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Uma pergunta começou a me acompanhar ainda na universidade, quando eu cursava Economia na USP. Como criar oportunidades de renda para famílias que vivem de atividades importantes para o meio ambiente, mas que quase nunca conseguem ficar com uma parte justa do valor que elas mesmas geram?
Essa dúvida surgiu de uma experiência que, na época, eu nem imaginava que teria tanta influência na minha vida.
Durante umas férias da faculdade, fui para o Sul da Bahia atrás de forró e praia — história clássica de estudante, né? — e acabei acampando no quintal de uma família indígena. Daquela experiência nasceu uma amizade que continuou mesmo depois que voltei para a faculdade
Na reta final do curso, procurei o professor Paul Singer (1932-2018), uma das principais referências da economia solidária no Brasil, e pedi para que ele orientasse minha monografia. Passei seis meses dentro de uma terra indígena, convivendo com aquelas famílias e conhecendo de perto seus desafios, suas formas de organização e seus conhecimentos.
Quando voltei para São Paulo, percebi que alguma coisa tinha mudado na forma como eu enxergava minhas possibilidades de trabalho. Eu não queria mais apenas estudar aqueles problemas ou escrever sobre eles. Queria passar a vida tentando encontrar caminhos para enfrentá-los.
A partir dessa vontade, fundei uma consultoria, a Mandū Inovação Social, a barca que construí para continuar navegando nessa direção.
Quando comecei a estruturar a organização, uma das primeiras perguntas foi bastante óbvia: por que não uma ONG?
Trabalho social, impacto, comunidades, terceiro setor… tudo parecia apontar para esse caminho. Mas sempre me incomodou a ideia de separar impacto de negócio, como se uma coisa tivesse que estar de um lado e a outra, do outro.
Eu não achava que uma empresa fosse melhor do que uma organização do terceiro setor. Só pensava que também era possível usar a lógica dos negócios para construir soluções que tivessem impacto e conseguissem se sustentar financeiramente. Foi por isso que escolhi empreender.
Só que, conforme comecei a viajar pelo Brasil e trabalhar com diferentes comunidades, fui entendendo que transformar essa vontade em um negócio seria muito mais complexo do que simplesmente criar bons projetos
Durante muito tempo, eu chegava aos territórios com projetos estruturados, planilhas impecáveis e a convicção de que sabia o que precisava ser feito. Até perceber que estava começando pelo lugar errado.
Antes de pensar na solução, eu precisava entender o problema. E, principalmente, ouvir quem vivia aquela realidade.
Essa foi uma das mudanças mais importantes na minha forma de trabalhar. Cada comunidade tem seus próprios conhecimentos, experiências, necessidades e formas de fazer. Uma solução que funciona em um território pode não fazer sentido em outro. Conforme a Mandū foi evoluindo, a gente foi aprendendo, na prática, que desenvolvimento comunitário não tem receita de bolo.
Antes de qualquer capacitação, precisamos entender as vocações daquele território e, principalmente, os desejos reais das pessoas. Não aquilo que nós, de fora, achamos que elas deveriam desejar. Quando chegamos com uma ideia pronta, corremos o risco de tentar resolver um problema que não é prioridade para quem está ali. As formações vêm depois, de modo que façam sentido no cotidiano.
Essa mudança também transformou a maneira como passei a olhar para a pobreza. Quando medimos sucesso apenas pela renda, enxergamos muito pouco. Uma família pode aumentar o quanto ganha e ainda continuar vulnerável se a infraestrutura, a saúde e a educação ao seu redor permanecem precárias
Desenvolvimento é uma engrenagem: quando uma dessas partes não funciona, todo o sistema sente.
A gente começou a perceber também que aumentar a renda, sozinho, não resolvia tudo. Quando trabalhamos com uma comunidade, precisamos entender quais são as despesas, onde estão as maiores dificuldades e o que pode ser feito para que aquele dinheiro realmente se transforme em mais segurança e autonomia.
Muitas pessoas nunca tiveram a oportunidade de olhar para a própria vida financeira dessa maneira: entender de onde o dinheiro vem, para onde vai e quais escolhas podem ser feitas. Quando conseguem fazer isso, o resultado não é apenas ganhar mais. É ter mais precisão para tomar decisões, planejar e pensar no próprio futuro.
Convivendo com diferentes comunidades, percebi que essa lógica valia para a relação entre empresas e territórios. E aí existe um desafio grande. Aproximar esses dois mundos não é simples.
Existe uma memória histórica no Brasil e na América Latina que associa o comércio à exploração, e as comunidades sabem quando estão sendo usadas. Quando alguém chega com uma apresentação bonita, uma solução pronta e pouca disposição para ouvir, a desconfiança aparece rapidamente. E, sinceramente, eu entendo.
Não dá para entrar em um território querendo acelerar tudo no ritmo de uma empresa. É preciso entender a cultura local, respeitar o tempo de quem está ali e reconhecer que existe muito conhecimento naquele território que não está em nenhuma planilha ou apresentação
Comecei, aí, a entender melhor qual poderia ser o papel da Mandū. Não era chegar com a resposta pronta. Era ajudar a aproximar mundos que muitas vezes não conversam. Sentar com a comunidade, com a empresa e, muitas vezes, com o governo, ouvir cada lado, entender os problemas e as oportunidades e construir uma relação que faça sentido para todo mundo. É ser a ponte!
Penso especialmente nas famílias que vivem da coleta e do beneficiamento de produtos da sociobiodiversidade. Elas estão na origem de cadeias que geram valor para empresas, consumidores e territórios, mas muitas vezes ficam com uma parcela pequena desse valor.
Então, a pergunta volta a aparecer: o que precisa mudar para que essas famílias tenham mais autonomia, gerem prosperidade e poder de decisão sobre aquilo que produzem?
Um dos maiores giros acontece quando a empresa deixa de ser apenas “doadora” e passa a ser uma “compradora”. Parece uma mudança de palavra, mas é muito mais do que isso. A empresa deixa de enxergar aquela comunidade apenas como alguém que precisa receber ajuda e passa a reconhecê-la como parte da própria cadeia produtiva
Na Amazônia, por exemplo, grandes indústrias começam a competir por produtos da bioeconomia. Se uma empresa quer garantir abastecimento no futuro, precisa olhar para quem produz hoje e criar condições para que essas pessoas continuem produzindo. Não adianta querer o produto amanhã se quem produz hoje não consegue viver dessa atividade.
A relação deixa de ser uma ajuda de fora para dentro e passa a reconhecer o valor de quem está na origem. Para mim, esse é um tipo de relação que pode gerar muito mais transformação.
Essa forma de pensar também me levou a outro desafio: como levar tecnologia para quem mais precisa sem criar mais uma promessa bonita que não funciona na prática?
Dessa inquietação surgiu a Amanda, uma inteligência artificial feita para quem atua no terceiro setor. Na Mandū, ela já é utilizada para apoiar atividades como gestão de projetos, organização de informações, produção de documentos, registro de aprendizados e acesso a conteúdos institucionais.
Em um projeto realizado no Maranhão, por exemplo, mobilizadoras locais passaram a utilizar a Amanda no acompanhamento das atividades, para transformar informações coletadas em campo em relatórios e fortalecer a gestão do conhecimento.
Confesso que meu receio era criar uma ferramenta interessante na teoria, mas sem utilidade para quem está no campo. Por isso, testamos, erramos, ajustamos e voltamos para o campo. A Amanda precisava funcionar dentro da realidade do campo, e não exigir que eles mudassem completamente a maneira como fazem as coisas para conseguir usar a tecnologia.
Essa é outra coisa que aprendi trabalhando com comunidades: a solução precisa se adaptar à realidade. Não adianta criar algo tecnicamente incrível se aquilo não cabe na rotina e nas condições de quem vai usar
Hoje, quando vejo uma comunidade, o que me deixa feliz não é a inteligência artificial em si. É perceber que construímos algo que faz sentido para quem está do outro lado. Para mim, esse é o verdadeiro teste: a solução precisa funcionar na vida real.
E, de certa maneira, é a mesma lição que aprendi naquela terra indígena, ainda na faculdade. Não adianta construir uma solução sem conhecer a vida de quem vai usá-la.
No começo, eu achava que meu trabalho seria encontrar soluções. Hoje, penso que é criar condições para que elas sejam construídas com quem conhece o problema melhor do que ninguém.
Depois de mais de 22 anos nessa estrada, com mais de 30 programas e projetos implementados por ano e mais de 200 milhões de reais em projetos captados e executados, acumulei experiências muito diferentes entre si.
Vi projetos darem certo, outros precisarem ser refeitos no caminho e, principalmente, aprendi que ouvir quem vive o problema é sempre o melhor ponto de partida. E assim, algumas coisas ficaram muito claras para mim.
Hoje, não consigo mais separar renda de saúde, ESG de comunidade ou inovação de escuta. Uma coisa está ligada à outra. Se queremos falar de desenvolvimento, precisamos olhar para o conjunto e entender que não existe uma solução única capaz de resolver tudo
Também aprendi a desconfiar das respostas muito rápidas. Desenvolver comunidades exige desaprender a ideia de que temos a resposta pronta e aceitar um processo que envolve chegar, ouvir, construir junto, errar, ajustar e, muitas vezes, começar de novo.
Foi por isso que escolhi empreender por meio de uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público). Acredito que não precisamos escolher entre o empreendedorismo e o terceiro setor, mas unir o que os dois têm de melhor.
Se os negócios podem ser ferramentas de transformação, as organizações sociais também podem incorporar inovação, gestão e sustentabilidade para ampliar seu impacto. É nessa interseção que acredito ser possível construir soluções mais consistentes para problemas históricos
Mas, para isso, é preciso mudar a pergunta. Em vez de “Como podemos ajudar?”, talvez seja mais interessante: “Como podemos construir uma relação em que todos tenham valor, responsabilidade e algo a ganhar?”.
Essa maneira de pensar muda a forma de desenhar um projeto e também de enxergar quem está na ponta da cadeia. A comunidade deixa de ser apenas “beneficiária” e passa a ser parte da construção, com conhecimento, trabalho e capacidade de decisão.
A Mandū nasceu, no fundo, dessa tentativa de juntar coisas que durante muito tempo pareciam estar separadas: o que aprendi na academia, o que aprendi no campo e o que aprendi sobre negócios.
Quanto mais tempo passo fazendo isso, menos acredito em respostas prontas e mais acredito em construir respostas junto com quem vive o problema, o que chamamos de cocriar
Se queremos que as famílias tenham mais renda, autonomia e poder de decisão, precisamos entender o que elas já sabem, o que precisam e como empresas, governos e comunidades podem construir relações mais justas.
E, depois de tantos anos, continuo achando que a melhor forma de encontrar essas respostas é aquela que aprendi no começo: chegar, ouvir e construir junto.
Felipe Bannitz é fundador e CEO da Mandū Inovação Social. Mestre em Gestão e Políticas Públicas pela FGV/EAESP, bacharel em Ciências Econômicas pela FEA-USP, com especialização em Economia Solidária e Tecnologia Social pela Unicamp e em Empreendedorismo pela Babson College (Boston, EUA). Fellow da Ashoka Empreendedores Sociais.
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