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A COP deste ano parece ter deixado um sabor ambíguo. De um lado, avanços importantes em várias agendas que ganharam protagonismo inédito, mas a ausência de um acordo firme sobre combustíveis fósseis e o silêncio quase incômodo sobre florestas, justamente em Belém, criaram lacunas difíceis de ignorar.
De outro, para mim, que fui pela primeira vez, a experiência ganhou um significado muito mais profundo do que qualquer texto final.
Fui como principiante: para aprender, escutar, explorar caminhos, fazer perguntas e tentar aproximar uma agenda que, surpreendentemente, ainda permanece à margem das conversas estruturais do setor empresarial do qual faço parte
Nessa jornada, carreguei também o olhar da Amélie, uma empresa que integra o Sistema B, e que nasceu para integrar estratégia, impacto e cultura.
Nossa metodologia foi criada para ajudar organizações a se tornarem empresas positivas, onde performance e propósito não competem, mas se reforçam mutuamente.
E, talvez por isso mesmo, caminhar pela COP foi como olhar, com mais nitidez, para a distância que ainda existe entre o discurso corporativo e o papel transformador que o setor privado poderia exercer.
Voltei da COP com várias reflexões importantes, mas uma delas me atravessou de forma incontornável: o setor privado precisa mudar sua atitude diante da crise climática.
Os cientistas com quem conversei estavam indignados. Indignados com “as grandes promessas” e a ausência total de vulnerabilidade
Indignados com a falta de transparência, o excesso de greenwashing, as apresentações impecáveis que não mencionam falhas, nem os erros, nem as dificuldades reais de implementação.
Indignados com a desconexão entre o que as empresas dizem e o que o planeta precisa que elas façam.
E isso vindo das empresas que já estavam lá — as que, em tese, são as mais engajadas. E as milhares que nem sequer apareceram?
A COP escancarou que não há mais espaço para o setor privado participar da agenda climática como convidado — é hora de participar como protagonista
Mas um protagonismo de um tipo novo. Não performático. Não cosmético. Não calculado. Um protagonismo humano, maduro e responsável.
Num dos eventos sobre sociobioeconomia, ouvi a líder indígena Vanda Witoto explicar que seus desafios não têm nada a ver com blended finance, métricas de carbono ou modelos de escalabilidade. O que estava em jogo eram mundos que se entendem de maneiras completamente diferentes.
Enquanto nós insistimos em metas, KPIs, governança, monetização e cadências trimestrais, ela falou de modos de vida, relações, ritmos, ancestralidades e pertencimentos. Falou de uma economia que não cabe em planilhas — simplesmente porque ela não foi feita para caber
Quando perguntei o que ela esperava do setor privado, a resposta veio com um certo tom de raiva contida:
— “Que vocês nos integrem nas suas conversas. Vocês sozinhos não vão chegar em lugar nenhum.”
Não era sobre finanças. Não era sobre eficiência. Era sobre consideração. Aquele momento me tocou profundamente.
Saí dali entendendo que o papel das empresas na transição não é apenas técnico, é relacional. É cultural. É sobre criar pontes entre mundos que nunca conversaram de verdade
E esse é, talvez, um dos trabalhos mais difíceis e mais bonitos — do nosso tempo.
Se existe um ator capaz de transformar realidades em escala, esse ator são as empresas. E não por idealização, mas por pragmatismo.
Empresas sabem:
Quando decidem assumir um papel estrutural, as empresas criam mercados, impulsionam legislações, fortalecem territórios, aceleram transições, elevam padrões de impacto e transformam setores inteiros.
Mas, para isso, precisam mudar a lógica interna. Não é “como encaixamos sustentabilidade na estratégia”. É “como transformamos a estratégia para integrar sustentabilidade”. Não é “como mitigamos danos”. É “como geramos valor regenerativo”. Não é “como respondemos às pressões”. É “como lideramos soluções”.
No fundo, todos os executivos sabemos que essa mudança faz sentido. Sabemos que mais cedo ou mais tarde será preciso mexer no que precisa ser mexido. Sabemos que legado não é bônus, é significado. Sabemos que existe, silenciosamente dentro de cada um, um lado que deseja fazer parte das soluções, não dos problemas.
Esse lado — o lado B — é feito de propósito, integridade, futuro e coragem. Exercitar esse o nosso lado B como executivos pode ser o caminho, de fato.
O Sistema B global divulgou um estudo durante a COP que mostra que se as empresas implementassem as práticas do Sistema B, o aquecimento global seria reduzido em 0,5 graus. Tem solução, e sabemos qual é…
É o lado que quer orgulhar as próximas gerações. É o lado que entende que responsabilidade não é peso, é privilégio.
Ainda estamos a tempo de deixar um planeta melhor para os nossos filhos. E essa é, talvez, a síntese mais sincera que trouxe da COP: é tarde demais para ser pessimista
E, justamente por isso, é cedo demais para não agir.
Olga Martinez é fundadora da consultoria Amélie, focada no desenvolvimento de culturas e estratégias de propósito, humanizando e reinventando as organizações e os seus times. Também é mentora e conselheira no Quintessa, aceleradora de impacto, e membro do YPO.
Graziella Soares explica como e por que fundou a RES Green Innovation, que faz moda consciente e luta contra a reincidência criminal mobilizando detentas da Penitenciária Feminina do Paraná para trabalhar no setor de costura.
Ecochatas, não: influencers da sustentabilidade. As irmãs Mariana, Maria Carolina e Maria Clara Moraes tocam o projeto Verdes Marias, que incentiva a consciência ambiental e pequenas mudanças de hábitos em prol de um mundo melhor.
