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A atenção, no Brasil, costuma ser monopolizada de quatro em quatro anos pela corrida eleitoral e pela Copa do Mundo – que aliás começa daqui a menos de um mês. Mas há outros temas urgentes que demandam foco e discussão.
Algumas dessas questões imprescindíveis estarão em debate na semana que vem, no Impacta Mais 2026. A nova edição do fórum da economia de impacto ocorre nos dias 20 e 21 de maio, no Pro Magno Centro de Eventos, na zona norte de São Paulo – e o Draft estará lá para cobrir.
Entre 160 palestrantes, a programação inclui Pedro Tarak, cofundador do Sistema B e da Regional Impact Trade Alliance (RITA), e Izabella Teixeira, ex-ministra do Meio Ambiente e copresidente do Painel Internacional de Recursos Naturais da ONU, além de dezenas de nomes do ecossistema que já deram as caras por aqui.
À frente do Impacta Mais 2026 está Pablo Handl. Nascido na Argentina, criado na Áustria e radicado há duas décadas no Brasil, ele cofundou, em 2007, o Impact Hub São Paulo, primeira unidade no país da rede global de espaços colaborativos, comunidades empreendedoras e programas de capacitação voltados ao impacto social. Hoje, esta e outras três unidades (Florianópolis, Porto Alegre e Cuiabá) estão sob o guarda-chuva da holding Companhia de Impacto.
Aos 49 anos, Pablo se diz feliz ao olhar pelo retrovisor e ver o legado que ajudou a construir. Confira a seguir a entrevista dele com o Draft (e fique de olho nas nossas redes para acompanhar a cobertura do Impacta Mais!):
Você nasceu na Argentina, cresceu na Áustria e está aí no Brasil há cerca de 20 anos, desbravando o ecossistema de impacto. Quando foi e como é que foi que se deu para você o estalo de começar a empreender nessa área? E como as tuas vivências prévias te despertaram e te prepararam para essa questão?
Eu fui criado em uma família de ativistas. Meu pai é indigenista, então desde que eu era pequeno e morava na Áustria, ele sumia para a Amazônia, ficava um, dois meses… E a minha mãe sempre foi dedicada às causas dos refugiados, porque ela mesma era uma refugiada política.
Então, essas temáticas sociais, em casa, sempre reverberaram. Acredito que daí veio muito dessa identificação da busca por justiça
Também fui criado numa sociedade [a austríaca] que prezava, na época, receber bem os refugiados, criar uma sociedade o máximo possível igualitária, onde as pessoas tenham as mesmas oportunidades – e mesmo que não tenham, que isso não reflita em uma sociedade de várias classes sociais
E, por outro lado, durante a faculdade [de administração na Universidade de Viena], eu participei da AIESEC, uma organização internacional que buscava ativar lideranças, inspirar a lógica de que alguém tem que trabalhar por uma responsabilidade social…
A AEISEC trazia dois modelos de como você pode fazer diferença na sociedade: a via de trabalhar no setor privado – na época, era o CSR, ou seja, Corporate Social Responsibility [Responsabilidade Social Corporativa], que seria [o equivalente] à “sustentabilidade” em relação aos dias de hoje. E a via de empreender.
Essa vontade da autonomia, de não estar numa estrutura corporativa, sempre me atraiu. A narrativa da independência me encantava. E aí, existia uma outra narrativa, que era empreender – mas com apelo social. Essa, para mim, seria a cereja do bolo
Eu não via necessariamente uma jornada de “vou primeiro para o mercado corporativo, juntar dinheiro, depois empreender [com impacto]”… Para mim, isso ficou mais flexível. E acho que de fato [a escolha] se revelou como acertada, olhando pelo retrovisor.
Você lidera o Impact Hub São Paulo desde um tempo em que falar de negócios de impacto era uma coisa totalmente periférica ou de nicho. Quando sentiu que esse debate passou de fato a disputar um lugar mais central na economia?
Acho que o primeiro marco foi quando a [revista] Época Negócios bateu na nossa porta, em torno de 2008, e fez uma matéria de duas páginas. A gente tinha acabado de abrir o espaço [do Impact Hub] em São Paulo, ainda estava muito no início…
Tinha ainda um desafio de explicar o que a gente estava querendo, seja com o conceito de coworking, seja com o de comunidade empreendedora… Então, quando a Época Negócios bateu na porta, eu achei que era uma piada. E aí saiu a matéria e eu fiquei instigado – não pela matéria em si, mas pelo fato que saiu um veículo bem mainstream.
O segundo marco foi quando a gente fez a primeira rodada de investimento, o crowd equity. Mesmo sendo uma forma de aportar pouco dinheiro – ninguém arrisca aí um valor tão relevante –, me chamou a atenção o fato de que a gente fechou rápido essa rodada. Falei, “Puxa, tem gente querendo botar dinheiro aqui, isso vai começar a ganhar escala…”
E aí entra o próprio Impacta Mais. O primeiro foi em 2014, na época chamava-se Fórum de Finanças Sociais Brasileiras. Quando eu vejo o auditório lotado, e gente de mercado discutindo “o que são esses negócios de impacto?”, querendo entender esse fenômeno… Pensei, “Poxa, estamos no [Instituto] Tomie Ohtake, um lugar simbólico da cidade de São Paulo… Isso aqui ainda vai longe”
Na época, em 2014, já existia o fenômeno do negócio de impacto em uma certa quantidade, mas [então] ficou claro que, se o mundo do capital não entendesse como investir – em que momento, com quais instrumentos, quais ordens de grandeza –, esses negócios não iriam sobreviver. O Fórum [hoje Impacta Mais] nasceu para aproximar esses mundos.
Como você avalia hoje a prontidão dos C-Levels brasileiros para abrir mão do lucro em curto prazo em prol de uma visão de impacto sistêmico e regenerativo?
Eu acho que o C-Level que não esteja numa fase de pensar, no CPF mesmo, que “eu tô aqui pra deixar um legado”, ou então “eu já preenchi meu ego, já resolvi a parte financeira, e agora? O que vou fazer com meu tempo?”… Se não tiver essa reflexão interna, dificilmente ele vai conseguir liderar a empresa em uma agenda de longo prazo.
E não acho que a gente faz um favor para as empresas falar “para você ser uma empresa sustentável, que gera um impacto legal, você precisa abrir mão do lucro”. Pode até ser, mas não acho que essa é a definição.
Acho que a definição é: a liderança está com uma agenda de legado? E consegue contagiar a empresa toda com essa agenda? Eu acho que [nesse caso] as chances são muito maiores. Mesmo assim, o CEO não consegue fazer milagres. Ele precisa criar uma cultura, e isso requer uma visão de longo prazo
Esses C-Levels têm uma motivação intrínseca: “estou com essa agenda no meu CPF e consigo usar na agenda CNPJ”. Mas tem também C-Levels com uma motivação extrínseca, que vem dos fatores externos: o mercado, o conselho, os acionistas, o consumidor… Aí acho mais complicado, porque esses fatores pressionam e vão nortear uma discussão que não é essa de legado.
E precisamos entender que navegar esse mar brasileiro não é simples. Quando cheguei, a sensação que eu tive no mundo corporativo é que o Brasil era [visto como] uma cash cow [“vaca leiteira”]: a gente aqui tem que extrair o que é possível. Extrair, extrair, extrair…
As empresas não vieram com uma agenda de “vamos transformar o Brasil num Brasil sustentável”. Uma agenda de crescimento, sim, mas não necessariamente de deixar um legado de diminuir a desigualdade social, começar a regenerar a floresta… Não acho que essa era a agenda nos últimos 20 anos.
Porém, acho que [isso] mexeu, mudou. Se você olha para o Brasil do ponto de vista de ano a ano, a sensação é de uma maré que sobe e desce o tempo todo. Mas quando você dá um passo atrás e olha de quando eu cheguei, em 2005, e onde estamos hoje, o Brasil mudou bastante. Em termos de mindset, a gente está em outro lugar
Tem outro lado, que é meio pragmático: as empresas vão começar a sofrer pressão de vários stakeholders, vai ser mais difícil de navegar um mercado que tem mudanças climáticas drásticas.
A gente vai conviver cada vez mais com empresas fazendo o “ESG básico” para o negócio sobreviver; mas também vão ter aquelas que vão falar: “Quero deixar um legado, um surplus [excedente] não só para os acionistas, mas para a sociedade como um todo”.
O Impacta Mais em 2026 está incorporando temas novos, como IA, Economia Azul, Inovação Climática… O que a curadoria da programação deste ano revela sobre prioridades, ansiedades e gargalos do ecossistema?
A curadoria sempre busca construir em cima do que foi nos anos anteriores. Tem temáticas que você puxa um fio e esse fio não se encerra numa edição. Por exemplo, investimento de impacto: estamos puxando esse fio desde 2014, ele é a origem do evento.
Eu fiz 49 [anos] agora. Estou num momento em que tenho um prazer enorme em olhar pelo retrovisor e identificar algumas coisas na minha vida, na sociedade, nos negócios, que quando eu tinha 20 e poucos anos, eu não conseguia. Isso me deu uma clareza do quão importante é honrar a construção, honrar quem conduziu até agora.
Então, você pega esse bastão e procura honrar aquilo que foi feito, procura melhorar dentro do que você tem a aportar. Então, quando a gente pensou a curadoria, pensamos sempre que os temas que foram importantes no passado precisam ser importantes no futuro
O Impacta Mais também sempre teve um cuidado de trazer as políticas públicas dentro da conversa. A própria Enimpacto, a Estratégia Nacional [de Economia] de Impacto, foi inspirada pelas discussões da época, isso foi algo que reverberou e foi uma construção…
No ano passado a gente tinha uma sala do Simpacto [Sistema Nacional de Economia de Impacto], mas praticamente era uma sala de políticas públicas. Neste ano, estamos chamando de Inovação de Governo, mas é a mesma lógica.
Tem temas que são emergentes. Impacto em IA, por exemplo: de um ano para cá, [teve] uma avalanche de assuntos, a gente não podia não abraçar essa temática
A gente é permeável, nos vemos mais como uma plataforma do que como “donos” da curadoria. Por exemplo, o Grupo Boticário está [com o Impacta Mais] desde as primeiras edições, e este ano eles disseram que queriam trazer a temática da economia azul. Para nós importa estrategicamente, e a gente acredita que ela é importante para o Brasil e a economia de impacto. Então vamos fazer um espaço só de economia azul.
Na questão da economia circular, eu trouxe a Lígia Camargo, que é a VP de impacto da Heineken, para ser uma das principais curadoras. A gente sempre traz alguém que vibra, conhece, tem legitimidade…
Os curadores são pontos focais, mas o papel da nossa curadoria – a missão dada – é engajar o ecossistema [com pessoas] que trazem a legitimidade, representatividade, e que nos consiga ajudar a [entender] o que a gente precisa discutir esse ano, a partir de tudo que já foi discutido no passado – e do que precisa acontecer no futuro
Desde o primeiro Impacta Mais, a temática da desigualdade sempre foi prioritária. Então, a questão é mais: qual o frame, a moldura que eu dou para essa temática?
Podíamos ter uma sala de desigualdade social, mas a gente decidiu colocar como Inclusão Econômica. E pusemos a Dani Redondo, diretora do Instituto Coca-Cola, que trabalha com a temática há muitos anos, e tem muita credibilidade tanto no CPF como no CNPJ.
Um dos hubs temáticos deste ano, como você citou, é o de IA no setor de impacto. Qual é a visão, sua e do Impact Hub, para que essa tecnologia sirva como um catalisador de equidade?
Essa é uma área de conhecimento tão emergente que a gente trouxe porque queremos aprender sobre ela. Uma forma de se aproximar dessa temática é conversar com quem tem “IA na veia” – os estudiosos e empreendedores da tecnologia de IA aplicada a desafios do mercado. E outra é: como é que o setor de impacto se apropria dessa tecnologia?
O Rogerio Oliveira, curador da sala de IA, propôs o seguinte: vamos trazer as empresas que nasceram com a lógica de IA, as deep tech, para eles mostrarem para a gente como é enxergam a tecnologia que eles estão desenvolvendo – e como a gente orienta essa tecnologia para resolver questões de educação, desigualdade, saúde…
Como é que o mundo da tecnologia olha para as questões sociais? Acho [essa discussão] super interessante, porque um dos desafios dos últimos anos é que o ecossistema de impacto e o ecossistema de inovação eram muito pouco integrados. Isso é uma autocrítica, também
Eu estava [no começo de março] no Museu do Amanhã, a gente fez o lançamento de um indicador de impacto, o INDEI [Índice Nacional de Desenvolvimento de Ecossistemas de Impacto], e o André Aquino, secretário de tecnologia de São Paulo, falou: “Eu vejo que esses dois ecossistemas precisam interagir mais…” Isso colabora com essa visão. Portanto, vamos trazer o ecossistema de tecnologia, de inovação, e ver o que eles têm a dizer.
A IA tem que estar a serviço da agenda de economia de impacto. Não é pegar carona, é desenhar isso. Essa tem que ser a atitude do Impacta Mais nos próximos anos. Temos que desenhar essa tecnologia para o que a gente quer que ela esteja a serviço. Mas se não existe uma visão compartilhada, é difícil a gente orientá-la.
Nosso papel neste Impacta Mais é começar a mapear. Quem são os atores? O que já está acontecendo? O que eles já aprenderam? O que eles estão enxergando no futuro? Quais são as perguntas em aberto?
Eventos de impacto costumam reunir pessoas que já concordam entre si. Como fazer o Impacta Mais provocar uma fricção real e não apenas um networking entre convertidos?
Esse é um ótimo ponto. Em 2024, fizemos uma reflexão interna. O último Fórum de Investimento em Negócios de Impacto tinha acontecido em 2018; em 2020 teve a versão [online] na pandemia. Então a gente decidiu assumir o evento e discutiu com os parceiros – principalmente o ICE [Instituto de Cidadania Empresarial], que estava à frente como CNPJ.
Demos uma repaginada, mudamos a marca… A discussão do investimento em negócios de impacto precisava permanecer, mas e se a gente tivesse [também] uma discussão de economia de impacto? A tese por trás era: os negócios de impacto estão aqui para endereçar um desafio que foi criado pelo próprio sistema econômico.
Temos um ecossistema de impacto que é quase homogêneo — não é 100%, existem conflitos, tensões veladas. Mas a gente quis ter um evento multissetorial, e não um evento só de startups, ou só de investidores… Então, o fato de que tem vários setores já dá uma mistureba interessante, do ponto de vista de lugar de conversa
Aprendi, nos últimos 20 anos, a arte do brasileiro de se relacionar. Essa é uma coisa que agregou na minha vida: mais afeto, mais cuidado pela relação… Essa coisa do austríaco, o pessoal sempre comentava que eu era um pouco mais “direto”. Hoje, quando vou à Áustria, fico até chocado: “Vocês são muito grossos!” (risos).
Dito isto, precisamos cutucar mais com o Impacta Mais. Porque a tendência é ser cordial, principalmente nos palcos, quando as conversas são mais públicas. De onde eu venho, as pessoas têm menos problema em discordar publicamente, isso não é mal visto.
E aí tem um ponto sensível. Muitas pessoas ainda dependem de recursos, de pessoas que talvez estejam na mesma mesa, discutindo com você, ou na plateia. O setor de impacto é vulnerável, compete por recursos, sempre está buscando se financiar… Existe uma assimetria de poder econômico, de acesso a capital
Então, às vezes ter um papo mais franco, mais combativo, ainda é um desafio: as pessoas ficam incomodadas quando acontece. É compreensível. Mas temos que criar uma cultura de que dá para botar o dedo na ferida da pessoa que está no mesmo painel e dizer: “isso não está legal”. Sem que precise de uma mediação.
Antes de dominar habilidades técnicas, é preciso aprender a ver valor no que se faz. Cofundadora da Aliança Empreendedora, Lina Maria Useche conta como a organização trabalha há 21 anos para fortalecer microempreendedores da base da pirâmide.
Gabriel Ferri ainda cursava geografia quando, durante a Covid-19, criou um perfil para denunciar crimes ambientais. Virou influencer de sustentabilidade e hoje, com seu Planeta Pós-Pandemia, está prestes a lançar um novo braço de educação.
Empresas pagam 1 real por cada visualização completa de vídeo, e o valor é repassado integralmente a projetos beneficentes: conheça a proposta da Doe Tempo, startup de impacto fundada por um trio de amigos.
