“Vivemos como se não houvesse amanhã. Mas o amanhã chegou. E o mundo ficou pequeno”

Andreas Ufer - 27 set 2019
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por Andreas Ufer

Enfim chegamos. Cá estamos em um momento singular. Em uma encruzilhada global onde não podemos voltar atrás e não temos a menor ideia de como seguir adiante.

No século XX, testamos todos os limites e rasgamos a boca do balão. Ocupamos o mundo. Desenvolvemos uma rede global de comunicação. Conquistamos os céus e o espaço. Estendemos cadeias de produção por todo o globo. Rompemos fronteiras. Produzimos e consumimos cada vez mais.

Extraímos petróleo e carvão das profundezas e geramos energia a um ritmo alucinante. Expandimos as fronteiras agrícolas e a produção de alimentos. Levamos a população humana de 1,5 bilhão para mais de 7 bilhões de pessoas em pouco mais de três gerações. Vivemos como se não houvesse amanhã. Mas o amanhã chegou. E o mundo ficou pequeno

Nos desenvolvemos consumindo uma poupança de recursos na forma de estoque de combustíveis fósseis e capital natural renovável. Dilaceramos florestas e abarrotamos os oceanos de resíduos. Extinguimos espécies como nunca antes e desestabilizamos o clima. Geramos riqueza para alguns, mas muitos ficaram para trás. E estamos encontrando os limite.

Sem água, sem biodiversidade, com um colapso climático e agrícola e deterioração social, erodimos as bases que nos sustentam. E o que sobra? O dinheiro? Dinheiro não se come

A Europa está ardendo todos os anos, as maiores cidades da Índia estão ficando secas, a Amazônia se aproxima do limite de não retorno. Oscilamos entre as grandes secas e dilúvios. Os estoques pesqueiros estão se exaurindo e o mundo está cada vez mais tensionado pelo excesso de pessoas e grandes movimentos migratórios causados pela pobreza de recursos. Estamos cada vez mais individualistas e sozinhos em meio a multidão.

Anestesiados, pessimistas, enfurecidos e doentes, nos perdemos nos falsos embates. Criamos inimigos imaginário e erguemos armas para opositores que não existem. Nos perdemos em soluções simplistas para problemas profundos e sistêmicos. Estamos furiosos e impotentes, porque os limites estão cada vez mais evidentes.

Estamos esperando o próximo governo que vai trazer a reforma das reformas e destravar o desenvolvimento. Como se o desenvolvimento como o entendemos e concebemos no passado recente não fosse justamente o problema

Os salvadores hora são esperados à esquerda, hora à direita e a solução nunca chega

Não nos damos conta que nos perdemos em um debate que só serve para justificar uma visão polarizada de espectros políticos, ultrapassada e descolada do mundo e dos desafios atuais. E eles são muitos e urgentes. Se paramos de criar os inimigos, extingue-se a necessidade das armas. Os limites são de visão de mundo e de percepção.

Os discursos se radicalizaram. Muitos tentam se agarrar ao que é familiar e neste momento de instabilidade, muitas vozes do passado voltam trazendo visões simplistas e extemporâneas. Mas o passado ruiu e não há retorno.

Para transcender a polarização sem sentido, o debate raso e o foco no confronto pelo confronto, precisamos desenvolver agendas construtivas e colaborativas que nos ajudem a enfrentar de fato os grandes desafios sistêmicos que temos pela frente.

Em um mundo superpovoado e uma época de esgotamento dos modelos de desenvolvimento econômico e social, uma crise global de governança e representatividade política e a aproximação rápida de um colapso ambiental e climático, somente uma visão positiva e propositiva com foco em novas formas de agirmos, nos organizarmos e fazermos negócios pode indicar caminhos alternativos viáveis. Novas formas que reconheçam e respeitem o passado, mas que apontem para o futuro.

Precisamos falar sobre o futuro! Precisamos de uma narrativa positiva de futuro. Um debate ao mesmo tempo unificador e plural. Que permita o contraditório, mas que converja para endereçar os desafios comuns

Como disse Martin Luther King Jr.: “O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética… O que me preocupa é o silêncio dos bons.” Então onde estão as respostas? Onde está a revolução que precisamos?

A revolução está em todo lugar. Nas escolas, nas empresas, nos governos e nas ruas. A revolução é de reflexão e diálogo, de debates profundos. De valores, de modelos mentais e de ações. A revolução somos nós. Precisamos ir às ruas, não para confrontar e agredir, mas para dialogar, exigir e para agir por um mundo melhor.

Não somos heróis. Não temos heróis. Nós somos todos e não somos ninguém. A democracia está em crise não porque ela se esgotou, mas porque ela precisa evoluir. O sistema econômico e as empresas estão tensionados, não porque não tem espaço, mas porque precisam inovar e se reinventar. Porque precisam ressignificar o seu papel e responsabilidade dentro de um sistema maior. A antiga divisão entre os setores não faz mais sentido:

Governo, organizações da sociedade civil e empresas são fios da mesma teia. Empresas não vivem à parte da sociedade e dos sistemas naturais. Elas são sistemas vivos integrados a esses sistemas maiores. E como tal possuem responsabilidade e potencial enorme em regenerar esses tecidos

Nada disso é possível se nos prendermos a modelos ultrapassados e fecharmos nossa escuta para o novo. Foi o que eu fiz, me abri para novas jornadas. Costumo dizer que na minha vida retrasada fui engenheiro. Me formei em Engenharia na escola politécnica da USP e na RWTH Aachen na Alemanha. Na minha vida passada fui administrador, já que trabalhei nove anos primeiramente com supply chain internacional e planejamento estratégico na holding do Grupo Votorantim, em seguida como sócio-diretor de uma empresa de médio porte que produzia máquinas para a indústria metalúrgica. Mas nesse meio tempo fiz MBA em gestão de negócios e fui estudar estratégias de impacto social na Universidade da Pensilvânia.

Hoje em dia não sei o que sou. Talvez um empreendedor ou inovador social. Considero que mudar de trajetória já estava pré-programado na minha vida

Na época de faculdade já lia e me informava muito sobre a crise climática e socioambiental que temos pela frente.Nos preparativos da Eco 92, os líderes globais já tinham conhecimento das dimensões que a catástrofe climática e ambiental assumiria.

Andreas durante trabalho de campo na aldeia Moygu na terra indígena do Xingu, em um projeto do Sense-Lab de estruturação de um plano de negócios para restauração florestal.

Em 30 anos pouca coisa mudou em sua essência e seguimos acelerando como lêmingues rumo ao precipício. Para ilustrar com um parâmetro, as emissões globais de gases do efeito estufa de lá para cá praticamente dobraram e a crise climática não é mais futuro, já começa a mostrar suas múltiplas faces hoje.

Durante toda a minha trajetória profissional tentei, com pouco sucesso, incluir as questões socioambientais no core das organizações em que trabalhava, trazendo ações de cadeias de valor sustentáveis, engajamento de partes interessadas, reduções de emissões para corporações e desenvolvendo novas linhas de produtos, na forma de geradores de energia com biomassa e equipamentos para reciclagem para a minha empresa. Percebi que o
buraco era mais embaixo e que as nossas organizações não estão programadas para lidar com o tamanho dos desafios.

Em 2014, fundei o Sense-Lab, uma organização em rede, hoje envolvendo aproximadamente 15 pessoas em diversos projetos de inovação social. Trabalhamos a estratégia e a inovação em empresas, organizações da sociedade civil e ecossistemas de atores, focando na solução dos enormes desafios coletivos que temos pela frente.

O Sense-Lab está a serviço de repensar as organizações e as lideranças, de articular redes e criar coalizões. De facilitar espaços de diálogo e construir narrativas conjuntas. De testar e evoluir a forma como nos organizamos. Está mais do que na hora de ousarmos, de inovarmos e de nos ressignificarmos. Nos perdemos e agora precisamos nos reencontrar.

 

Andreas Ufer é sócio-fundador do Sense-Lab.

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