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As vozes da dúvida sempre aparecem no momento em que você acha que tem a vida sob controle. Para mim, essa ilusão de controle atendia por alguns nomes bem conhecidos do mundo corporativo: salário fixo no começo do mês, décimo terceiro garantido, FGTS caindo na conta e o crachá de supervisora em uma multinacional. Durante anos, acordei acreditando que essa estrutura era o sinônimo perfeito de segurança.
Até que percebi que estabilidade não é garantia de absolutamente nada e muito menos de felicidade.
Eu vivia no piloto automático, dividindo a rotina acelerada da empresa com o amor e a dedicação que já dedicava aos cachorros nas horas vagas. Chegou um ponto em que a conta não fechava mais. Minha cabeça estava em um lugar e meu corpo em outro.
O ponto de virada definitivo aconteceu quando tirei férias na multinacional. Em vez de descansar, passei trinta dias trabalhando incansavelmente com os cães
Aquele mês virou meu divisor de águas. Foi ali que olhei para o mercado, vi que existia uma demanda gigantesca por um trabalho sério de comportamento animal e me fiz a pergunta que mudou minha vida: “Qual caminho eu quero trilhar a partir de agora?”.
A resposta estava escancarada. Quando o período de folga acabou, voltei para a multinacional para comunicar o fim do meu ciclo. E fiz questão de ir usando literalmente a camisa da empresa que eu e minha esposa tínhamos acabado de abrir. Ali, o crachá deu lugar ao meu verdadeiro propósito.
Se transicionar de carreira já dá um frio na barriga devastador, fazer isso acompanhada da responsabilidade de construir uma empresa a quatro mãos é um teste de fogo.
Toda a estruturação inicial da Creche Escola BFA nasceu com a ajuda e o incentivo direto da minha esposa e sócia, Anna Silva. Foi ela quem me apresentou o universo do adestramento e me deu o empurrão que faltava para transformar a paixão em técnica. Mas engana-se quem pensa que o começo no Brasil foi um “mar de rosas”.
A gente carrega uma romantização gigante do empreendedorismo, achando que ser o próprio chefe é sinônimo de liberdade de tempo. A real? Nos primeiros anos, você trabalha o triplo, não ganha quase nada e dorme pensando se os boletos do mês seguinte vão fechar
Para piorar, nós tomamos uma decisão estratégica radical desde o dia um: priorizar a exclusividade em vez da escala. Enquanto o mercado pet focava em entupir espaços com dezenas de cachorros para lucrar pelo volume, nós decidimos limitar nossa operação a no máximo 15 ou 20 cães por semana.
Era assustador dizer “não” para clientes quando precisávamos de caixa, mas era a única forma de garantir acompanhamento comportamental individualizado, segurança e controle total.
Aos poucos, o mercado reconheceu esse padrão. Passamos a cuidar de cães de tutores exigentes e figuras públicas como Anitta, Bruna Marquezine e Viviane Araújo. A marca se consolidava no Brasil, mas a vida tinha guardado uma travessia ainda maior e infinitamente mais dura para a gente.
Em março de 2024, viajei para os Estados Unidos apenas para fazer a entrega de alguns cães de clientes. O que era para ser um trabalho pontual virou um solavanco na minha vida.
Vi que Miami tinha um mercado gigante, mas extremamente frio. Os lugares pareciam depósitos de animais; faltava carinho, faltava leitura de comportamento, faltava comunicação com o tutor. Percebi que o público de lá não queria só um lugar para largar o pet: precisava entender o que é um atendimento verdadeiramente premium e afetuoso.
Decidi encarar o desafio e abrir a operação nos EUA, começando do zero em uma casa pequena. Só que a teoria é linda; a prática foi brutal
Aterrissar sozinha em Miami para empreender foi o momento mais duro da minha vida. Eu desembarquei falando praticamente 0,5% de inglês. Fazer reunião, entender leis locais, tirar licenças e negociar contratos usando tradutor e gestos era desgastante ao extremo. Para completar, a distância da minha família me corroía por dentro.
Fiquei longe da Anna e da minha mãe. O fuso horário, a rotina pesada e a incerteza do dinheiro faziam com que cada dia parecesse uma maratona. Por meses, a Anna ficou no Brasil gerenciando a equipe, a empresa e os clientes de lá, enquanto eu tentava fazer a roda girar em Miami sem ter com quem dividir um abraço no fim do dia.
Se trabalhar junto já é complexo, administrar um casamento e duas empresas à distância pareceu uma missão quase impossível. Tivemos crises, choro, cansaço extremo e conversas duras. Nos olhávamos pelo celular e dizíamos: “Se a gente superar isso aqui, nada mais separa a gente”. E superamos
O que me manteve de pé naqueles meses de solidão foi uma certeza inegociável: não podia dar errado. Minha família dependia de mim, as contas não esperavam e desistir simplesmente não era uma opção.
Durante um mês inteiro no início dessa fase americana, fiquei hospedada na casa da Anitta em Miami, cliente antiga que acabou virando um ponto de apoio fundamental nessa transição.
Usei esse tempo para estudar a fundo a concorrência. Visitava creches, daycares, hotéis e clínicas veterinárias. Foi aí que virou a chave: o mercado americano vendia espaço; eu precisava vender experiência e estilo de vida.
Foi assim que transformamos a PETland BFA em um verdadeiro resort pet em Miami. Não queríamos apenas treinar cães; queríamos integrar tutores. Criamos uma estrutura que conta com academia canina, piscina, aulas de natação, suítes temáticas e até serviços internacionais de acompanhamento pet em jatos e viagens particulares para destinos como Aspen, Nova York e Las Vegas. Mais do que isso, trouxemos atividades inovadoras como workshops comportamentais, “puppy yoga” e aulas de Muay Thai para tutores no mesmo espaço.
Trouxemos o afeto, a proximidade e o calor do jeito brasileiro de cuidar. E os clientes americanos e latinos piraram nisso. Ver a evolução de cães reativos e a gratidão no olhar dos tutores nos mostrou que o modelo enxuto, técnico e focado no bem-estar animal ultrapassava qualquer barreira linguística ou cultural.
Hoje, vejo os números que construímos com muito suor e noites sem dormir: no último ano, a operação brasileira faturou 150 mil reais mantendo a exclusividade, enquanto a unidade de Miami movimentou 200 mil dólares em 2025, com projeção de alcançar até 600 mil dólares em 2026.
Minha esposa e minha família finalmente estão aqui comigo em Miami. Vencemos o “leão de cada dia”, mas a batalha não para.
Recentemente, passei por uma situação em que precisei prestar um serviço direto por 35 dias seguidos, sem folga, enfrentando barreiras absurdas de rotina. Foi exaustivo. Se alguém me dissesse antes o quão difícil seria, talvez o meu eu do passado tivesse amarelado. Mas fui, enfrentei e voltei muito maior, mais sábia e mais resiliente
Empreender me ensinou que quanto mais você cresce e quanto mais dinheiro o negócio movimenta, maiores e mais complexos ficam os problemas. A diferença é que hoje eu aprendi a administrar as crises sem perder o foco no que realmente importa.
Se eu pudesse voltar no tempo e mandar um recado para a Beatriz do passado, aquela que estava prestes a aceitar a ideia do adestramento apresentada pela Anna, eu diria apenas uma frase: “Confia. Confia e segue o teu propósito, porque você está prestes a descobrir a razão da sua vida”.
Eu diria a ela que seria dez vezes mais difícil do que ela imaginava, mas cem vezes mais gratificante.
O que eu não contaria para a minha versão jovem? Eu não contaria sobre as noites mal dormidas, o choro sozinho no carro, os erros de contrato, a barreira do idioma ou a dor da saudade. Não contaria porque foram justamente esses perrengues e pedras no caminho que me transformaram na mulher e na profissional que sou hoje
Existem lições de vida e de negócios que você só aprende quando a água bate no pescoço e você é obrigado(a) a nadar. Hoje, além das nossas operações, dedicamos tempo para capacitar novos profissionais do setor, ajudando adestradores e proprietários de creches a entenderem que amor pelos animais precisa vir acompanhado de gestão, técnica e respeito ao comportamento canino.
A nossa meta de expansão é continuar crescendo sem jamais abrir mão do nosso pilar fundamental: qualidade sempre vai estar acima de quantidade. Seguiremos enfrentando os leões diários, um por um, com a certeza de que a maior segurança da vida é ter a coragem de ser dono do próprio destino.
Beatriz França, 38, é adestradora, especialista em comportamento animal e fundadora da Creche Escola BFA (Brasil) e da PETland BFA (Miami). Ex-supervisora do setor corporativo, atua há quase 15 anos no mercado pet premium internacional, sendo referência no atendimento personalizado de bem-estar e lifestyle para cães e seus tutores.
Em 2021, Manu Colombo se mudou com a família para Ilhabela, no litoral paulista. Ela conta como essa decisão aprofundou seu entendimento sobre a importância de assumir responsabilidade pelo futuro da comunidade em que escolhemos viver.
Cleber Santos não tinha casa nem emprego, mas tinha a companhia de Grafit, um cachorro de rua. Ele conta como a relação com o animal virou o ponto de partida para uma guinada que o levou a criar sua própria empresa do setor pet.
A exaustão é o resultado de uma sociedade que supervaloriza a velocidade e a performance. Paty Palhares conta como a rotina febril a levou a desenvolver uma doença autoimune, inventar outra vida para si e fundar a HIT Terapias Holísticas.
