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“Meus pais optaram por comprar um piano para mim antes mesmo de comprar uma casa. Foi ali que começou a minha empresa”

Cintya Soares - 3 jul 2026 Cintya Soares, mentora de donos de escolas de música.
Cintya Soares, mentora de donos de escolas de música.
Cintya Soares - 3 jul 2026
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Meus pais podiam comprar uma casa ou um piano. Escolheram o piano. Essa frase parece exagero, mas é a minha história. 

Eu tinha 9 anos. Meu pai, que era advogado, sofreu um AVC quando eu ainda tinha 1 ano e se aposentou por invalidez. Na nossa família, quase tudo era contado. Dinheiro, tempo, planos.

Um dia, meu pai recebeu o valor de uma ação. Aquela quantia podia iniciar a casa própria. Também podia virar o instrumento que a minha professora dizia que eu precisava ter para estudar melhor. Ela era freira e enxergou algo em mim antes que eu mesma soubesse dar nome

Até hoje, eles não têm um imóvel próprio. Eu sei o peso disso. Aquele instrumento abriu caminhos que nenhuma de nós podia prever. Foi nele que estudei, comecei a trabalhar e entendi, muitos anos depois, que música também podia ser empresa.

NA ADOLESCÊNCIA, ENTENDI QUE EU AMAVA A MÚSICA, MAS GANHAR MEU PRÓPRIO DINHEIRO TAMBÉM ME MOVIA

Comecei a estudar piano aos 7 anos. Aos 12, já tocava na igreja. Aos 15, dei minhas primeiras aulas para amigos, conhecidos e pessoas da comunidade. No começo, era simples. Alguém pedia: “Você me ensina essa música?”. E eu ensinava. 

Pouco tempo depois, a escola onde eu estudava precisou de professores para alunos iniciantes. Fui chamada para ensinar piano. Ali descobri algo que muita gente demora para admitir: eu amava música, mas ganhar meu próprio dinheiro também me movia.

Não falo isso com vergonha. Em uma casa com recursos escassos, meu dinheirinho foi libertador, me deu autonomia e a sensação de que eu podia contribuir 

Meus pais sempre me deram liberdade para trabalhar. Dei aulas no meu quarto. O espaço era simples, mas a confiança deles era enorme.

Aos 17 anos, escolhi Fonoaudiologia. Eu já tinha diploma técnico em música e pensei que talvez fosse melhor abrir outras possibilidades. Gostava de crianças e vi ali uma área próxima do que eu já fazia. 

Aos 22, percebi que não queria seguir a carreira clínica. Por um tempo, achei que aquilo tinha sido um desvio. Hoje, vejo como parte da minha trajetória. A Fonoaudiologia me deu repertório sobre desenvolvimento infantil, fala, escuta e aprendizagem. 

Sem esse caminho, talvez eu não tivesse criado minha primeira metodologia em educação musical. Na época, eu nem chamava de “metodologia”. Eu apenas juntava o que via em sala de aula com o que aprendia sobre criança, corpo, som e vínculo

Mais tarde, essa construção se tornou o Método Criança e Música. Hoje, minha trajetória reúne o método e duas pós-graduações com chancela do MEC. 

Mas nada nasce pronto. Veio do chão da sala, do contato com os alunos, das tentativas, dos erros e da coragem de ajustar a rota. 

MINHA VIDA COM CARTEIRA ASSINADA PARECIA SEGURA, SÓ QUE PEQUENA DEMAIS PARA O QUE EU SONHAVA

Aos 21, entrei no regime CLT como professora de música em uma escola regular. Dei aula para Educação Infantil e Fundamental 1. Foi uma fase importante, mas cheia de perrengues.

A instituição nem sempre tinha os materiais que eu queria usar. Eu criava alternativas com o que existia: instrumentos de sucata, atividades adaptadas e formas possíveis de fazer as crianças viverem a educação musical. 

Também errei na condução de algumas aulas, na forma de lidar com alunos e na expectativa sobre o que uma turma conseguiria absorver. Só que a experiência tem uma generosidade dura. Ela ensina, mas cobra presença

Em determinado momento, eu trabalhava em quatro escolas ao mesmo tempo, mantinha alunos no estúdio e ainda tocava em casamentos no final de semana. A agenda era pesada. Havia reconhecimento, mas também limite. 

Minha vida parecia segura, só que pequena demais para o que eu sonhava… Por muitos anos, carreguei uma crença silenciosa. Se eu saísse do CLT, talvez não conseguisse me aposentar. Talvez não sustentasse uma carreira. Talvez perdesse a estabilidade. 

A carteira assinada era quase um colete salva-vidas. Mesmo desconfortável, eu tinha medo de soltar.

FORA DO CLT, COM UMA FILHA DE 5 MESES, PRECISEI ME LEVAR A SÉRIO E TRANSFORMAR MINHA FORMA DE ENSINAR EM UMA VITRINE

Em 2015, eu estava grávida da minha filha e a última escola regular em que trabalhei passava por uma crise. A proposta era reduzir meu salário. Olhei para aquilo e pensei que, se fosse para baixar ainda mais, não compensaria. Pedi que me mandassem embora.

De repente, eu estava grávida, fora do CLT e cheia de medo. Meses depois, meu marido também perdeu o emprego. Nossa filha tinha apenas 5 meses. Havia boletos, uma bebê pequena, insegurança e a sensação de que tudo o que parecia estável tinha caído ao mesmo tempo.

Eu não romantizo demissão. Não acho bonito passar aperto. Não existe glamour em fazer conta para o mês fechar com uma criança pequena nos braços. Mas aquela fase acendeu uma força que talvez eu não tivesse acessado se a segurança antiga ainda estivesse ali

Eu precisei me levar a sério. A escola de música que eu tinha, os recitais, a relação com as famílias e a minha forma de ensinar viraram também uma vitrine. 

Mais tarde, com o Instagram, passei a mostrar meu dia a dia. Outros profissionais da área começaram a me procurar. Queriam saber como eu organizava os recitais, estruturava as aulas, atraía alunos e fazia um espaço de ensino musical funcionar de verdade. 

MUITOS MÚSICOS E EDUCADORES AINDA CARREGAM A IDEIA DE QUE TRABALHAR COM ARTE SIGNIFICA ACEITAR POUCO

Foi assim que nasceram as mentorias. No início, eu mostrava a outros professores aquilo que já aplicava na minha rotina. Com o tempo, entendi que eles não buscavam apenas ideias de aula. Muitos procuravam uma prova de que era possível viver de música com dignidade, lucro e identidade própria.

Esse ponto mexe muito comigo, porque conheço essa crença por dentro. Muitos músicos e educadores carregam a ideia de que trabalhar com arte significa aceitar pouco. Como se o amor pela música anulasse a necessidade de faturamento. Como se propósito pagasse todos os boletos sozinho. Não paga. 

Eu amo música. Mas amor não pode ser desculpa para desorganização, subpreço ou culpa por ganhar dinheiro.

Esse talvez seja um dos meus maiores aprendizados: viver de música não exige que a pessoa deixe de ser artista. Exige que ela olhe para o próprio trabalho como um negócio. Mesmo que comece sozinha, dê aula em casa ou use uma sala, uma igreja ou um pequeno estúdio

Um negócio precisa de método, clareza, venda e entrega. Precisa de verdade também. Esse é o ponto central do meu trabalho.

Sempre acreditei muito na autenticidade. Não como frase bonita de internet, mas como estratégia de vida. Quanto mais mostrei o que fazia com verdade, mais as pessoas certas chegaram. 

Ter mentores também mudou meus resultados. O direcionamento economiza tempo, dinheiro e desgaste emocional. Eu erro, ajusto e transformo esse caminho em método para que meus mentorados não precisem perder anos nos mesmos pontos em que eu me perdi.

MINHA MISSÃO É AJUDAR PROFISSIONAIS DA MÚSICA A OLHAREM O SEU TRABALHO COM RESPEITO, MÉTODO E CORAGEM

Em 2023, vendi a carteira de alunos da minha escola de música e decidi seguir apenas com as mentorias. A escola tinha sido meu laboratório, minha prova, meu chão. Mas vi que podia ajudar mais gente ao levar minha experiência a donos de escolas e educadores musicais.

Hoje, meu marido e eu somos empreendedores. Temos, cada um, suas empresas. Vivo uma realidade que, às vezes, parece distante daquela menina que dava aula no quarto. Tenho uma casa boa, comprei imóveis, viajei para mais de 13 países e construí uma renda muito maior do que a que eu tinha no CLT. 

Falo isso não para vender uma fantasia. O caminho teve medo, cansaço, erros e dias em que a conta emocional parecia alta demais. Mas existe vida possível para quem trabalha com música. Existe prosperidade possível. Existe negócio possível

Meu sonho, hoje, é alcançar professores de música e donos de escola que ainda acham que não são capazes. Pessoas que acreditam que não podem ganhar dinheiro, criar uma metodologia, lotar uma agenda, estruturar uma empresa ou construir uma história sólida sem abrir mão da própria essência. 

Quero que elas entendam que não precisam mudar quem são. Precisam dar mais expressão ao que já fazem bem. Precisam aprender negócios. Precisam parar de tratar a própria vocação como favor.

A música mudou a minha vida porque meus pais acreditaram antes de mim. Eles abriram mão da casa própria para que eu tivesse um piano. Por muitos anos, achei que precisava honrar essa escolha apenas com talento, estudo e trabalho duro. Hoje, vejo que honrar aquele gesto também é construir algo que alcance outras pessoas

Aquele piano não foi só um presente. Foi uma aposta. Meus pais apostaram que a música poderia me levar mais longe do que as condições da nossa casa pareciam permitir. Eu sigo essa aposta todos os dias, agora com outra missão: ajudar outros profissionais da música a olharem para o próprio trabalho com respeito, método e coragem.

Porque viver de música não é um sonho ingênuo. É trabalho. É empresa. É amor com estrutura. E, no meu caso, tudo começou com um piano que poderia ter sido uma casa.

 

Cintya Soares é musicista, empresária e mentora de professores de música e donos de escolas de música. 

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