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Às 4h15 da manhã, na madrugada do Carnaval de 2023, meu celular acendeu com uma mensagem curta: “O morro do Sahy caiu. Desabou”.
Eu estava em São Paulo. Tinha decidido passar o feriado longe do litoral, porque, para mim, litoral sempre foi trabalho. Meus filhos estavam em Maresias, na primeira balada da vida deles. Chovia sem parar e desde as 3 da manhã eu já tinha perdido o sono.
Corri para o computador, reservei um quarto numa pousada e mandei o print para o Pedro: “Saia de onde estiver e vá para lá. Se a gente não conseguir se falar, fique lá”. Pouco depois, perdi o contato com eles.
Meu nome é Maria Fernanda, mas só a minha avó me chamava assim. Tenho 50 anos e mais de 30 de ativismo. Acho que tudo começou numa sala do Ministério Público, no centro de São Paulo.
Eu era estagiária, admirava aquela carreira e travei diante das primeiras denúncias que precisei redigir. Não conseguia acusar alguém sem ter certeza. Passei a telefonar para testemunhas na Bahia e em outros lugares para confirmar se tinham visto o que diziam
Quando me formei, fui sozinha buscar minha carteira da OAB. Meu pai tinha morrido pouco antes. A entrega seria por ordem alfabética, mas pais e tios advogados começaram a tentar furar a fila para entregar a carteira aos seus. Levantei a mão e disse que a regra valia para todos. Foi minha primeira grande defesa.
Eu ainda não sabia, mas passaria a vida fazendo exatamente isso.
Depois de um período nos Estados Unidos, onde trabalhei num escritório de imigração, voltei para Ilhabela, a ilha que me parecia o lugar dos sonhos.
A partir de 2002, vi tudo mudar: leis permissivas, indicações políticas em cargos técnicos, a máquina pública a serviço de poucos. Quando engravidei, senti que precisava lutar para que meus filhos não perdessem aquele lugar.
Fui expulsa do gabinete do prefeito. Organizei um desagravo da OAB que levou sete anos para ser deferido. Fui ameaçada de morte e tive um coquetel molotov na porta de casa, como aviso. Fui processada criminalmente por uma autoridade que também me cobrava 500 mil reais de indenização, quando eu mal tinha dinheiro para pagar um mês de escritório
O oficial de justiça me entregou, constrangido, a queixa-crime. Eu estava sozinha com as crianças. Naquele dia, chorei. Me senti pequena.
O maior medo era pelos meus filhos. Uma vez, fui buscar meu filho no futebol e ele não estava lá. Rodei a cidade em pânico por duas horas, até a mãe de um amiguinho ligar: ele estava tomando sorvete. Quem enfrenta esse tipo de poder aprende que ele não tem limite. Você pode ter uma vida limpa, mas mexem justamente no que mais dói.
Foram 42 denúncias de improbidade administrativa; mais de 70% viraram ações, investigações ou acordos. Ainda assim, parecia que nada andava. Depois das últimas ameaças, atravessei a balsa com meus filhos, dois computadores e três malas. Deixamos os cachorros e tudo o que tínhamos. O medo atravessou junto com a gente
Recomecei na Praia da Baleia, em São Sebastião, onde trabalhava desde 2010 e onde, com um grupo da sociedade civil, tínhamos criado a APA (Área de Proteção Ambiental) Baleia-Sahy, com mais de 6 mil assinaturas. Mudei em 2019 e logo veio a pandemia. Com o Instituto Verdescola, transformamos a Baleia num centro de doações para o Litoral Norte e, em plena crise, aprovamos o plano de manejo da APA.
Por volta das 6 horas daquela manhã do desabamento, uma funcionária do Verdescola me ligou: era o caos, precisavam de tudo. De São Paulo, comecei a mobilizar quem estava na Baleia e no Sahy: médicos, enfermeiros, remédios, colchões. Era o povo pelo povo.
Quando consegui chegar, o mar tinha cor de terra. Eu não reconhecia as pessoas. Havia feridos no chão, gente procurando documentos e parentes. Com funcionários do Verdescola e veranistas da Baleia, colamos folhas de sulfite nas portas: hospital, necrotério, abrigo, doação. Onde antes havia crianças estudando, agora havia macas e corpos
Mães chegavam com fotos dos filhos. Uma delas me mostrou o retrato de um menino de 4 anos e perguntou se eu achava que ele ainda podia estar por aí. Não soube o que responder. Não era nosso papel comunicar mortes, mas não havia mais ninguém para fazer isso. Então, fizemos.
O que mais me feriu foi saber que eu tinha avisado. Oficiei, levei estudos, sentei em gabinetes e me cansei de repetir que pessoas iam morrer. Agora via tudo acontecer diante de mim. Lembro de olhar para o céu e pedir a Deus que me usasse dali para frente.
Fiquei triste, amarga, revoltada. Mas foi dessa revolta que nasceu a força para fazer alguma coisa.
Quando as câmeras foram embora, nós continuamos ali. Criamos o Restaura Litoral Norte, com três pilares: restaurar 203 hectares de floresta em encostas íngremes; selecionar tecnologias de dispersão aérea de sementes, desenvolvidas por empresas do Brasil e do exterior; e cuidar das feridas da comunidade, de onde nasceu o projeto Escolas Seguras
Faltava dinheiro, e a resposta veio do Direito: costuramos uma solução jurídica para que uma obrigação ambiental de uma rodovia custeasse a restauração. Pela primeira vez, senti o Direito chegar a tempo.
O modelo chegou ao Palácio dos Bandeirantes e já formou 5 mil jovens que moram nos morros e aprendem o que fazer se acontecer de novo. Fui eleita conselheira estadual de mudanças climáticas, numa única vaga disputada por mais de 80 entidades.
Essa travessia mudou a advogada que sou. Passei boa parte da carreira usando o Direito para reagir: denunciar, processar, litigar, cobrar. Na Vila Sahy, entendi o limite disso. Nenhuma sentença devolve uma vida. Hoje, o que mais me move é o Direito que chega antes: o que estrutura soluções, viabiliza a prevenção e ajuda quem decide a decidir melhor
Não vou fingir que está tudo resolvido. Ainda dói ver empreendedores derrubarem árvores sem necessidade, em vez de incorporá-las aos projetos. Também dói não conseguir levar a educação para o risco a todas as escolas nem ver as cidades se adaptando. E me revolta a omissão de gestores públicos que investem pouco ou nada em prevenção.
Se pudesse voltar, cuidaria mais de mim. Fui kamikaze. Não faria nem metade do que fiz e jamais teria continuado morando no território do conflito. Não dá para denunciar o vizinho de porta e seguir dividindo a mesma rua. Tenho fé de que ainda posso ajudar empreendedores e gestores públicos a ouvirem o território e evitarem erros que ceifam vidas.
Meu sonho é que toda comunidade conheça o próprio território, tenha seu plano de contingência e saiba se salvar num evento extremo. Que a realidade climática entre no cotidiano das cidades, do posto de saúde com horário especial nos dias de calor ao sistema de drenagem inteligente. Que, em vez de dar propina para aprovar um projeto, o empreendedor ajude a construir soluções e invista no território e na comunidade afetada pelo empreendimento
Não existe mais “mudança” climática. Existe crise, aqui e agora. Um estado de emergência permanente.
Continuo resiliente. Resiliência não é apenas sobreviver ao que aconteceu; é transformar a experiência em capacidade de evitar que aconteça de novo. Depois de 2023, as encostas voltaram a ganhar verde, comunidades avançaram na regularização, obras de drenagem saíram do papel e milhares de jovens aprenderam a reconhecer riscos e levar esse conhecimento para casa.
O Restaura Litoral Norte nasceu da tragédia, mas hoje também é uma forma de construir futuro.
Os desafios continuam. A região que enfrentou a maior tragédia climática de sua história precisa lidar com novas pressões, entre elas o avanço do desmatamento e a ocupação de áreas ambientalmente frágeis. Não basta restaurar o que caiu. É preciso conhecer o território, protegê-lo e preparar quem vive nele para o que vem pela frente
Essa talvez seja a maior transformação: deixar de apenas reagir à tragédia e construir condições para que ela não se repita.
Fernanda Carbonelli, 50, é advogada pós-graduada, com atuação em direito ambiental, territorial e institucional, à frente da Fernanda Carbonelli Advocacia. Atua no Litoral Norte de São Paulo desde o início dos anos 2000. É cofundadora e diretora executiva do Instituto Conservação Costeira (ICC), ONG eleita a melhor do Brasil em meio ambiente e sustentabilidade em 2024, com 10 prêmios internacionais, e conselheira estadual de meio ambiente e mudanças climáticas de São Paulo.
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