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Imagine um dia você acordar e o seu bairro, a sua cidade, o seu estado, não ser mais o mesmo. Foi isso que aconteceu comigo na enchente que vivi em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.
Para você ter uma ideia, a cota de inundação tradicional do rio Guaíba no Cais Mauá é de 3,00 metros. Durante aquela enchente de maio de 2024, o nível chegou ao pico histórico de 5,37 metros.
Foi tudo muito rápido. Na sexta-feira, alguns meteorologistas alertaram que o Guaíba passaria da sua cota de inundação. No sábado pela manhã, uma grande parte da cidade estava debaixo d’água
Estimativas e levantamentos do IPH/UFRGS e de órgãos municipais apontaram que entre 10% e 15% da área total do município ficou submerso. Embora o percentual territorial pareça menor devido à vasta extensão de áreas rurais, morros e zonas altas na Zona Sul e Leste, o impacto na malha urbana densa e na população foi severo. A água invadiu 46 dos 94 bairros da capital gaúcha. Entre eles, o da minha mãe e do meu padrasto.
No sábado à tarde, fui ver o estrago e pensar em formas de como tirar a minha família do seu apartamento, no segundo andar de um prédio que estava com mais dois metros de água. Nesse momento, vi pessoas chegando trazendo o que tinham para ajudar.
Enquanto uns traziam pranchas de surf, barcos a remo, colchões e boias infláveis para entrar na água fétida e grudenta feito piche para resgatar as pessoas, outras vinham com água mineral e sanduíches para receber quem seria resgatado
Uma organização incrível, voluntária, sem poder público envolvido, uma vez que o estrago era grande demais e precisava de toda a força disponível.
Ninguém comandava nada, ninguém pedia nada. Cada um apenas saía de sua casa e pensava em como poderia ajudar pessoas que nem conhecia, contribuindo com o que tinha – mesmo esses voluntários também estando, na sua grande maioria, sem água, luz e com a comida racionada.
Consegui um barco para resgatar minha mãe na segunda pela manhã. Porém, o meu padrasto, que estava na casa do seu filho quando tudo aconteceu, teve um AVC ao ver as notícias e veio a falecer semanas depois. Infelizmente, ele não foi a única pessoa
Os dias foram passando. Primeiro, houve o resgate das pessoas; depois, o dos animais. Teve o momento de dar apoio e insumos para os desabrigados. E quando a água baixou, veio a grande fase do mutirão de limpeza, retirar os entulhos e limpar as casas. Perdi a conta de quantas ajudei a limpar.
E mais uma vez, o que me impressionou foi o fato de as pessoas apenas dizerem onde estavam necessitando de ajuda e os voluntários aparecerem sem falar nada. A gente simplesmente pegava os equipamentos e passava até 6 horas limpando um único apartamento, esfregando paredes e teto com água sanitária.
Tudo isso com um profundo respeito àquelas pessoas.
Passar por toda essa experiência me fez querer tirar do papel um sonho antigo: escrever um livro propondo a seguinte mudança de pensamento – as empresas têm um papel relevante NO que está acontecendo, mas, também, PARA mudar esse cenário. Isso, tem nome, se chama ser um negócio consciente.
É o que abordo em Transformando o Mundo – Como negócios conscientes estão redefinindo o mercado por meio da inovação, que acaba de ser lançado pela Editora Actual, selo da Alta Books. É um guia para quem deseja transitar nesse mercado.
O livro está dividido em duas partes: na primeira você encontrará um passo a passo, com perguntas norteadoras, dius frameworks e muitas dicas (que chamo de pulo do gato), onde eu auxilio quem quer ter ou fazer a gestão de um negócio com foco em um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (ODS), por exemplo, Energia Limpa e Acessível ou Consumo e Produção Responsáveis. Nessa primeira parte, integro a gestão do negócio com a gestão dos processos de inovação.
Na segunda parte, trago o caso de cinco empresas conscientes que estão transformando o mundo para mostrar que isso independe de tamanho, setor, área geográfica, segmento. Basta vontade.
Mas por que negócios conscientes e inovação?
Durante muito tempo, o sucesso de uma empresa foi medido por uma única métrica: o retorno financeiro para os acionistas. Essa visão linear pautou o mundo dos negócios por décadas. O lucro acima de tudo, a qualquer custo. Porém, à medida que avançamos no século 21, a fatura desse modelo chegou
Crises climáticas, desigualdade social crescente e uma epidemia de esgotamento mental nas organizações deixaram evidente que o velho jeito de fazer negócios tornou-se insustentável.
A ideia que permeia o livro é a de que negócios conscientes operam sob uma lógica de ecossistema. Eles entendem que uma empresa só prospera a longo prazo se todos os seus stakeholders (colaboradores, fornecedores, clientes, a comunidade do entorno e o próprio meio ambiente) também prosperarem. Por isso, escolhem um (ou mais) dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (ODS) para ser a base do seu produto ou serviço.
Por exemplo, a Mercur não possui um único foco isolado, mas sim uma estratégia integrada onde o ODS 12 (Produção Responsável) rege a sua operação industrial para viabilizar impactos na preservação ambiental e no bem-estar social.
Além disso, o mercado está sendo redefinido porque a régua de valor mudou. O consumidor contemporâneo não compra mais apenas um produto; ele chancela o impacto que aquela marca gera.
87% dos brasileiros afirmam que desejam fazer escolhas mais sustentáveis em suas vidas cotidianas (Kantar Brasil).
85% consideram critérios socioambientais antes de fechar uma compra (Serasa)
Se a sua empresa extrai mais valor da sociedade do que devolve a ela, seu modelo de negócios está com os dias contados. Não se trata mais de tentar ser a melhor empresa do mundo, mas sim a melhor empresa para o mundo e a inovação pode ser a resposta para isso.
Quando pensamos em inovação, nosso cérebro rapidamente nos remete à inteligência artificial, à biotecnologia ou à automação. E sim, a tecnologia é um meio maravilhoso. Mas a inovação mais profunda que um negócio pode implementar hoje é a reinvenção do seu modelo de atuação. É a transição de uma economia linear (extrair, produzir, descartar) para uma economia circular e regenerativa.
A verdadeira inovação não é criar demandas artificiais. É usar a máquina dos negócios para resolver as grandes dores da humanidade
Por isso, a tese central de Transformando o Mundo é que a elevação do nível de consciência corporativa é o novo motor da inovação.
Mergulhar nas pesquisas, mapear os cenários e estruturar este livro me trouxe diversos aprendizados, aqui separei alguns que desenvolvo ao longo das páginas:
O lucro é consequência, não a causa originária. Aprendi que as empresas mais longevas e inovadoras não têm o lucro como seu propósito central. O propósito delas é criar valor genuíno. O lucro, no fim do dia, é apenas a métrica que atesta que elas estão resolvendo problemas de forma eficiente. O capital é como o oxigênio: essencial para a sobrevivência do negócio, mas não é o motivo pelo qual ele vive.
A liderança do futuro é vulnerável e corajosa. A transição para um modelo consciente exige líderes que abandonem a desgastada figura do “herói infalível”. É preciso ter coragem para assumir que não se tem todas as respostas, para escutar genuinamente vozes divergentes e, principalmente, para tomar decisões difíceis que podem custar caro no curto prazo, mas que garantem a perenidade no longo prazo.
Inovação sistêmica exige diversidade real. Não conseguiremos resolver problemas complexos com times homogêneos, onde todos pensam, agem e viveram as mesmas coisas. Negócios conscientes abraçam a diversidade não apenas por ser o “certo a se fazer”, mas porque sabem que a inovação morre nas câmaras de eco. Pluralidade de visões é a matéria-prima das soluções disruptivas.
A transparência radical é inegociável. Na era da hiperconexão, táticas de greenwashing (maquiagem verde) ou socialwashing são armadilhas letais. O mercado, os talentos e os investidores possuem radares sofisticados. Aprendi que é muito mais poderoso uma empresa assumir suas vulnerabilidades e mostrar um plano honesto de transição do que tentar projetar uma utopia irreal. A confiança é a nova moeda de troca.
Escrever Transformando o Mundo foi um exercício de otimismo realista. É inegável que os desafios que enfrentamos enquanto sociedade são colossais. No entanto, as empresas formam a instituição mais capilarizada e com maior capacidade de alocação de recursos do planeta.
Se redirecionarmos a força indomável do mercado e a genialidade da inovação para regenerar a vida, e não esgotá-la, seremos capazes de desenhar um futuro extraordinário
Por isso, meu livro não se propõe a ser apenas um diagnóstico; ele é um convite. Uma provocação para que cada executivo, empreendedor, colaborador ou consumidor assuma o seu protagonismo.
A revolução dos negócios conscientes já começou. A pergunta que deixo no ar é: De que lado da história você e a sua empresa querem estar?
Daniela Horta é doutora em administração, fundadora e CEO da Apoemah, um hub de inovação e pesquisa voltado a negócios de impacto positivo. Estrategista em gestão da inovação, pesquisa de mercado, tendências, comportamento e futuro, possui mais de 20 anos de atuação em empresas e instituições de diferentes segmentos. É autora do livro Transformando o Mundo: como negócios conscientes estão redefinindo o mercado por meio da inovação, publicado pela Actual/Alta Books em 2026.
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