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Sim, eu fui morar sozinha na Europa aos 69 anos. Mas esta não é a primeira e nem será a última vez que mudo de vida.
Muitas dessas mudanças foram culpa da vida mesmo. E outras foram sonhadas, desejadas, namoradas, planejadas e realizadas. Tem dado um bom mix.
Há uns 40 anos, recém divorciada e com dois filhos pequenos, tive que mudar de apartamento por três vezes, num período muito curto, por conta de o proprietário pedir o imóvel para um familiar. Peças que a vida te prega!
Mudar de casa é trabalhoso, estressante e caro. Procurar, achar, negociar, fechar, empacotar e achar tempo para mudar. Ufa! E não é tudo: agora é pôr tudo no lugar.
E a vida não para. É um ir e vir, equilibrando os velhos e novos pratinhos no ar, sem deixar nenhum deles se espatifar no chão. Mas, como diz o ditado, “o que não tem remédio, remediado está”.
Antes dos filhos, teve uma viagem sonhada, desejada, planejada no detalhe e, sim, realizada.
O ano era 1988 e partimos, meu marido à época e eu, por ônibus e trens de São Paulo a São Francisco, na Califórnia, por terra. Foram quatro meses de viagem, passando por quase todos os países da América Latina, até entrar nos EUA pela agitadíssima fronteira de Tijuana, no México.
Tive também uma sociedade maravilhosa, que tinha tudo para dar certo e se tornar o negócio da minha vida. É, mas não deu. Fica uma lembrança poderosa de uma das coisas mais fantásticas a que me dediquei: a loja de bric-a-brac Naphtalina, que vendia objetos do cotidiano antigo
E os anos foram passando, veio outro marido, veio o desemprego (ô coisa horrorosa de se viver!), vieram novos trabalhos, uma nova longeva sociedade, muitas outras viagens, profissionais, a lazer e mistas; e rolou até sociedade com os gringos.
Finalmente, aos 53 anos, deixei mais uma sociedade e fui empreender sozinha, trabalhar com o futuro, esse lugar onde nada é impossível!
Começava, então, minha breve carreira como consultora de negócios e uma longa carreira de palestrante futurista, na Five Years From Now®, empresa que abri para excitar as mentes de empresários a pensar onde seus negócios poderiam estar dali a cinco anos.
Tudo isso pra dizer que, quando me mudei para a Europa, estava longe de ser a minha primeira virada de mesa. Por querer ou sem querer, minha vida tem sido tudo, menos monótona e estável. E eu gosto muito dela.
Não levo jeito para ser pessimista. Estava relendo o que acabo de escrever e, contando assim, nem parece que, na época, a vida me deu boas rasteiras, daquelas que faz a gente pensar se realmente há uma saída no fim do escuro túnel…
Há. Mas é muito difícil achar a luz sozinho(a). Vivemos tempos em que as boas soluções vêm de cabeças diversas, pensando junto.
Me lembrei agora que, bem no comecinho de 1984, eu me divorciei, me mudei de apartamento e saí da sociedade da loja no mês seguinte. Turbilhão: tudo junto e misturado.
Como muita gente, eu também me pus a pensar nas vidas durante a pandemia. Na vida no planeta e na minha própria vida. Aquele mergulho que mais dia, menos dia, a gente tem que fazer, apesar de fugirmos disso como o diabo foge da cruz.
Naquele fatídico março de 2020, eu fiz 67 anos. Uma semana depois o mundo se fechou. Minha mãe tinha 87. E não é que a matemática seja difícil, é a gente que não quer ver que, de repente (de repente, mesmo), ganhamos pelo menos mais 30 anos de vida. Tá ligado? Que outras vidas podemos viver dentro dessa nova vida que foi acoplada ao nosso timeline?
Somos a primeira geração a posar essa questão existencial. Não há experiências de sucesso ou fracasso, bíblias ou gurus, que presenciaram uma longevidade esticada. É a primeira vez para todo mundo
Quando cai essa ficha de que estamos vivendo e vamos viver mais, uma pergunta emerge: posso ter outras vidas? Ou, melhor ainda: posso pensar em novos roteiros para a minha vida?
Porque, reflita comigo, a maioria de nós viveu um roteiro que foi herdado e cumprido e nem demos pitaco. E não mais que de repente, podemos olhar seriamente para os nossos mais loucos devaneios e ousar a realizá-los. Há tempo.
Um dos meus sonhos era morar na Europa. E pra mim, morar é no mínimo dois anos.
Eu tinha 67, era agora ou agora. Comecei com algumas perguntas inconvenientes:
— Ainda dá pra viver outras vidas nessa vida?
— Dá pra fazer sonhos virarem realidades?
Dá, mas temos que abandonar o roteiro do século 20: estudar → trabalhar → aposentar → morrer e fim. Porque neste século 21, parece que esse fim se esqueceu de acabar. E é chato demais tentar esticar a mesma ladainha por mais 20, 30, 40 anos.
O que fazer então com esses anos adicionais que insistem em fazer parte da nossa história?
Pensar em outras vidas.
E assim nasceu o Projeto 69: uma espécie de laboratório de uma nova vida futura. E eu fui a cobaia
Foram dois anos quebrando a cabeça para colocar o sonho em pé: se livrar de excedentes (oh, como consumimos e guardamos inutilidades!), juntar dinheiro para viver dois anos em Lisboa, deixar tudo organizado no Brasil para quando eu retornasse.
É muito planejamento. É muito detalhe. É muito desprendimento. E jogo de cintura afinado para improvisar.
Desarrumei uma vida e arrumei uma nova. Listei 300 tarefas. Joguei muita tralha fora. Doei de tudo. Arrumei as malas. E fui morar sozinha na Europa
Tem gente que me considerou corajosa, outros acharam imprudente, inconsequente, desnecessário. Irresponsável. “É louca!”.
Estão certos: é preciso uma dose de tudo isso para dar esse passo que atravessa um oceano.
Mudar é muito bom pra pele, pro coração, pra circulação e articulação, pra fazer novos amigos, conhecer novas esquinas, novas praças, sentir cheiros e degustar novos sabores. Se perder num lugar novo e se achar no desconhecido.
Mudar é altamente recomendável para pessoas que se sentem inquietas, asfixiadas, que sentem que seu roteiro atual ficou apequenado, mas não sabem qual é o próximo passo.
Pra quem já tem filhos crescidos, carreira construída, pais envelhecendo, netos chegando.
Síndrome do ninho vazio? Se aposentou? Mude. É muito bom pra nós, mulheres cansadas de nos sentirmos invisíveis, mas que vemos claramente nossas novas vidas no futuro
Quando a gente muda, muita coisa acontece sem que a gente se dê conta, sem que vire um peso, um “job”. Fica mais fácil explorar, aprender coisas novas, fazer perguntas, se informar, se interessar por outras diversões e outros tipos de humanos, as tais pessoas.
Acontece o entusiasmo pelo desconhecido. Por novos jeitos de viver e novos futuros possíveis.
Não é uma fórmula, pelo contrário. É uma abertura para se criar um novo roteiro de vida para essas décadas acrescentadas à nossa vivência. É viver mais. Mas estamos vivendo mais vida?
Comecei a compartilhar o dia a dia das primeiras preparações, decisões e tarefas para colocar o Projeto 69, em pé, pelo WhatsApp para uma lista de 2.000 pessoas, entre amigos, clientes e interessados.
E assim nasceram as agora “famosas” #banalidadesdeviagem. Nome, aliás, que foi escolhido pelos fãs para batizar as pequenas histórias e perrengues do cotidiano do Projeto 69. E foi assim que nasceu essa comunidade que me acompanha até hoje.
Me mudei sozinha para Lisboa após quase dois anos de preparação, em fevereiro de 2023, e dali a um mês completaria 69 anos, o nome do projeto. E aí, as crônicas se intensificaram.
Pequenos relatos sobre cafés, comidas, vinhos, pessoas, ruas, encontros, desencontros, burocracias, amizades, sustos e descobertas compartilhados com milhares de pessoas me acompanhavam na experiência de caminhar, me perder, me encontrar pelas ruas e ladeiras lisboetas.
E o inesperado: os relatos tão pessoais começaram a despertar perguntas universais. Perguntas e trocas com mulheres e homens mais velhos, mais novos, pessoas que nunca viajaram, outras que conheciam meio mundo
Com gente que me conhecia muito bem e outras que eu conhecia só das redes sociais. A plataforma do zap era perfeita para isso: textos, fotos, vídeos, emojis e a interatividade na veia.
E não tardaram as perguntas sobre coragem, liberdade, envelhecimento, medo, curiosidades sobre a Europa, o cotidiano do supermercado, do preço do aluguel, sobre termos e conceitos desconhecidos.
Sobre recomeços. Sobre quem ainda podemos nos tornar. Alguns se diziam já influenciados e pensando em seus futuros com novos roteiros, outros ainda só assistindo de camarote. E os fãs mais ardorosos, começaram a me pedir um livro das banalidades. Para mim, uma ideia esdrúxula. Pra que um livro?
Quando amigos escritores, leitores das #banalidades, também insistiram no livro, comecei a dar o braço a torcer. A gota d’água foi quando meu filho Guido, designer, me disse que passava horas pensando em como transpor as banalidades para um livro, sem perder a interatividade do zap
A resposta está no livro FUI Morar Sozinha na Europa aos 69 anos. Reúne os mais de 80 “posts” enviados durante 2 anos, de 2023 a 2025.
Ao longo de 336 páginas de textos, 160 fotografias, 79 vídeos acessados por QR Code e uma narrativa que pode ser lida de diferentes maneiras, rompi as fronteiras entre livro, diário, plataforma digital, conversas, encontros improváveis e lembranças e tombos de outras viagens.
Não é um guia de viagem, e tampouco um livro sobre as minhas viagens. Europa é apenas o cenário. Mas tem sim dicas muito boas e três índices meticulosos. Também não é livro de autoajuda, até porque desconfio das respostas corretíssimas para tudo e todos. O FUI é sobre o meu ir.
Talvez seja um livro sobre perguntas que começaram como uma mudança geográfica e acabaram se transformando numa investigação sobre longevidade, liberdade e novo roteiro para os novos futuros
Um livro sobre a estranha possibilidade, agora nossa contemporânea, de viver outras vidas nessa vida. Na sua cabem outras vidas?
Beia Carvalho é palestrante futurista, fundadora e presidente do think tank 5 YEARS FROM NOW®, um espaço para a reflexão sobre o futuro dos negócios. Publicitária premiada com quatro leões em Cannes, integra os coletivos CEOlab e London Futurists.
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Em 2021, Manu Colombo se mudou com a família para Ilhabela, no litoral paulista. Ela conta como essa decisão aprofundou seu entendimento sobre a importância de assumir responsabilidade pelo futuro da comunidade em que escolhemos viver.
Cleber Santos não tinha casa nem emprego, mas tinha a companhia de Grafit, um cachorro de rua. Ele conta como a relação com o animal virou o ponto de partida para uma guinada que o levou a criar sua própria empresa do setor pet.
