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“Viver exige coragem para admitir o que deixa de fazer sentido e disposição para descobrir o que vem depois”

Marina Miranda - 25 set 2026 Marina Miranda, fundadora da Be Clean.
Marina Miranda, fundadora da Be Clean.
Marina Miranda - 25 set 2026
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Nasci em São Caetano do Sul, mas me considero lemense. Foi em Leme, no interior de São Paulo, que cresci com meus pais e meu irmão mais novo. 

Tenho uma família muito unida e, olhando para trás, percebo que uma das coisas que mais me ajudaram a chegar até aqui foi ter crescido em uma casa onde me instigaram a sonhar.

Meus pais nunca limitaram minhas vontades e sempre me apoiaram quando eu quis experimentar algo novo. Acho que isso explica, em parte, uma característica que me acompanha até hoje: eu tenho muita curiosidade. 

Gosto de estudar, gosto de entender como as coisas funcionam. E, principalmente, adoro descobrir algo que ainda não sei.

CRESCI ACREDITANDO QUE QUERIA SER PUBLICITÁRIA, MAS ODIEI O CURSO

Desde os meus 12 anos, eu dizia que queria fazer Publicidade e Propaganda na ESPM. Assim, aos 15, tinha certeza absoluta de que era aquilo que faria da minha vida. 

Hoje, lembro disso e dou risada… 

Estudei publicidade durante um ano e meio. Nos primeiros seis meses, já sabia que não queria estar ali. Não me identifiquei. O primeiro ano era muito voltado para criação, e eu não me sentia criativa. A ideia que eu tinha do curso e a realidade da prática eram bem diferentes.

O problema é que eu não tinha uma segunda opção. Eu tinha acreditado por tanto tempo que aquele era o meu caminho, que ter de admitir que não queria mais aquilo era como reconhecer que eu tinha fracassado.

Também tinha um peso financeiro. A faculdade era cara e meus pais ficaram orgulhosos de me ver ali. Eu tinha medo de decepcioná-los. Demorei até conseguir falar, mas lembro de um domingo à noite em que liguei para o meu pai e disse: “Eu odeio o curso”

No dia seguinte, minha mãe foi me buscar. E apesar de meu pai ter me pedido seis meses para pensar, eu não consegui respeitar esse tempo, porque tinha essa pressa e essa preocupação de saber o que faria da minha vida. 

Comecei a fazer cursinho, sem nem saber o que eu iria estudar. Mas uma possibilidade tinha surgido ainda na faculdade de Publicidade. As aulas de Ética e CONAR eram as minhas preferidas, com discussões sobre regras, responsabilidade e sociedade. E foi aí que pensei que talvez pudesse gostar de Direito. 

O ESTUDO DO DIREITO ME ENCANTOU, MAS A PRÁTICA DA ADVOCACIA TROUXE UMA SENSAÇÃO DE IMPOTÊNCIA

Entrei em Direito na PUC Campinas e me apaixonei pelo curso. Gostava da faculdade, das discussões, principalmente das matérias de Direitos Humanos e Direito do Trabalho. 

No terceiro ano, estagiei no Tribunal Regional do Trabalho e tive contato mais próximo com a área trabalhista. Foi uma experiência importante porque encontrei um ambiente que me incentivava a estudar, entender os processos e pensar.

Eu terminei a faculdade em 2015 e continuei em Campinas. Trabalhei e por um período, achei que meu caminho seria estudar para concurso público. Comecei a estudar em 2016. Passei um ano praticamente dentro de um quarto, cercada de livros – e foi quando percebi que aquilo também não era para mim.

Gosto de gente, gosto de rotina, de troca, de conversa. E eu amava estudar. Mas aquela forma de estudar, isolada e com a vida acontecendo do lado de fora, não fazia sentido para mim

No início de 2018 voltei para Leme, onde comecei a advogar nas áreas trabalhista e previdenciária e também a dar aulas. E eu gostava muito de ensinar. 

A sala de aula foi, durante bastante tempo, o lugar em que eu mais sentia que conseguia colocar em prática aquilo que sempre me moveu: discutir ideias, provocar reflexões e pensar em como as coisas poderiam ser diferentes… Mas a prática da advocacia começou a me frustrar.

Eu entrei no Direito porque tinha um senso de justiça muito forte, e acho que muita gente entra nessa profissão com vontade de mudar o mundo. 

O estudo do Direito me encantava, mas a prática me trouxe uma sensação de impotência que foi ficando cada vez maior. Comecei a me perguntar se aquilo ainda fazia sentido para mim. 

Eu tinha conquistado uma estrutura profissional, pagava minhas contas, tinha experiência e uma carreira construída. Ao mesmo tempo, sentia que estava cada vez mais distante do que queria fazer

O que eu queria era autonomia. Queria criar algo novo e ver aquela ideia acontecendo na realidade. 

UMA CRISE DE SAÚDE E UM DOCUMENTÁRIO MUDARAM MINHA PERCEPÇÃO SOBRE PRODUTOS DE BELEZA

Nessa mesma época, já trabalhando e ainda pensando em uma mudança de carreira, comecei a ter zumbidos e dores no ouvido. No início, achei que não fosse nada sério, mas os episódios foram se tornando mais frequentes. 

Fiz exames, procurei entender o que estava acontecendo e passei meses convivendo com aquela sensação de que minha audição poderia piorar. Ao mesmo tempo, minha rotina continuava: trabalho, aulas, estudos.

Até que uma amiga me indicou o documentário Not So Pretty. O ano era 2023 (o documentário hoje está indisponível no Brasil). Comecei a assistir e, no início, estava bastante cética. 

Porém, no último episódio apareceram relatos de pessoas que associavam problemas de saúde – inclusive com sintomas iguais aos meus – ao uso de determinados produtos para cabelo. Uma pessoa chegou a precisar de aparelho auditivo. Para piorar, uma das marcas citadas era justamente uma que eu usava. Aquilo me assustou

Não digo que aquele documentário me deu uma resposta médica para o que eu estava sentindo. Não tive um diagnóstico que comprovasse que um produto havia causado meus sintomas. Mas o fato é que, depois de parar de usar, os sintomas simplesmente desapareceram. 

Aquela experiência mudou a forma como eu olhava para os cosméticos. Fiquei intrigada para entender o que estava usando. E comecei – de novo – a estudar. 

“POR QUE NÃO UM APP?”: A IDEIA DE CRIAR UM APLICATIVO SURGIU EM UMA CONVERSA COM UMA AMIGA

Pensando bem, sempre fui vaidosa. Minha mãe tem fotos de quando eu era criança, com batom espalhado no rosto inteiro, porque eu pegava a maquiagem dela para brincar. Então era um cenário que já despertava me chamava atenção. 

Assim, comecei a assistir a outros documentários, li livros, fiz cursos e comecei a olhar os rótulos dos produtos que estavam na minha casa. Cada compra passou a levar horas. Eu pegava um produto, olhava os ingredientes e tentava descobrir o que cada nome significava.

No começo, fiz isso de uma maneira quase desesperada. Joguei muito produto fora. Hoje, inclusive, não é o que recomendo. Acho que a informação deve servir para fazer escolhas conscientes, não para gerar medo. Mas naquele momento eu ainda estava tentando entender

Também descobri que os aplicativos que apareciam no documentário não funcionavam no Brasil. Quando viajei para os Estados Unidos, consegui usar alguns deles e percebi como aquela ferramenta mudava completamente a experiência de compra. Mas voltei e a dificuldade continuava. 

Daí, comecei a pensar que talvez houvesse algo que eu pudesse fazer.

No princípio, pensei em trabalhar com produtos de beleza limpa. Cheguei até a imaginar uma marca de produtos para cabelos cacheados, porque eu mesma tinha dificuldade para encontrar alguns dos produtos que procurava.

Um dia, estava conversando com uma amiga sobre os aplicativos que eu tinha usado fora do Brasil, e ela me perguntou: “Por que você não faz um app?”. Eu pensei: “Por que não?” 

Passei a estudar ainda mais. Eu queria entender não só os ingredientes, mas o mercado, o comportamento das pessoas, a tecnologia e o modelo de negócio que queria construir. Fiz cursos, pesquisei, li muito. E comecei a desenhar um plano de negócio. 

PRECISEI ESCOLHER ENTRE A CARREIRA COMO ADVOGADA E A JORNADA À FRENTE DA MINHA STARTUP

Em 2023 a empresa começou a ganhar forma, mas eu ainda era advogada. E essa talvez seja uma das partes que mais me orgulho hoje, porque não foi uma decisão impulsiva de largar tudo e torcer para dar certo. 

Eu precisava pagar minhas contas. Precisava entender até onde podia ir. Fui construindo uma reserva financeira e, aos poucos, reduzindo minha atuação na advocacia.

Mesmo assim, tive muito medo.

Empreender pela primeira vez é uma loucura de insegurança. Eu acreditava na ideia da Be Clean. Sabia que, como consumidora, sentia falta daquele produto. Acreditava que poderia criar uma empresa com os valores em que acredito… mas acreditar não faz o medo desaparecer

Durante muito tempo, fiquei tentando conciliar tudo. Advocacia, aulas, estudos e a empresa. Até perceber que não dava mais. Eu estava dormindo pouco, não tinha fim de semana. Eu precisava escolher. 

No fim de 2025, decidi que ficaria só com a Be Clean. Foi mais do que deixar uma profissão: foi assumir, para mim mesma, que nunca é tarde para recomeçar e mudar de caminho para se encontrar. 

MINHA CRENÇA NO PROPÓSITO DA BE CLEAN ME FEZ SUPERAR O MEDO DO FRACASSO

Hoje, quando penso na Marina de alguns anos atrás, vejo várias versões minhas. A menina que achava que faria publicidade para sempre. A estudante que se apaixonou pelo Direito. 

A advogada que acreditou que aquela seria sua profissão pela vida inteira. A professora. E a mulher que, aos 30 anos, começou a pensar seriamente em mudar de carreira.

Eu não acho que nenhuma dessas Marinas estava errada. A gente toma decisões muito cedo sobre o que vai fazer “para o resto da vida”. Só que o resto da vida é tempo demais para uma decisão que você tomou quando era muito jovem.

Quanto mais a gente estuda, vive e ganha experiência, mais natural deveria ser mudar. Mudar de opinião, mudar de ideia, descobrir que alguma coisa que fazia sentido antes já não faz mais

Isso não significa que seja fácil. Eu tive apoio da minha família, e reconheço esse privilégio. Tive condições que muitas pessoas não têm. Também precisei fazer contas e entender o momento certo de fazer cada movimento.

E, mesmo hoje, o medo não acabou. Tem dias em que eu acordo e penso: “Caraca, o que eu estou fazendo? E se der errado?”. Mas acho que a coragem está justamente aí. 

Eu acreditava muito no propósito da Be Clean e queria tanto tirar esse projeto do papel que, apesar do medo, não deixei que ele me paralisasse. Fui em frente e me joguei em entender como viabilizar aquilo e transformar em realidade o que eu tinha imaginado, sem diminuir o que eu enxergava e acreditava para a Be Clean como negócio. 

Prefiro tentar e descobrir que não deu certo do que passar a vida imaginando como teria sido se eu tivesse tentado. Porque quando você realmente acredita no que está fazendo, o medo não desaparece: você só começa a entender que não pode deixar que ele escolha por você 

E, para mim, foi isso que o propósito da Be Clean fez. Me deu um motivo para ir em frente, mesmo com medo.

PASSEI BOA PARTE DA VIDA BUSCANDO A ESCOLHA CERTA. HOJE, ACHO QUE NÃO HÁ NADA TÃO DEFINITIVO ASSIM

A Be Clean me transformou de um jeito que eu não esperava. Eu me tornei CEO de uma empresa de tecnologia, tive que estudar coisas que nunca imaginei e precisei aprender a me posicionar em um mercado ainda muito masculino. 

Também aprendi a lidar com uma velha conhecida: a síndrome da impostora. Às vezes ainda penso se dei sorte, se realmente sou capaz de fazer tudo isso e preciso me lembrar de que sorte não explica tudo. Eu estudei, trabalhei, errei, insisti e fiz acontecer.

A Be Clean também me devolveu a sensação de que sou criativa. Na faculdade de publicidade, eu não me sentia assim. Hoje, penso em cada detalhe do aplicativo, em novas funcionalidades, na forma como a informação vai aparecer, em como podemos tornar mais fácil um assunto complexo

Junto com essa liberdade veio uma responsabilidade enorme. Tem uma equipe trabalhando comigo, gente que depende desse negócio. Talvez por isso estudar continue sendo tão importante. Eu não quero parar de aprender porque agora tenho uma empresa. É justamente o contrário: quanto mais eu avanço, mais percebo o quanto ainda não sei. 

E tudo isso tem muito a ver com o propósito da empresa. Eu quero tornar mais acessível uma informação que está ali nos rótulos, mas que nem sempre é fácil de entender, para que as pessoas saibam o que estão colocando na pele e no cabelo. 

Não quero que ninguém olhe para um ingrediente com nome difícil e tenha medo. Quero que consiga entender para que ele serve, quais podem ser seus impactos e, a partir disso, tenha mais clareza para tomar uma decisão.

No fim, não me cabe dizer o que alguém deve ou não usar. Cada pessoa tem suas necessidades, suas prioridades e o que faz sentido para ela. O meu papel é dar informação para que essa escolha seja realmente sua. É aí que está o poder da escolha: quando você entende o que está por trás dela

Quando penso no futuro, não tenho uma lista fechada de tudo que quero. E, pela primeira vez, isso não me assusta. Eu passei boa parte da vida tentando descobrir a profissão certa, o caminho certo, a escolha definitiva. Hoje, acho que não existe nada tão definitivo assim. 

Talvez a vida seja mais sobre prestar atenção no que deixa de fazer sentido, ter coragem para admitir isso – e disposição para descobrir o que vem depois.

 

Marina Miranda, 35, é advogada, professora e fundadora da Be Clean, plataforma de análise de ingredientes de cosméticos e produtos de higiene pessoal. Com mais de uma década de experiência na área jurídica, atuou como advogada trabalhista e previdenciária e como professora de Direito. Em 2022, após uma reação causada por um produto de higiene, passou a pesquisar mais sobre os ingredientes presentes nos produtos que consumimos no dia a dia. A experiência deu origem à Be Clean, criada para tornar a informação sobre formulações mais clara, acessível e equilibrada para os consumidores.

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