• LOGO_DRAFTERS_NEGATIVO
  • VBT_LOGO_NEGATIVO
  • Logo

“Já fui indocumentada e hoje ajudo imigrantes e mulheres vítimas de violência doméstica a reconstruir a vida nos Estados Unidos”

Larissa Salvador - 6 mar 2026
Larissa Salvador, advogada e fundadora da Salvador Law.
Larissa Salvador - 6 mar 2026
COMPARTILHAR

Eu nasci em Madureira, no Rio de Janeiro, mas foi no Complexo do Alemão que vivi os últimos anos da minha infância no Brasil.

Apesar de existir algo profundamente acolhedor naquela convivência, minhas memórias também têm outro lado. Lembro dos tiroteios vistos pela janela. Das vezes em que não pude brincar na rua por causa da violência.

Cresci aprendendo cedo que o mundo nem sempre é gentil. Cresci entendendo, ainda sem palavras, que segurança era um privilégio frágil.

POUCO TEMPO DEPOIS DE CHEGARMOS AOS EUA, VIVENCIAMOS O 11 DE SETEMBRO E OUTROS CHOQUES

Quando eu tinha 11 anos, minha mãe me disse que iríamos nos mudar para os Estados Unidos. A ideia era que meu pai solicitasse asilo político.

Ele havia sido testemunha de um crime e vinha sendo perseguido e ameaçado no Brasil. Eu não sabia o que era um visto, nem compreendia exatamente o que significava mudar de país. Sabia apenas que iria reencontrar meu pai, que já morava lá havia quase dois anos.

Chegamos à Califórnia e fomos morar em Los Angeles, no bairro de Westwood, próximo à University of California, Los Angeles (UCLA), três meses antes do ataque às Torres Gêmeas.

Estava na escola quando me contaram o que havia acontecido. Vinda do Rio de Janeiro, eu conhecia a violência, mas não conseguia compreender como algo daquela magnitude era possível. Foi o primeiro de muitos choques

Vieram os choques culturais, os emocionais e até os naturais. O primeiro terremoto me pegou completamente despreparada. A terra tremia, e eu, encolhida em um canto, tentava processar uma realidade que ainda não parecia minha.

PENSAMOS EM VOLTAR AO BRASIL, MAS NOSSA PASSAGEM PELA FLÓRIDA NOS FEZ MUDAR DE IDEIA

Depois de seis meses, decidimos voltar ao Brasil pois a minha mãe enfrentava uma depressão profunda.

Antes da viagem de retorno, porém, passamos pela Flórida, na cidade de Deerfield Beach, para visitar uma amiga. Foi ali que algo mudou.

Diferente da Califórnia, havia brasileiros por toda parte. Sotaques familiares. Uma sensação inesperada de proximidade. Meus pais decidiram ficar.

Passamos um período na casa dessa amiga, que nos acolheu com generosidade — um gesto que redesenhou completamente o rumo da nossa história

Recomecei ali a escola, ainda sem residência permanente. Havia uma espécie de conflito na legislação: enquanto as regras de visto de turista não permitem estudo formal, outras normas garantem que crianças não podem ficar fora da escola.

Era uma situação confusa, até mesmo para as próprias instituições, então retomei os estudos dessa forma. Meus pais conseguiram emprego. Tirei as melhores notas. Virei atleta.

QUANDO CHEGOU O MOMENTO DE ENTRAR NA FACULDADE, A FALTA DE DOCUMENTAÇÃO PESOU CONTRA

No ensino médio, tornei-me capitã de batalhão em um programa da Marinha Naval. Eu fiz tudo certo. Cumpri cada expectativa.

Até que, no último ano, enquanto meus colegas aplicavam para bolsas e universidades, caiu a ficha: eu não era como eles.

Estava indocumentada e, portanto, não podia disputar bolsas, nem escolher livremente meu futuro. Foi ali que entendi, pela primeira vez, como a ausência de status migratório pode ser limitadora

Meu pai chegou a contratar um advogado para regularizar nossa situação. Havíamos entrado no país com visto de turista.

Pagamos pelo serviço, confiamos no processo, mas o pedido jamais foi iniciado. Anos depois, descobrimos que o advogado havia sido preso pelo FBI. Enquanto isso, seguimos vivendo por mais de dez anos em situação irregular.

UM PROGRAMA DO GOVERNO BARACK OBAMA PERMITIU QUE EU SEGUISSE EM FRENTE

Em 2012, surgiu o DACA, instituído por uma ordem executiva do então presidente Barack Obama. O programa beneficiava jovens que haviam entrado nos Estados Unidos ainda na infância, antes dos 16 anos, e que, em 2012, estivessem estudando no colégio ou já na faculdade.

Uma vez aprovada a petição, era concedida autorização de trabalho, um verdadeiro respiro. Pela primeira vez, surgia a sensação de poder viver uma vida próxima do “normal”.

Minha conselheira do ensino médio encontrou uma faculdade particular em Nova York que me concedeu uma bolsa-atleta, mesmo sem eu ter o Social Security Number, documento oficial dos Estados Unidos essencial para cidadãos e residentes legais

Consegui ingressar na instituição graças ao meu histórico acadêmico e aos meus títulos, já que na escola, eu praticava corrida de longa e curta distância e também participava de um programa militar, que incluía diversas competições.

PASSEI SEIS ANOS EM UM CASAMENTO MARCADO PELA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Nessa época, eu já estava em um relacionamento com meu namorado, que conhecia desde os 17 anos. Antes de eu entrar na faculdade, ele me pediu em casamento.

Por ele ser cidadão americano, consegui minha documentação definitiva ao oficializarmos o casamento, o que transformou completamente o rumo da minha trajetória.

Foram quase seis anos de uma relação marcada pela violência doméstica e, no último semestre da faculdade, consegui sair desse casamento 

Entre crises de pânico e dificuldades financeiras, perdi uma data importante do Bar Exam, equivalente ao exame da OAB nos Estados Unidos.

Quando finalmente passei na prova, fui demitida e me vi morando na casa de amigos. Eu tinha apenas 3 mil dólares — depois de meu ex-marido ter roubado 20 mil dólares da minha conta.

Foi então que meu pai me fez uma pergunta direta: “Você sabe advogar?”. Eu respondi que sim. E ele disse algo que mudaria tudo: talvez eu estivesse gastando energia construindo o sonho dos outros, quando podia começar a construir o meu.

COMECEI A ADVOGAR PARA AJUDAR MULHERES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA QUE BUSCAM PROTEÇÃO NOS EUA

Desde que descobri minha condição migratória, ainda adolescente, decidi que seria advogada de imigração. Minha própria história me empurrou para isso.

Eu queria fazer diferente. Queria ser a profissional que não tive quando precisei. Comecei meu escritório em um quarto, em julho de 2019, com o que me restou de dinheiro. Logo depois, veio a pandemia. Em meio às incertezas, fui construindo o negócio um dia de cada vez

Hoje, atendo mulheres vítimas de violência doméstica que buscam proteção nos Estados Unidos, além de lidar diariamente com histórias que carregam muito mais do que processos e documentos. 

Como se já não bastassem todas as barreiras burocráticas, desde que moro nos Estados Unidos nunca vi tanta hostilidade contra imigrantes como agora. É um cenário bem diferente do que consideramos normal.

Estamos falando de pessoas que vivem aqui há mais de 20 anos e que não estão em situação irregular por escolha própria. A lei não passa por uma reforma há muito tempo, e essas pessoas não têm possibilidade de se legalizar

A grande maioria delas paga imposto de renda aqui nos Estados Unidos, declara corretamente e participa ativamente da sociedade. Muitas têm empresas e chegam a gerar empregos, inclusive para os americanos.

É muito triste ver o que está acontecendo. Ao mesmo tempo, precisamos aguardar os próximos capítulos. O clima está bastante tenso, até mesmo para nós, advogados de imigração.

DEPOIS DE TUDO O QUE VIVI, MINHA CERTEZA É UMA SÓ: SEMPRE EXISTE A POSSIBILIDADE DE RECOMEÇAR

Hoje, minha empresa fatura mais de 1 milhão de dólares por ano. O que começou em um quarto se estruturou, ganhou equipe e ultrapassou fronteiras: expandimos para o Rio de Janeiro e agora estamos em processo de expansão para Salvador.

Eu priorizo a contratação de mulheres, especialmente mães. Sei o que significa querer crescer profissionalmente sem abrir mão da própria dignidade e autonomia

Tenho dois filhos que vão comigo ao escritório todos os dias e estou esperando o terceiro, frutos do meu casamento com o meu parceiro, Caio Domiense, que nasceu em Salvador.

Poder acompanhar de perto o crescimento deles, sem precisar escolher entre carreira e presença, é uma das conquistas mais importantes da minha trajetória.

Quando olho para trás, para os momentos em que achei que não suportaria mais, o que encontro não é apenas dor. É a certeza de que existe um caminho

Sempre existe a possibilidade de começar outra vez. Se minha história tem algum sentido maior, talvez seja este: lembrar que recomeçar é coragem. E, muitas vezes, sobrevivência.

 

Larissa Salvador nasceu no Rio de Janeiro, mas passou mais de dez anos em situação ilegal nos EUA, experiência que despertou sua vocação para o Direito Imigratório. Atualmente, reside em Boca Raton, na Flórida, é licenciada pela Ordem dos Advogados (BAR) da Flórida e de Washington DC e fundadora da Salvador Law.

 

COMPARTILHAR

Confira Também: