Você não conhece metade dos jogadores da Seleção Brasileira que jogará a Copa do Qatar – e por que isso pode ser uma boa notícia

Adriano Silva - 28 jun 2022
(Foto: Pixabay).
Adriano Silva - 28 jun 2022
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A primeira Copa do Mundo que entrou em meu radar foi a de 1978. Os campos cheios de papel picado da Argentina apareciam embarrados na tela da TV em preto e branco. E você encontrava jogadores da Seleção Brasileira embaixo das tampinhas de Coca-Cola. Eu tinha Rivelino, Jorge Mendonça e Roberto Dinamite.

A grande Copa da minha vida foi a de 1982. Eu tinha 11 anos. Aquela Seleção montada por Telê mesmerizou o país. Desde o sofrimento na Copa América de 1979 até o esplendor daquele meio-campo com Zico, Sócrates, Falcão e Cerezo que encantou o mundo na Espanha.

Talvez nem na Era Pelé, entre 1958 e 1970, o Brasil tenha estado tão próximo da amarelinha.

Na ótima analogia de Luis Fernando Verissimo, Pelé, com Garrincha, Didi e Vavá, e, depois, com Gerson, Tostão e Jairzinho, compunha um panteão de deuses. Já a geração de 82 era feita de heróis. De mortais em jornadas épicas, flertando tanto com a glória quanto com a tragédia

Então, com essa humanidade, eles pareciam estar mais próximos de nós, pareciam depender mais da nossa torcida. Rimos e choramos com eles.

De lá para cá vivemos altos e baixos, com ápices de geração, como em 2006, e equipes com cara de fim de festa, como em 1986 e 2010. Com gerações mais talentosas, como a de 1998, e outras menos, como as de 1990 ou 2014.

Convivemos com Seleções que trabalharam duro e sério, como as de 1994 e 2002, e com outras que estavam mais preocupadas em ostentar “um apartamento no pulso”, ou em gozar noitadas cheias de excessos, do que em ganhar a Copa, como, de novo, a de 2006. 

***

Às vésperas da Copa de 2022, me dou conta de que estamos diante de um fenômeno novo: pela primeira vez teremos uma Seleção com jogadores que nunca jogaram (ou jogaram muito pouco) no Brasil.

Jogadores cuja competência apareceu nos gramados de outros países, e que não têm nenhuma identificação com as torcidas dos clubes brasileiros. E que, portanto, tendem a ter uma relação mais fria com o nosso torcedor que sempre torceu mais pelo seu time do que pela Seleção.

Desde 1982, na década que marcou o início das transferências de nossos craques para o futebol europeu (em especial, o italiano), num movimento iniciado por Falcão, até a Copa de 2010, tínhamos cada vez mais convocados jogando fora – mas todos eles tinham tido carreiras e conquistas realizadas em nossos estádios antes de virarem “estrangeiros”. Então, havia histórico e identificação com a torcida brasileira – ainda que residuais. 

A partir da Copa de 2014, começaram a aparecer na Seleção meninos que tinham saído muito novos do Brasil – Hulk tinha jogado apenas duas partidas no país. Maxwell, 27, numa única temporada. Luiz Gustavo, nenhuma. 

Então, alguns desses jogadores eram tão familiares à maioria dos torcedores brasileiros quanto um centroavante romeno. De lá para cá, esse fenômeno se agudizou

É cada vez menos importante ao técnico da Seleção Brasileira frequentar o Maracanã ou o Mineirão – mas é fundamental que ele assine os canais de esporte internacionais que transmitem os jogos da Liga dos Campeões ou da Liga Europa.

Na provável Seleção que vai disputar a Copa do Qatar, Gabriel Jesus vestiu a camisa do Palmeiras por 17 meses. Vinícius Jr. vestiu a do Flamengo por 14. E Militão, a do São Paulo por 15 meses. 

Richarlison jogou dois anos no Brasil. Gabriel Magalhães jogou um ano. Gabriel Martinelli, 16 meses. Roberto Firmino, 14. Mas… você lembra em que times? 

Já Raphinha foi vendido antes de estrear. Assim como Ederson, Fabinho e Matheus Cunha, que nunca pisaram profissionalmente num gramado no Brasil.

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Então isso muda um tanto a sensação de proximidade do torcedor brasileiro com a Seleção.

Era diferente quando Júnior representava milhões de torcedores rubro-negros – e treinava na Gávea todo dia. Ou quando Éder levava junto consigo a nação atleticana. E assim por diante

De um lado me pergunto se, num mundo globalizado, a identificação depende da proximidade física. Ou se, ao contrário, o distanciamento tem o poder de aumentar a admiração.

Afinal, hoje nossos novos heróis desfilam nos palcos mais incensados do planeta. Nós os vemos somente em eventos glamurosos, bem gravados e bem editados. 

Talvez um ingrediente importante para você se tornar uma celebridade seja justamente a distância.

Nossos jogadores vivem no terreno dos sonhos dos torcedores – não têm a materialidade que lhes tornaria mais humanos e menos estelares. Ou seja: a inacessibilidade pode hoje ser tão catalisadora quanto o orgulho que o torcedor da Ponte Preta sentia quando Juninho era convocado

De outro lado, diante de um possível beiço às carreiras internacionais de nossos craques, penso no direito de todo profissional de buscar o melhor para si. O melhor ambiente de trabalho, a melhor compensação, as melhores oportunidades de crescimento e reconhecimento. Como cobrar desses meninos que fiquem no país? Por quê? Em nome do quê? 

Com tantos brasileiros vivendo e trabalhando no exterior, com as tecnologias reduzindo as distâncias e permitindo o nomadismo digital a tantos profissionais, com as fronteiras nacionais significando cada vez menos com a globalização dos mercados e dos fluxos de cultura e comércio, por que esses garotos não poderiam, eles também, atuar de modo expatriado, como ídolos conhecidos e adorados globalmente?

Resta a mim, talvez, pesquisar na internet toda vez que uma convocação da Seleção trouxer o nome de alguém de quem nunca ouvi falar.

(E, claro, um outro possível benefício dessa internacionalização dos nossos talentos é ganharmos a Copa.)

 

Adriano Silva, 51, é jornalista, fundador da The Factory e publisher do Projeto Draft, do Future Health e de Net Zero. É autor de dez livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TVA República dos Editores e Por Conta Própria: do desemprego ao empreendedorismo – os bastidores da jornada que me salvou de morrer profissionalmente aos 40.

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