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Cerca de 90 milhões de brasileiros não têm acesso à coleta de esgoto. É quase metade da população do país, um daqueles descalabros cotidianos que mantêm uma imensa parte do Brasil presa no século 19.
“O desafio do esgoto não é construir rede, tem tecnologia para isso. O desafio é garantir que essa rede seja usada”, afirma a engenheira civil Deise Coelho.
Com décadas de carreira em projetos de saneamento e urbanização de favelas, Deise é fundadora da Almerindas, uma startup de impacto que mescla tecnologia e inovação social para ampliar o acesso ao saneamento básico no país.
“Existe uma desconexão entre a infraestrutura entregue e o uso real das pessoas. E isso acontece por quê? Porque é preciso olhar para o território, considerar a realidade, ouvir as pessoas…”
A Almerindas combina tecnologia com visitas técnicas a favelas e bairros periféricos (como Brasilândia e Pirituba, na zona norte de São Paulo) para abastecer, com informações, gestores e empresas envolvidas em obras de saneamento.
A startup hoje presta serviço para um dos consórcios do programa Integra Tietê, iniciativa do governo paulista e da Sabesp para despoluir o principal rio do estado e seus afluentes.
Mãe de dois filhos e avó de dois netos, a pernambucana Deise tem 64 anos (faz 65 em novembro) e um sotaque vibrante que combina com seu jeito alegre e enérgico.
Ela empreendeu numa idade em que a maioria das pessoas sonha apenas com a aposentadoria. O nome da empresa, conta, foi inspirado em uma Almerinda de carne e osso que Deise conheceu em uma favela na Campina do Barreto, zona norte do Recife.
“Vi essa mulher criar quatro filhos e enfrentar, com muita bravura, os desafios de morar na favela, sem infraestrutura, com água precária. Quis homenagear essas Almerindas invisíveis que protagonizam o saneamento”
Sancionada em 2020, a lei federal conhecida como o novo Marco Legal do Saneamento determina que, até 2033, o abastecimento de água potável precisa alcançar 99% dos brasileiros, enquanto 90% deverão ter acesso à coleta e tratamento de esgoto.
“O sistema de esgoto sempre é o último a chegar”, diz Deise. É uma obra cara, porque trabalha na gravidade, você vai afundando o tubo… Água, pode subir e descer com o tubo, desde que esteja em pressão. O esgoto não, precisa da gravidade.”
Em pleno século 21, a engenharia segue sendo uma carreira muito masculina. Esse cenário era ainda mais evidente quando Deise entrou na Universidade Católica de Pernambuco, em 1980.
Pouco antes de concluir a faculdade (em 1984), ela foi estagiar no setor de orçamento da Compesa, a Companhia Pernambucana de Saneamento. Pegou gosto pelo tema, mas logo entendeu que não queria mexer apenas com cálculos e planilhas:
“Eu queria atuar em alguma modalidade da engenharia que tivesse impacto direto na vida das pessoas”
Em sua primeira década e meia de carreira, Deise mergulhou no tema saneamento, inicialmente como projetista de água, atuando para reduzir perdas.
Seu foco mudou da água para o esgoto quando ela conheceu e começou a trabalhar com o engenheiro José Carlos Melo na empresa dele, a Condominium. Ele se tornaria uma influência fundamental em sua formação.
Também pernambucano, José Carlos Melo é o criador do sistema de esgoto condominial. Em vez de cada casa de uma quadra se conectar diretamente à tubulação da rua, elas se conectam entre si, como se fizessem parte de um condomínio, o que barateia a obra.
“Esse sistema tem a seguinte metodologia: a solução precisa nascer da realidade das pessoas independente de onde elas estejam, da sua renda e da sua localização”
Com Zé Carlos, Deise aprendeu que o saneamento envolvia soluções técnicas, sim, mas também exigia mobilizar e trazer as pessoas para o centro. Esse aprendizado ocuparia o coração de sua vida profissional.
A partir de 2000, Deise desbravou novas oportunidades de implementar essa metodologia “técnico-social” ao iniciar uma nova fase como gerente de projetos na Diagonal, uma consultoria em gestão socioambiental.
Expandiu sua visão para além do saneamento, atuando em projetos de urbanização de favelas e reassentamento involuntário, quando a desapropriação de terrenos devido a grandes obras de engenharia força a realocação das populações afetadas.
Em 2006, Deise e o marido, também engenheiro, estavam em Moçambique a trabalho. A missão dela era reassentar mil famílias da região da Mina de Carvão de Moatize, explorada pela Vale. Até que o destino deu uma rasteira:
“Num domingo, meu marido teve um infarto fulminante e faleceu de morte súbita em Tete, a cidade onde a gente estava”
A morte de alguém querido é como a perda do território onde nos sentimos seguros, em casa. Enquanto trabalhava para realocar aquelas famílias expropriadas, Deise de repente percebia o chão sumir metaforicamente sob seus próprios pés.
Ela elogia o acolhimento recebido dos executivos da Diagonal e da Vale. O cuidado incluiu a presença de um padre para celebrar uma missa no aeroporto de Guarulhos.
De volta ao Brasil, a engenheira pernambucana se viu viúva, aos 44 anos, com dois filhos para criar. Esconder-se não era uma opção. Seria preciso vivenciar a perda e encarar a vida.
O projeto que ajudou Deise a reencontrar o prumo foi a reurbanização da Ilha de Deus, uma comunidade pesqueira em uma zona de mangue, na confluência de três rios.
A Ilha de Deus constava entre os piores IDHs do Recife, com dezenas de casas sobre palafitas.
“Quando a maré subia a ilha inteira alagava”, diz Deise. “As condições eram praticamente sub-humanas…”
A partir de 2009, e ao longo de sete anos, ela coordenou uma iniciativa encampada pelo então governador Eduardo Campos (1965-2014) para reconstruir e redesenhar aquele pedaço da cidade, acolhendo as opiniões e vontades dos moradores. “A gente realizou esse trabalho com muito afinco, com muita paixão, aprendendo com essa população…”
Uma mudança emblemática foi a reconstrução da ponte que ligava a ilha ao continente; a estrutura de madeira, precária, foi substituída por outra de concreto, batizada de Vitória das Mulheres em homenagem às lideranças femininas locais.
Ruas foram retraçadas; casas, demolidas e reerguidas em alvenaria. Havia ainda o desafio adicional de vencer a desconfiança da comunidade.
“Foi um projeto muito inovador e que me fez consolidar esse entendimento de que eu tinha que unir engenharia com social”
A reurbanização da Ilha de Deus consumiu cerca de 60 milhões de reais e virou livro. Para Deise, serviu ainda como impulso para superar o luto e tocar a vida em frente.
Em 2015, contando já trinta anos de carreira, Deise voltou a trabalhar com Zé Carlos, o amigo e mentor. Isso porque a empresa dele, a Condominium, foi adquirida pela Diagonal.
Naquele ano, a Diagonal conquistou um projeto junto à Compesa, com recursos do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), como parte do programa de despoluição do rio Ipojuca, que deságua em Porto de Galinhas.
O primeiro município previsto era Tacaimbó, no agreste pernambucano. Mas como falar em tratamento de esgoto numa região onde as pessoas dependiam de caminhão-pipa para ter água de beber? A resposta, diz Deise, passou pelo diálogo e pela adoção do sistema condominial.
“Conversamos com o BID, que aceitou que a gente entrasse nas casas para adequar a instalação hidrossanitária. Quebramos pisos, levamos o esgoto lá para a frente… Fizemos, com o recurso do programa, as obras dentro das casas”
Segundo a engenheira, ainda hoje há municípios do estado em que a conexão dos domicílios à rede de esgoto não chega a 5%. “Em Tacaimbó, quando acabamos a obra, 92% das casas estavam ligadas no sistema”, diz. “Isso virou um case.”
Para apresentar os frutos desse trabalho, Deise e Zé Carlos rodaram a América Latina. “Viajamos muito, fomos a Honduras, Argentina, Paraguai… A gente circulou dando cursos, olhando projetos de esgoto com a metodologia condominial.”
Também por encomenda do BID, Deise se debruçou sobre outro projeto, a coautoria de um guia de conectividade à rede de esgoto, publicado em 2020.
Naquele ano, Deise trocou Recife por São Paulo para trabalhar, pela Diagonal, na despoluição da Bacia do Rio Pinheiros, atuando com foco em projetos de esgoto em 50 favelas da sub-bacia Águas Espraiadas.
Ao cabo de dois anos, o programa de despoluição do Pinheiros (que mais recentemente vem sofrendo retrocessos) incluiu, segundo Deise, pelo menos 620 mil residências periféricas à rede de esgoto.
“Isso é maior do que muitas cidades grandes no Brasil. Se você multiplicar por três [moradores, em média, por domicílio] você tem quase 2 milhões de pessoas com esgoto que agora está indo para tratamento”
Beirando então os 60 anos e se sentindo “muito jovem”, ela foi se dando conta de que seu ciclo de duas décadas na Diagonal chegava ao fim. Mesmo com o coração apertado, decidiu que era hora de outra guinada.
“Conheci o Vitor Chaves, ele é engenheiro naval com mestrado em hidráulica e trabalhou comigo nesse projeto do Rio Pinheiros. Fiz um convite: ‘Por que a gente não monta uma empresa?’”
Vitor topou e juntos fundaram a Almerindas. Filha de Deise, Ana Carolina Coelho Maciel embarcou na empreitada e virou gerente financeira da startup, que hoje conta com 22 pessoas no time.
A Almerindas começou a operar em 2024, dando consultorias. Deise conta que fez um trabalho para uma das operadoras que queriam participar do leilão da Sabesp:
“Mapeei todas as favelas [do estado] de São Paulo, mais de 3 mil, fiz um overview dos déficits de água e esgoto. Usei dados secundários e também fiz visitas de campo”
Em áreas de ocupação desordenada, muitas vezes a realidade não condiz com as bases de dados da prefeitura ou os números do censo mais recente do IBGE — que também podem conflitar entre si.
“Quando as comunidades não têm espaço para expandir, elas se verticalizam”, diz Deise. “Você olha o mapa de cima, vê um telhado. Mas quando vai embaixo, tem uma porta e, dentro, quatro ou cinco casas.”
Para solucionar esses pontos cegos e municiar empresas de engenharia e outros atores do setor, a Almerindas desenvolveu uma ferramenta de georreferenciamento própria, batizada de Connect GIS:
“A gente idealizou essa plataforma a partir de dores do saneamento. Ela ajuda a enxergar o que normalmente é invisível: quais casas estão conectadas, quais não estão e por quê, permitindo uma tomada de decisão mais ágil, com mais precisão”
A plataforma é atualizada com informações colhidas in loco pela startup, combinando arrolamento domiciliar (que inclui visitas e entrevistas com os moradores e registro fotográfico das fachadas) e varreduras técnicas:
“Varredura é você ir pra rua, abrir as tampas [de esgoto], botar corante e ver aonde ele vai chegar”, diz Deise. “Aonde o corante chegou é porque o esgoto está indo para lá.”
Bater perna para coletar dados e ver de perto a realidade local é algo que Deise também aprendeu com Zé Carlos: “Engenheiro precisa sair do seu escritório e ir para a escala real, que é o território”.
Outra paixão de Deise é a educação. Em 2023, ela idealizou um curso de saneamento para favelas pelo Insper. “Eu estava na Diagonal ainda. Formatei o curso com toda humildade, chamei o pessoal para dar aula…”
A Almerindas também se engaja em atividades educacionais, no âmbito do programa Integra Tietê. A mais recente reuniu um grupo de jovens durante cinco dias, entre junho e julho, e incluiu uma visita a uma Estação de Tratamento de Esgoto.
O objetivo dessa iniciativa era formar multiplicadores ambientais e ajudar a demolir uma “barreira cultural” do saneamento:
“Ninguém vive sem água. Mas esgoto, as pessoas entendem que resolvem o problema [simplesmente] afastando de casa”
A formação que mexe de verdade com o coração de Deise aconteceu em maio. Em parceria com o Sebrae, foi uma capacitação de sete dias voltada a mulheres de Brasilândia, Pirituba, Freguesia do Ó (na capital paulista) e Guarulhos:
“Quando a gente chega numa comunidade, elas são as primeiras que nos acolhem, porque sabem que [quando] tem problema com a água, tem problema de doença de filho, tem que deixar de trabalhar para levar o filho no posto de saúde…”
O sonho de Deise é dar cada vez mais protagonismo a essas Almerindas da vida real. “A gente não quer só que elas trabalhem a difusão da importância do saneamento, mas sim que elas façam as obras.”
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