinheiro, mas sempre vai ganhar pouquinho, vai ter sempre um teto baixo acima da cabeça, nunca vai participar de verdade do crescimento quando ele acontecer ao seu redor.

Quando as coisas vão mal, é o patrão que se sente traído, porque precisa garantir o salário de todo mundo, em dia, mesmo que para isso tenha de se endividar na pessoa física e arrancar da própria carne para dar de comer aos seus protegidos. (Sim, trata-se de uma relação arcaica e patriarcal.) Como se os funcionários não tivessem nenhuma responsabilidade sobre os maus resultados. Como se a saúde da companhia não lhes dissesse respeito.

Em contrapartida, imagine uma empresa em que os colaboradores não fossem contabilizados como custo, mas, ao invés disso, estivessem depois do bottom line, participando dos resultados. E assim tivessem ganhos variáveis, proporcionais aos resultados que gerassem para a empresa. Pense nos empregados saindo de sua baia energizados por poderem participar da festa que ajudam a colocar de pé

Num cenário assim, quando tudo é bom, é bom para todo mundo. E quando as coisas ficam duras, todos apertam o cinto. A ideia de colocar o dono e os colaboradores do mesmo lado da mesa, segurando o mesmo remo no barco, quebrando a oposição fundamental entre eles, é revolucionária. E pode representar o futuro das relações entre capital e trabalho. 

UMA SOCIEDADE COM MENOS BILIONÁRIOS É UMA SOCIEDADE COM MAIS MILIONÁRIOS — E UMA SOCIEDADE MELHOR

Imagine o fundador, o empresário, o capitão de indústria deixando de ganhar no tanto que consegue achatar no ganho dos seus funcionários e passando a ganhar junto com os seus talentos, agora alçados à condição de co-empreendedores do seu negócio, naquilo que eles conseguirem gerar em termos de resultado para a empresa.

Enxergo, na revisão desses papeis clássicos e contraditórios entre patrões e empregados, a semente de um novo capitalismo. Mais horizontal, mais colaborativo, mais integrado, mais transparente, mais justo, mais dinâmico, mais próspero

Uma sociedade com menos bilionários é necessariamente uma sociedade com mais milionários. E uma sociedade com mais milionários é necessariamente melhor – inclusive para quem hoje está sentado em bilhões.

Você pode descer esse mesmo raciocínio um degrau: uma sociedade com menos milionários é necessariamente uma sociedade com mais gente com mais dinheiro no bolso. E uma sociedade com mais pessoas desfrutando de mais poder aquisitivo é necessariamente melhor – inclusive para quem hoje tem alguns milhões estocados.

Estamos tentando colocar isso em prática na The Factory e no Projeto Draft, no Draft Inc. e no Draft Canada. Me diga o que você acha. Ou pergunte-me como.

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