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“A longevidade, para mim, nunca foi um tema de mercado. Sempre foi uma ferida e, ao mesmo tempo, uma esperança”

Daline Hällbom - 17 abr 2026 Daline Hällbom, fundadora da Söderhem NOLT.
Daline Hällbom, fundadora da Söderhem NOLT.
Daline Hällbom - 17 abr 2026
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Sempre fui muito prática, focada. E talvez ambiciosa, também. A minha vida sempre foi sobre construir carreira, projetos, resultados. 

Comecei no mercado imobiliário muito cedo, em São Paulo, trabalhando com grandes incorporadoras e participando de lançamentos importantes.

Cresci rápido na carreira e tudo parecia estar acontecendo exatamente como deveria. E, de certa forma, estava. Mas, mesmo com tudo isso, havia algo que eu ainda não sabia nomear

Em 2011, me mudei para Florianópolis. Foi uma mudança importante, mas ainda dentro da mesma lógica: crescer, performar, entregar mais. Depois vieram as oportunidades internacionais, passando por Irlanda, Dubai, e terminando na Suécia. 

Cada lugar trouxe algo diferente: novas culturas, novos desafios, novas formas de pensar. Eu me joguei em tudo com muita intensidade. Por muito tempo, achei que essa era a resposta: expandir, crescer, ir além. 

Mas a minha história com longevidade não começou na Europa. Ela começou muito antes. 

ACOMPANHAR DE PERTO O DECLÍNIO DA MINHA AVÓ TRANSFORMOU A MINHA VIDA PARA SEMPRE

Eu venho de uma família muito simples. E a minha avó foi uma das pessoas mais importantes da minha vida: na prática, uma segunda mãe. Uma mulher forte, daquelas que seguram tudo. 

E foi com ela que eu vi, pela primeira vez, o que acontece quando a vida vai sendo, aos poucos, transformada.

Eu vi a minha avó enfraquecendo, não de uma vez, mas devagar. Primeiro a solidão, depois a depressão, depois a demência. E, por fim, os AVCs. Naquela época, eu trabalhava e estudava ao mesmo tempo. A vida não parava. Ainda assim, passei seis meses dormindo com a minha avó no hospital 

Foram seis meses acompanhando de perto uma transformação profunda e ali aconteceu algo que ficou marcado em mim de uma forma diferente do que muitos poderiam imaginar.

Os médicos e enfermeiros chamavam ela de “Vó”. Não porque ela tivesse perdido a identidade, mas justamente pelo contrário: era um reconhecimento silencioso do vínculo que existia entre nós. 

Todos sabiam que eu estava ali todos os dias dando banho, cuidando, acompanhando cada detalhe. Eu estava mais presente do que qualquer outra pessoa. Era bonito. Era humano. 

No mesmo quarto, havia uma outra senhora. Com o tempo, também comecei a cuidar dela, a estar presente, a conversar, a segurar a mão. Um dia, ela morreu nos meus braços. São experiências que não passam: elas ficam 

Depois, minha avó voltou para casa. E fizemos o que era possível, o que o dinheiro permitia. Tentei montar uma estrutura mínima, enquanto minha tia cuidava do dia a dia. 

Mas a verdade é que não tínhamos condições de oferecer tudo o que ela precisava. Aquela mulher forte, cheia de vida, ficou acamada por dois anos e meio. Isso me marcou de um jeito difícil de explicar, mas mudou algo dentro de mim.

Foi essa experiência que me aproximou de casas de repouso e projetos sociais. Eu queria entender, queria ajudar, mas, no fundo, acho que estava tentando dar sentido ao que tinha vivido.

NA SUÉCIA, OBSERVEI ALGO QUE ME DESCONCERTOU: PESSOAS DE 60, 70 ANOS VIVENDO COM LEVEZA, SEM MEDO

Hoje, olhando para trás, eu entendo: a longevidade, para mim, nunca foi um tema de mercado. Sempre foi uma ferida e, ao mesmo tempo, uma esperança.

Anos depois, já vivendo fora do Brasil, essa percepção ganhou ainda mais clareza. Na Suécia, comecei a observar algo que me desconcertou: pessoas de 60, 70 anos vivendo com leveza. Trabalhando, viajando, andando de bicicleta, encontrando amigos em cafés, sem pressa, sem medo, sem rótulos. 

Ninguém parecia estar esperando o fim da vida. Elas estavam vivendo.

Quando voltei para o Brasil, essa diferença ficou impossível de ignorar. Aqui, muitas vezes, a idade ainda vem carregada de um peso de rótulos, de uma ideia silenciosa de que existe um momento em que a vida começa a diminuir 

E, junto com isso, percebi algo ainda mais profundo: a solidão. Uma solidão que não é apenas física, mas emocional, social, invisível e que cresce justamente no momento em que mais precisamos de conexão.

Foi aí que tudo começou a fazer sentido e, ao mesmo tempo, a desmoronar dentro de mim. Porque percebi que toda a minha trajetória, toda a minha construção profissional, poderia ser usada para algo maior. 

Isso também significava encarar dúvidas que eu nunca tinha permitido entrar. Será que eu estava pronta para mudar? Será que fazia sentido sair de uma trajetória sólida para construir algo novo, incerto? Será que as pessoas entenderiam? 

E, talvez, a dúvida mais difícil: será que eu estava pronta para me expor de verdade?

CRIEI UMA EMPRESA PARA AJUDAR A DIFUNDIR NO BRASIL A VISÃO ESCANDINAVA DE UMA LONGEVIDADE SAUDÁVEL

A transição não foi bonita, nem linear. Teve medo, insegurança e momentos em que pensei em voltar atrás. Porque construir algo novo, principalmente quando vem de dentro, exige um nível de vulnerabilidade que ninguém te prepara. 

Ao mesmo tempo, havia algo que eu não conseguia ignorar: uma sensação muito clara de propósito. Não no sentido romantizado da palavra, mas no sentido real, de responsabilidade.

Eu não quero que outras famílias passem pelo que a minha passou. Nem que pessoas sejam reduzidas a um rótulo, a uma cama ou à ausência de dignidade. 

Foi a partir disso que comecei a enxergar o envelhecer de uma forma completamente diferente: não como um fim, mas como uma continuidade da vida com autonomia, pertencimento e conexão 

E foi assim que nasceu a Söderhem, a materialização do meu propósito de vida. E não como um empreendimento imobiliário, mas como uma resposta. Uma tentativa real de criar espaços onde as pessoas possam continuar vivendo de verdade com liberdade, comunidade e propósito, sem rótulos e sem limitações impostas pela idade.

Hoje, começo com um projeto voltado para a classe A, porque é assim que consigo estruturar, viabilizar e provar um modelo. Mas esse não é o destino final. 

O meu verdadeiro objetivo é usar essa base para construir, junto com o setor público e privado, soluções acessíveis, como vi em países escandinavos. Projetos dignos, sustentáveis e humanos, para quem mais precisa

Ao longo dessa jornada, comecei a dar nome a essa forma de enxergar o envelhecer: uma nova forma de viver ao longo da vida. Uma forma que não separa, não isola, não limita, mas integra, conecta e amplia. 

Se eu tivesse que resumir, seria isso: Não se trata de “envelhecer melhor”. Se trata de viver melhor, e por mais tempo.

 

Com experiência em mercado imobiliário e estratégias empresariais, Daline Hällbom é especialista em longevidade e fundadora da Söderhem NOLT, empresa sueco-brasileira que quer implementar no Brasil um novo jeito de viver os 55+, com foco na longevidade saudável e na cultura NOLT (New Older Trending Living).

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