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Nasci em Miracema, uma pequena cidade do interior do Rio de Janeiro. Quando você cresce em um lugar assim, aprende cedo que as grandes oportunidades parecem acontecer sempre em outro lugar.
As grandes empresas estão em outras cidades. Os grandes eventos acontecem longe. As histórias que saem nos jornais normalmente pertencem a outras pessoas…
Durante muito tempo, pensei que minha vida seguiria um caminho parecido com o de tantas pessoas da minha região: estudar, trabalhar onde fosse possível e tentar construir uma vida melhor dentro das oportunidades disponíveis.
Mas a vida tinha outros planos.
Quando perdi meu pai aos 16 anos, senti que uma parte importante da minha estrutura desapareceu. Minha mãe passou a carregar praticamente sozinha a responsabilidade pela família.
Eu ainda tentava entender quem eu era e qual seria meu futuro, mas já precisava lidar com preocupações que normalmente pertencem à vida adulta. Foi nesse período que comecei a entender que ninguém viria mudar minha realidade por mim
Estudei na Faetec de Santo Antônio de Pádua. Muitas vezes eu tinha dinheiro apenas para chegar à rodoviária. O restante do caminho era feito a pé. Não havia computador em casa. Quando precisava estudar tecnologia, dependia da ajuda de parentes e amigos.
O que hoje parece simples, naquela época parecia distante.
Meu primeiro emprego foi no Supermercado Tolentino. Depois vieram outras experiências profissionais, entre elas a Usamark, onde tive contato com design e comunicação visual. Eu gostava da ideia de criar coisas, resolver problemas e aprender algo novo.
A grande transformação da minha vida começou em 2014, quando passei a trabalhar na Delfiss Engenharia.
Ali eu observava diariamente problemas que pareciam comuns no setor da construção civil: controles espalhados em papéis, planilhas difíceis de acompanhar, informações descentralizadas e processos que consumiam tempo e dinheiro.
Aquilo me incomodava profundamente. Enquanto muita gente enxergava aquela realidade como algo normal, eu me perguntava por que ninguém criava uma solução melhor.
Sem dinheiro para contratar programadores ou montar uma equipe, comecei a estudar sozinho. Assistia a vídeos, lia fóruns, fazia cursos gratuitos e passava horas tentando entender algo que parecia muito maior do que eu
Foi assim que nasceu a Constructweb. No início, eu nem sabia exatamente o que era uma startup. Eu só queria resolver um problema.
A plataforma começou a evoluir pouco a pouco. Vieram os primeiros clientes, as primeiras validações e, junto com elas, a sensação de que talvez eu estivesse construindo algo relevante.
Mesmo assim, a insegurança continuava presente.
Existe uma parte do empreendedorismo sobre a qual quase ninguém fala. Enquanto as pessoas enxergam resultados, o empreendedor convive diariamente com dúvidas, medo de errar e a sensação constante de estar improvisando
Muitas vezes eu me perguntava se realmente pertencia àquele ambiente. E se alguém que saiu de uma cidade pequena do interior do Rio de Janeiro poderia competir com empresas muito maiores e mais estruturadas.
Em 2018, aconteceu algo que mudou minha percepção.
A Constructweb passou a integrar o Ranking 100 Open Startups, alcançando a 74ª posição geral no Brasil e figurando entre as startups mais atrativas do setor da construção civil.
Aquilo parecia surreal. A startup criada em Miracema passou a participar de iniciativas como a pré-aceleração Raja Valley e posteriormente da aceleração Spin Capital.
Pela primeira vez, eu me vi cercado por investidores, empreendedores e profissionais que antes conhecia apenas pela internet
Em 2019, a empresa consolidou sua presença no ecossistema de inovação. Recebi uma Moção de Aplauso da Câmara Municipal de Miracema e tive minha trajetória apresentada pelo Valor Econômico na entrevista que carregava um título que nunca esqueci: “Eu tinha uma startup na mão e não sabia”.
Ao longo dos anos seguintes, a Constructweb e minha trajetória foram tema de reportagens e entrevistas em veículos como O Globo, Rede Record Rio, Rede Record News, Casa & Jardim, Inter TV/Rede Globo e outros espaços voltados para inovação, empreendedorismo e construção civil.
Para alguém que havia começado sem recursos, aquilo representava muito mais do que visibilidade. Era uma confirmação silenciosa de que o esforço estava fazendo sentido.
Então veio a pandemia. E, como aconteceu com milhares de empresas, tudo mudou.
O mercado desacelerou. Investimentos foram interrompidos. Projetos precisaram ser revistos. A trajetória de crescimento da Constructweb foi profundamente impactada pelos efeitos econômicos daquele período.
Foi um momento difícil.
Houve medo. Houve ansiedade. Houve dias em que eu realmente não sabia qual seria o próximo passo.
Durante algum tempo, tive a sensação de que anos de trabalho estavam escapando das minhas mãos. Mas foi nesse período que aprendi uma das lições mais importantes da minha vida
Resiliência não significa ausência de sofrimento. Resiliência significa continuar caminhando mesmo quando você não tem certeza de onde o caminho vai levar
Precisei me reinventar. Aproximei-me ainda mais do audiovisual, área pela qual sempre tive interesse. Trabalhei em campanhas, produções institucionais e projetos de comunicação.
Mais tarde, tive a oportunidade de atuar como designer gráfico e produtor audiovisual na Petrobras, experiência que ampliou minha visão profissional e reforçou a importância da comunicação como ferramenta de transformação.
Enquanto isso, uma nova ideia começava a surgir. E se toda aquela trajetória pudesse ajudar outras pessoas?
Foi dessa reflexão que nasceu o livro Minha Jornada: Da Superação à Startup.
Escrever foi mais difícil do que eu imaginava.
Se criar uma empresa exige coragem, escrever sobre as próprias dores exige ainda mais. Ao longo das páginas, revisitei perdas, inseguranças, fracassos, recomeços e aprendizados que ajudaram a construir quem sou hoje
Quando o livro foi lançado, eu não imaginava o alcance que ele teria. Minha trajetória acabou sendo destaque na revista VEJA. Pouco tempo depois, estive em Brasília apresentando a obra ao Ministério da Educação, ao Ministério da Cultura e ao Ministério do Empreendedorismo.
Posteriormente, a Secretaria de Educação Básica do MEC registrou oficialmente o alinhamento da obra com temas como mobilidade social, educação empreendedora e incentivo à leitura.
O livro passou a integrar acervos importantes, incluindo a Fundação Biblioteca Nacional, a BibliOn – Biblioteca Digital do Estado de São Paulo, e o Sistema de Intercâmbio da Biblioteca da Câmara dos Deputados e outras bibliotecas públicas.
Às vezes penso no adolescente que caminhava até a escola sem computador em casa.
Se alguém tivesse contado a ele tudo o que aconteceria nos anos seguintes, provavelmente ele não acreditaria.
Hoje entendo que minha história nunca foi apenas sobre uma startup, um livro, sobre reportagens ou reconhecimento. Foi sobre continuar
Continuar quando parecia impossível. Continuar quando ninguém estava olhando. Quando o medo falava mais alto que a confiança.
Se existe algo que aprendi nessa caminhada é que o lugar onde você nasce não determina até onde você pode chegar.
As dificuldades são reais. Os obstáculos existem. Mas os sonhos também.
E, às vezes, tudo começa quando uma pessoa comum decide recusar que um “não” seja a resposta final.
Natural de Miracema (RJ), Daniel Paiva, 42, é palestrante, fundador da Constructweb, startup de gestão de obras reconhecida pelo Ranking 100 Open Startups, e autor do livro Minha Jornada: Da Superação à Startup.
Cintya Soares afinou seu talento com um piano comprado com sacrifício pelos pais. Hoje, aplica essa vocação no trabalho como mentora, ensinando professores e donos de escolas de música a enxergarem suas atividades com olhar profissional.
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Roteirista, diretor e escritor nascido e criado no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, Igor Verde reflete sobre a vida, a morte e as lições de sua mãe, que preservava a capacidade para o riso mesmo convivendo de perto com a violência.
