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Ver-se como empreendedor ou empreendedora é um processo. E o despertar dessa identidade demora a chegar sobretudo para mulheres que acreditam estar apenas “se virando” para gerar renda – enquanto, quase sem saber, já gerenciam um negócio próprio.
“A frase que a gente mais escuta e que funciona como um indicador do nosso impacto é: ‘eu era empreendedor(a) e não sabia’”, diz Lina Maria Useche, 41, cofundadora e diretora executiva da Aliança Empreendedora.
Foi para impulsionar esse público que Lina e um grupo de amigos criaram a ONG, em Curitiba, em 2005 (ela contou um pouco sobre esse início e suas motivações pessoais neste artigo de 2024). O trabalho da organização consiste em ações para fomentar a geração de renda e a inclusão produtiva, bem como influenciar políticas públicas a favor de microempreendedores da base da pirâmide.
Em 21 anos, a Aliança Empreendedora apoiou mais de 300 mil pessoas. E sua meta, até 2030, é ousada: chegar a um milhão de microempreendedores alcançados pelas ações da organização.
Capacitar microempreendedores em questões como precificação e marketing não é o diferencial da Aliança. Afinal, existem diversas instituições com esse propósito. A missão da ONG é, em primeiro lugar, ajudá-los a se valorizar para, então, focar no desenvolvimento de conhecimentos e habilidades técnicas.
Para exemplificar essa jornada, Lina compartilha o caso de Fran, uma microempreendedora atendida pela ONG. Ela vivenciou a violência doméstica, esteve em situação de rua e quase perdeu a guarda dos filhos, mas acabou sendo acolhida pela assistência social. E esse acolhimento serviu de base para ela conseguir se reerguer.
“Uma vez restituída sua dignidade, ela começou a participar de pequenos grupos de apoio e de um curso de artesanato. Então, viu que era capaz de fazer algo, que o que fazia era bonito e poderia até ser vendido”, afirma Lina.
Na prática, mais do que uma capacitação ou crédito para começar seu negócio, Fran precisava antes entender que havia valor no que ela produzia.
“Um projeto que oferece apenas aulas sobre precificação muitas vezes falha porque a pessoa ainda não estava pronta para aquele conteúdo. Para formar o preço do seu serviço ou produto, é preciso precificar sua hora e isso depende do valor que você se dá”
A cofundadora da Aliança Empreendedora acrescenta um recorte: “Estamos lidando com um público – principalmente mulheres e mulheres negras – que sistematicamente foi levado a acreditar que elas ou o que faziam não tinha valor. Elas precisam, primeiro, superar todo esse contexto para depois pensar em custo variável e fixo.”
A metodologia da Aliança Empreendedora é outro diferencial da organização, que foca em pilares filosóficos bem estabelecidos.
“O primeiro é o humanismo, com a premissa de que as pessoas são capazes de mudar sua própria realidade. Outra base importante é a andragogia – o ensino de adultos. Partimos do princípio de que ninguém é um copinho vazio, mas tem muitas experiências e saberes que precisam ser respeitados”
Por fim, há ainda o pilar do effectuation, tese de doutorado da professora indiana Saras D. Sarasvathy, que defende que o empreendedorismo pode ser aprendido por qualquer pessoa e que elas podem usar recursos já existentes, como sua criatividade, para fazer acontecer.
Em suas capacitações e metodologias, a Aliança aplica um olhar intencional para as barreiras estruturantes em questão de gênero e raça, já que mulheres e pessoas negras e indígenas enfrentam mais desafios para entrar no mercado de trabalho e também no empreendedorismo.
Por conta desse enfoque, Lina foi convidada a participar, em fevereiro deste ano, do lançamento do relatório Women, Business and the Law 2026, em Washington, D.C., num evento do Banco Mundial. O objetivo foi levar a realidade prática das microempreendedoras brasileiras para o debate global sobre igualdade de gênero e negócios. Na visão de Lina, o convite à Aliança mostrou a validação do trabalho que a organização vem fazendo neste sentido.
Entre as ações de apoio a microempreendedores está a Tamo Junto, plataforma com conteúdo, conhecimento e oportunidade de crescimento através de cursos online e ferramentas de gestão. Após essa trilha completa, os participantes podem acessar o programa Guru de Negócios, no qual têm acesso a uma mentoria gratuita de até seis meses, com o apoio de mentores voluntários (hoje são mais de 700).
Segundo pesquisas da própria Aliança, após as formações há um aumento de 94% em relação à autopercepção dos participantes como microempreendedores. Outro dado valioso é o fato de, com os aprendizados, eles conseguirem aumentar o faturamento em até 63%.
A Aliança mantém seu trabalho de apoio a microempreendedores de forma sustentável principalmente através do financiamento de empresas que buscam cumprir suas metas de investimento social privado.
Lina cita como exemplo de parceiro o Instituto Assaí, organização com a qual a Aliança começou um relacionamento antes mesmo do instituto existir, tratando na época diretamente com a rede atacadista.
“Eles se deram conta que tinham uma base grande de clientes microempreendedores que se abasteciam nas suas lojas, mas não apareciam como CNPJs, por isso não tinham informações sobre esse público.”
Para essa empresa parceira, a Aliança auxiliou a criar e gerenciar um programa de capacitação e conexões de microempreendedores da área da alimentação. Outra ação desse tipo foi feita com o Instituto Heineken para oferecer a vendedores ambulantes de bebidas autonomia, educação financeira e reconhecimento da importância de seu papel na economia local.
“Nossa missão nessas parcerias vai desde a cocriação do projeto e execução até a avaliação de impacto, para garantir que a essência não se perca”
A ONG também tem apoiadores institucionais que, em vez de criar projetos próprios, investem nas ações estruturantes de longo prazo da organização. Mais de 80 empresas, institutos e fundações já fizeram parcerias com a Aliança.
Além das formações, a Aliança Empreendedora tem um trabalho intenso de estruturação do setor. Entre os projetos práticos nessa frente está o Empreender 360º, programa que firma parcerias com empresas, institutos e fundações, visando impulsionar o ecossistema empreendedor, através de ações de advocacy e influência em políticas públicas.
Em relação ao advocacy, Lina conta que uma das missões da Aliança é influenciar a assistência social, melhorando instrumentos normativos desatualizados relacionados ao mundo do trabalho.
“Entendemos que nosso público prioritário é quem está no Cadastro Único, com uma potência de impacto socioeconômica gigantesca, mas ainda muito invisibilizado, porque a assistência social só leva em conta o emprego formal com carteira assinada”
A Aliança também trabalha para influenciar políticas públicas ao participar ativamente de comitês gestores que falam sobre empreendedorismo, como Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte.
“Lá não se leva muito em consideração essa base da pirâmide, então nosso papel é compartilhar informação de que existem mais de 20 milhões de pessoas que geram renda empreendendo, só que estão na informalidade — e que, segundo nosso estudo de 2021, poderiam injetar 700 bilhões de reais na economia.”
Ainda dentro dessa esfera, a Aliança busca ampliar a diversidade nesses espaços políticos e de decisão. “A cada cadeira que a gente ocupa, nos comprometemos a levar uma pessoa para ocupar outra, de preferência, uma mulher negra.”
Entre os dias 9 e 11 de junho deste ano0, a equipe da Aliança Empreendedora realizará, em Brasília, o Summit Aliança Empreendedora, evento anual que engloba dois encontros importantes da ONG.
Um deles é o Fórum Brasileiro de Microempreendedorismo, com o objetivo de reunir as organizações de apoio a esse público, como empresas, institutos, fundações e governos, para discutir os principais desafios e construir soluções para o ecossistema. O outro é o Encontro Nacional de Microempreendedores, em que a Aliança leva empreendedores do Brasil inteiro para se conectarem.
Antes disso, em 28 de abril, a ONG faz uma participação no evento do Fashion Revolution, onde divulgará uma pesquisa proprietária sobre brechós. A ideia do relatório surgiu por conta de um projeto institucional da Aliança chamado Moda Justa & Sustentável, que promove relações dignas de trabalho na cadeia têxtil através de ações que integram donos de oficinas de costura, stakeholders e tecnologias.
“Além de costureiras e artesãs, percebemos que precisávamos atuar nesse setor também com empreendedoras que trabalham com o conceito de economia circular e moda sustentável a partir dos brechós”
A pesquisa, diz Lina, traz dados interessantes: “Essas mulheres já se enxergam como empreendedoras de sustentabilidade e quase 80% entendem que o que fazem é valorizado.”
Por fim, para realizações de prazo um pouco mais longo, fica a meta de alcançar 1 milhão de microempreendedores até 2030. E como fazer isso?
“O primeiro passo é treinando agentes que vão trabalhar com microempreendedores por meio de políticas públicas. Também estamos investindo para tornar nossa esteira de capacitação mais fluida, para que os microempreendedores entendam que se trata de uma jornada completa, com uma série de benefícios.”
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