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“Eu digo que é um nano-seguro episódico embarcado no tecido da vida cotidiana.” É assim, com um vocabulário que oscila entre o tom científico e o poético, que Rodrigo Ventura descreve o leque de soluções oferecidas pela sua empresa, a 88i.
“É ‘nano’ porque é um seguro de curtíssimo período de vigência”, explica o fundador. “E é ‘episódico’, porque está relacionado a um episódio de mobilidade ou de uma entrega de mercadoria: uma viagem do ponto A para o ponto B.”
Fundada em 2018, a 88i pivotou alguns anos depois e hoje atua como uma seguradora digital com foco na gig economy, desenvolvendo seguros customizáveis e embarcados em aplicativos — de mobilidade a e-commerce, de delivery a logística.
A empresa opera no B2B e no B2B2C. Desde 2023, por exemplo, uma parceria com a Uber permite à 88i oferecer a motoristas e passageiros seguros contra acidentes ou perda de renda com valores a partir de um centavo por quilômetro rodado. E os usuários podem escolher quando ativar ou desativar a proteção.
“Se eu falar que vai custar 30 reais por mês, [o cliente reage], “Ah, é caro, eu não sei se eu vou ter dinheiro….”. Tem um bloqueio mental. Mas quando eu mando um push e falo: Proteja sua renda por menos de dois centavos, no mínimo você clica para ver… E se você não rodar nada, você não tem dívida nenhuma. Se rodar pouco, vai pagar muito pouco”
O reembolso de renda dos motoristas (em caso de roubo ou colisão do veículo) vale por até 15 dias e é calculado com base na média mensal de ganhos. Outro produto da startup é o seguro para entrega de mercadorias, que pode ser oferecido, por exemplo, a usuários que querem enviar um iPhone novo ou outro produto caro a outro canto da cidade acionando o transporte por aplicativo:
“É um seguro quase que invisível, mas que na hora certa a oferta aparece. Por exemplo, quando você clica pra chamar o motoboy, ou um carro de passeio, ou um caminhãozinho, o aplicativo [da Uber] fala: Quer adicionar tranquilidade? ‘Adicionar a tranquilidade’ é adicionar o seguro de acordo com o valor declarado da mercadoria.”
Essa facilidade de contratação é um dos atrativos da 88i. “Na hora em que você entra, [são] literalmente três cliques para comprar. Então, a gente removeu aí a fricção da jornada de aquisição, virou uma jornada de adesão.” Ao todo, desde 2021, a empresa afirma que já emitiu 30 milhões de apólices.
O paulistano Rodrigo cresceu em um ambiente técnico. Engenheiro de formação, o pai ganhava a vida como fabricante de nobreaks e estabilizadores de tensão com foco em ambientes críticos:
“Torre de comando de aeroporto, sala de segurança de presídios, centro de cirurgia de UTIs… Tudo que era lugar que não podia faltar energia, era ali que estava o negócio da família”, diz.
A expectativa era que o filho seguisse o mesmo caminho. “Meu pai queria que eu fosse engenheiro de qualquer jeito.” A vida, porém, tinha outros planos.
“Era aquele momento do Plano Collor e dos cara-pintadas, eu era um daqueles adolescentes que saíram pras ruas. Queria entender o que estava acontecendo no país, por isso fui estudar economia, fui fazer ciências sociais”
Enquanto cursava economia na PUC-SP, ele começou a estagiar na Redecard (hoje Rede), trabalhando com cartão de crédito. Ainda era a época das maquininhas de papel carbono, que estavam evoluindo para o POS digital.
Lá, ele atuava na área de políticas, procedimentos, administração de risco e fraude. “Eu não sabia, mas já estava sendo formado para o que estou fazendo hoje, como segurador.”
Na sequência, Rodrigo virou trainee do Itaú, após uma seleção concorridíssima. “Eram 16 vagas para mais de 3 mil candidatos. Fui um dos 16.”
Tratava-se de um programa de formação de gerentes. O ritmo acelerado ajudou a turbinar seu aprendizado, e por tabela a sua carreira. “Para te dar uma noção, fiz depois um MBA em finanças no Insper com 320 horas em dois anos. Esse curso do Itaú, eram 680 horas em seis meses. Foi muito, muito intenso”
Como gerente, ele trouxe a conta da Ambev (que antes era atendida pelo ABN-AMRO) para o Itaú e conseguiu encorpar os negócios do banco, mas sentia que o reconhecimento estava aquém.
“Pensei: ‘Eu sei que posso mais, vou para outro desafio’. E pedi para sair”
O desafio seguinte foi no HSBC Seguros, Vida e Previdência. “Passei a operar as agências do HSBC, desde Pacaembu, onde o Jô Soares era meu cliente na pessoa física, até a agência Piraporinha, em Diadema, com tíquetes de 50 reais e as pessoas dizendo, “pôxa, eu nunca recebi uma consultoria como essa”.
A experiência ajudou a abrir os olhos para a discrepância no acesso a serviços financeiros. Mas logo Rodrigo partiria para o próximo desafio.
Ele queria ser expatriado, fazer carreira internacional. Tinha começado a estudar mandarim ainda na faculdade.
“Era a época que a China já estava crescendo dois dígitos por ano há 30 anos, e eu estava convencido que era o caminho”
Acabou indicado para uma empresa de ERP para seguros, a Sistran Informática, que queria montar uma unidade na China. Era ali por volta de 2006, 2007.
Na Sistran, Rodrigo mergulhou na área de TI e operações, na “espinha dorsal do business”, como ele diz. “De novo, eu estava sendo preparado pelo que eu estou fazendo [hoje na 88i]. Eu orbitava de Pequim, Xangai, Shenzhen, Hong Kong e Macau.” A China vivia então a abertura ao capital estrangeiro e a explosão do digital.
“A primeira seguradora digital do mundo estava nascendo nesse momento, a ZhongAn, investida pela Ping An, pela Tencent, dona do WeChat, e pelo Alibaba, dono do Alipay. E o primeiro produto que eles fizeram foi o seguro de entrega de mercadorias do e-commerce”
Não por acaso, esse seria mais tarde um dos grandes produtos da 88i.
Rodrigo voltou ao Brasil como head de inovação. Ali por volta de 2014, com big data e geolocalização, ele vinha pensando formas de customizar e baratear seguros de automóvel baseados em variáveis de comportamento.
“Comecei a trabalhar bastante com internet das coisas e telemetria. Fui participar de projetos de seguro de automóvel da AXA França, da Mobilis do Canadá, fui implantar na Cardif Colômbia…”
Em 2015, aos 39 anos, bateu forte a crise dos 40.
“Questionei casamento, questionei saúde, dei uam de Forrest Gump e saí correndo tudo que tinha”Circuito das Estações, Nightrun, São Silvestre… Run, Forrest, run!”
Questionou também o trabalho: ele era diretor estatutário da Sistran, onde estava há uma década. Sabia que não queria “morrer ali”. Chutou o balde e migrou para telecom após convencer um amigo a considerá-lo para uma vaga de gerente na Sky. “Ele dizia: ‘Você vai trabalhar mais que o dobro!’. E eu: eu quero.”
Ganhando menos e trabalhando mais, Rodrigo ralou para dar conta das demandas em uma área totalmente nova para ele. Dali a um ano, já estava tocando projetos internacionais em mais de uma dezena de países.
“O que aconteceu foi que a KPMG, vendo a transformação que a gente fez, abduziu o time inteiro. Virei sócio da KPMG e comecei a me envolver com blockchain.”
O proverbial “bichinho da inovação” picou Rodrigo nessa nova fase. No fim de 2017, ele se inscreveu no hackathon Startup Weekend Blockchain Techstars, levando a proposta de uma seguradora com blockchain.
A ideia era criar contratos inteligentes, à prova de fraudes, em que o processo de regulação de sinistro não dependesse da inserção manual de informações — em vez disso, o próprio aplicativo forneceria os dados coletados pelo celular (como geolocalização, força G e força de impacto).
“Eu estava falando da vertical da confiança, que é a indústria de seguros, com o protocolo horizontal de confiança, que é o blockchain”, diz. “E no meio tem esse sweet spot, que eu entendi que era oportunidade de negócio, para fazer uma seguradora global.”
Rodrigo ganhou o hackathon. E percebeu que daria mais um passo sem volta — talvez o maior deles — em sua carreira.
“Na hora que eu ganhei o hackathon, falei: fudeu. Cheguei em casa, falei para a minha mulher: Ó, vou fazer merda de novo… Vou apostar a carreira — agora eu era sócio da KPMG — e pôr a segurança financeira da família junto. E aí, tamos junto?”
A esposa deu força: “Prefiro ver você feliz do que com uma algema de ouro”. Assim, Rodrigo deixou a KPMG e apostou todas as fichas no empreendedorismo. Ou, para ficar numa metáfora mais, digamos, vertical:
“Pulei do avião sem paraquedas, [só com] ‘uma caixinha de fósforo, um clips e um silver tape’. Vai, MacGyver, monta o paraquedas enquanto você cai…”
Rodrigo começou o negócio como solo founder, pagando desenvolvedores do bolso. Fundada em 2018, a 88i surgiu com um nome mais extenso (88insurtech) e, por outro lado, com um escopo mais restrito. Na prática, atuava apenas como uma corretora digital, intermediando negócios entre seguradoras e aplicativos.
A metamorfose de “corretora” para seguradora se deu a partir de 2019, com a entrada da startup no sandbox regulatório.
“Quando veio a possibilidade do sandbox, passamos a controlar a vertical da indústria toda, tivemos a capacidade de desenhar produtos como a gente entende que é necessário para atender esse cliente digital — e também de fazer as indenizações, o pagamento dos clientes do seguro de acordo com o nosso balanço”
Houve também um episódio insólito que estimulou essa conversão (e a palavra parece apropriada). Rodrigo conta que um dia, em 2020, um executivo de uma multinacional apareceu à sua procura, sem hora marcada. O homem estava prestes a embarcar para o exterior, mas disse que antes tinha um recado importante: “Deus mandou. eu te dizer: você tem que abrir uma seguradora”.
Detalhe: o nome do meio de Rodrigo é Messias, como consta na caneca da foto aí em cima. “Uma loucura, não tem explicação”, diz o empreendedor, que a partir daí afirma ter se tornado um homem de fé. “Eu só cruzei o Vale da Morte [das Startups] porque Ele estava comigo, abrindo o caminho à frente.”
Nessas jornadas sempre surgem provações. Além da pandemia (em março de 2020, a 88i foi gentilmente expulsa do Inovabra, onde estava incubada), Rodrigo precisou encarar a pessoa que ele mesmo tinha posto na cadeira de piloto da empresa, naquela fase de transição de insurtech para seguradora.
“Trouxe um investidor-anjo, que foi CEO de uma seguradora global, para ser o CEO da minha seguradora. Só que ele veio com mindset de ‘dinheiro infinito’, e numa startup não é assim…”
Em março de 2021, a 88i recebeu uma licença de seguradora (mas seguia operando o sandbox). Porém, diz Rodrigo, a gastança impulsionada pelo CEO custou caro. A empresa havia captado 2,3 milhões de dólares, mas acabou torrando o dobro disso, algo como uns 20 milhões de reais.
Pra piorar, em 2022 o ecossistema enfrentava uma retração nos investimentos que ficou conhecida como “Inverno das Startups”. Assim, naquele mesmo ano, Rodrigo desligou o CEO e reassumiu a cadeira. Ele descreve o desenrolar desse embate como se fosse um filme de ação:
“Sabe aquela cena do segundo Top Gun, em que o Maverick e o filho do amigo dele descem [cada um pilotando seu jato] na vertical, pra ver quem vai arregar primeiro? Era eu com o meu CEO… E no fim da história ele arregou, porque sabia que tinha quebrado a empresa. Mas eu estava guiada por propósito: se for pra explodir, vou explodir de forma apoteótica”
A startup precisou apertar os cintos, cortar salários, chegou a reduzir “80% das despesas administrativas”. Segundo o empreendedor, “ninguém largou o osso”. E assim a 88i foi se recuperando do tombo e incrementando a performance.
A parceria com a Uber, desde 2023, ajudou a empresa a dar uma guinada: hoje, segundo a 88i, são 80 mil assinantes recorrentes mensais. Rodrigo fala sobre o impacto de oferecer seguros acessíveis direcionados aos motoristas por aplicativo:
“Essas pessoas que estão ‘vendendo almoço para comprar janta’ trabalham de domingo a domingo e não têm proteção da CLT. Somos a única seguradora oferecendo algum tipo de proteção financeira a eles.”
Hoje, a equipe da 88i tem 20 pessoas, que se dividem entre o escritório no WeWork em São Paulo e seus próprios home offices pelo país. Para além da Uber, tem entre clientes os Correios e prestadoras de serviço para Mercado Livre e Magalu. Ao recordar o passado recente, Rodrigo festeja a volta por cima:
“Quase quebramos sei lá quantas vezes, mas sempre arrumamos um jeito de pivotar, de reduzir custos e voar com as próprias pernas. Então, em agosto de 23 a gente chegou no break-even e vem crescendo três dígitos desde então. Crescemos 450% em 2023, 440% em 2024, 193% em 2025”
No fim do ano passado, a startup recebeu da Susep a licença definitiva de seguradora e deixou o sandbox. Agora, se prepara para abrir uma nova captação. E se a operação hoje se restringe ao Brasil, Rodrigo enxerga (bem) mais longe:
”Eu acredito que tenho uma missão de vida, proteger um bilhão de pessoas. Estou construindo uma seguradora para ser global. Essa é a minha meta: um bilhão de segurados.”
Marco Perlman cresceu ouvindo uma regra em casa: nunca jogar comida fora. Hoje, ele e os sócios aplicam essa lição por meio da Aravita, que apoia supermercados com modelos preditivos para a gestão de estoque de frutas, legumes e verduras.
Estoques encalhados são um problema que afeta fabricantes e varejistas de diferentes setores. Saiba como a BackChannel atua para solucionar essa questão — que gera impacto financeiro, logístico e ambiental.
A informalidade é uma barreira que dificulta o acesso a crédito para quem trabalha como motoboy. Com esse público em foco, a startup Trampay antecipa o valor das corridas feitas pelos entregadores e oferece empréstimos a juros baixos.
