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Quando entrei na faculdade de jornalismo, em 1993, meu sonho era ser a Christiane Amanpour.
Amanpour era correspondente da CNN e cobria guerras mundo afora, aparecendo em meio a bombardeios e escombros em países que ninguém conhecia, sempre atrás da próxima grande notícia. Ela vivia o que eu, na minha visão romântica do jornalismo, acreditava ser a vida de um repórter de verdade.
Quanto terminei a faculdade, já sabia que não dava para isso. Minha curta experiência na Agência Folha me mostrou que eu tinha zero talento para o jornalismo diário, que dirá para cobrir guerras
Mas nesse universo, uma experiência me marcou profundamente. O Curso Intensivo de Jornalismo Aplicado do jornal O Estado de S. Paulo (carinhosamente chamado de “curso de focas” do Estadão) era uma iniciativa voltada para alunos do último ano ou recém-formados em jornalismo, cujo objetivo era proporcionar uma vivência real para os jovens estudantes, sob supervisão de profissionais gabaritados.
Como focas – jargão utilizado para o repórter novato –, entrevistamos personalidades, tomamos trote do editor de Ciência, vimos nossas matérias impiedosamente anotadas em vermelho no telão. Aqueles meses de aprendizado e convívio em 1997, com gente de diferentes cantos do Brasil, foram fundamentais na minha formação como jornalista.

Crachá de Lilian do curso de focas do Estadão.
Corta para 30 anos depois.
Eu com décadas de estrada no jornalismo, agora me dedicava à cobertura do envelhecimento, um tema pelo qual me apaixonei. Como diretora de redação da Aptare, uma divisão da Dínamo Editora dedicada a publicações e projetos voltados para a longevidade, passei a criar ações para profissionais de saúde, cuidadores, pacientes e público geral.
O sonho de ser correspondente de guerra havia ficado num passado distante. Meu negócio agora era outro: queria conscientizar a sociedade sobre o bom envelhecimento e criar oportunidades para que isso acontecesse
Minha mãe, Alice, de 76 anos, é uma das minhas maiores referências de envelhecimento ativo. Imigrante taiwanesa, ela tem clareza sobre o que é importante para envelhecer bem e coloca isso em prática no dia a dia.
Nessa trajetória profissional, de alguma gaveta da minha memória surgiu a ideia de fazer um curso de focas à la Estadão voltado para pessoas com mais de 60 anos.
A ideia era fazer um curso livre de jornalismo e tecnologia, que aliasse teoria e prática.
Em aulas semanais ao longo de três meses, os alunos 60+ aprenderiam fundamentos de jornalismo, como conceito de notícia, lead, pirâmide invertida, técnicas de entrevista, ética em jornalismo, casos emblemáticos
No quesito tecnologia, eles seriam capacitados a criar um blog, um canal no Youtube, um perfil nas redes sociais onde eles pudessem ter voz. Também aprenderiam sobre aplicativos para gravar e editar fotos, áudios e vídeos.
A prática viria através de coletivas de imprensa com temáticas relacionadas à longevidade e, ao final do curso, uma saída a campo para desenvolvimento do trabalho de conclusão de curso.
Nascia assim o Repórter 60+.
Começamos a primeira turma em 2018. Ao longo de 12 semanas, alunos dos mais diferentes contextos se reuniram numa sala na Avenida Paulista para discutir jornalismo e aprender novas tecnologias.
Claro que não é possível ensinar nesse período o conteúdo que estudantes de jornalismo levam quatro anos para aprender, mas depois dos três meses de curso, a maioria dos idosos relatou conseguir ler notícias de maneira mais crítica e ter mais segurança para explorar as tecnologias. Alguns compartilharam a vontade de aplicar seus conhecimentos num blog ou quem sabe criar uma revista.
O que não esperávamos eram os ganhos colaterais do curso: além de novos aprendizados e novos amigos, recebemos relatos de resgate de autoestima, redescoberta de potencialidades, reforço da cidadania, senso de propósito, realização de sonhos
Era o jornalismo como agente de mudanças, mas de uma maneira que fugia do que eu havia aprendido nos gloriosos dias de ECA – a Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP).
Quando tiramos a ideia do papel – e uso a primeira pessoa do plural porque esse é um projeto realizado a muitas mãos –, estávamos convencidos de que ele seria um projeto altamente transformador para os participantes. Realmente foi e temos quase 200 focas que fariam coro conosco.

Lilian com a turma de 2026 do Repórter 60+.
Outra coisa que não esperávamos é que nós, da equipe, também sairíamos transformados da experiência ao testemunhar tanta potência daqueles alunos, com tanta vontade de aprender e tanto a nos ensinar. É lindo ver como 12 encontros são capazes de gerar tanta mudança.
Quando me perguntam o que o Repórter 60+ representa na minha vida, a resposta sempre me emociona. Muitos participantes chegam aqui achando que não vão dar conta. Mas, ao final, é bonito ver o ganho de autoestima que surge quando descobrem novos talentos, novas possibilidades e constroem novas amizades
Em toda a minha carreira de jornalista – incluindo passagens pelos Estados Unidos e África do Sul –, este é um dos projetos dos quais mais me orgulho, porque me permite colocar tudo o que aprendi a serviço do público maduro.
Demos início na semana passada à nossa sétima turma, com alunos de 60 a 84 anos. Se Christiane Amanpour, hoje com 68 anos, participasse, tenho certeza de que ela iria adorar.
Lilian Liang, 52, é jornalista formada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Tem mestrado em jornalismo pela Universidade da Califórnia em Berkeley (UC Berkeley), nos EUA, e especialização em gerontologia pela Universidade Federal de São Paulo. Trabalhou em diversos veículos no Brasil e no exterior. Especializada na cobertura de saúde, dedica-se desde 2012 à cobertura do envelhecimento, tendo desenvolvido publicações e iniciativas para diversos públicos com essa temática.
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