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Uma comitiva vai a Amsterdã com a missão de mostrar a potência do Brasil no maior fórum global de investimento de impacto

Bruno Leuzinger - 26 out 2026 Ricardo Ramos, diretor-executivo da Aliança pelo Impacto e idealizador da comitiva brasileira no GIIN Forum.
Ricardo Ramos, diretor-executivo da Aliança pelo Impacto e idealizador da comitiva brasileira no GIIN Forum.
Bruno Leuzinger - 26 out 2026
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Nesta última semana de outubro, quando o Brasil conhece enfim o vencedor de mais uma tensa corrida eleitoral, do outro lado do Atlântico um grande encontro de investidores de impacto deverá servir para selar acordos que, espera-se, ajudem a moldar um futuro mais próspero e menos sombrio para o planeta.

Trata-se da edição 2026 do GIIN Impact Forum, evento anual organizado pelo GIIN, sigla de Global Impact Investing Network, ou rede mundial de investimento de impacto. A edição 2026 ocorre agora, entre 27 e 29 de outubro, em Amsterdã, nos Países Baixos. São esperadas mais de 1 600 lideranças de impacto e pessoas em cargos executivos de cerca de 475 organizações de 60 países.

“O GIIN Impact Forum é, disparado, o maior evento de [investimento de] impacto global”, diz Ricardo Ramos, diretor-executivo da Aliança pelo Impacto. Em uma trinca com a ApexBrasil e a ABVCAP, a Aliança está à frente da comitiva brasileira a Amsterdã.

“Eu digo que o papel da Aliança é conseguir “abrir a porta” – e segurar essa porta aberta para que o ecossistema [de impacto] possa entrar. Nesse caso [do GIIN Forum], quem a gente quer que entre são os investidores”

Historicamente, explica Ricardo, o Brasil costuma ser sub-representado nesses fóruns internacionais. “Seja em pessoas circulando pelo evento, seja em pessoas no palco, é difícil de encontrar pessoas contando o caso do Brasil”.

A Aliança pelo Impacto puxou para si, com os parceiros, a missão de mudar esse cenário. No ano passado, havia “13 ou 14 brasileiros” no evento, pelas contas de Ricardo. Este número praticamente dobrou em 2026. “Neste ano, estamos indo com um grupo de 25 pessoas”, diz Ricardo.

Com 12 gestoras presentes, esta é a maior comitiva brasileira da história do GIIN Impact Forum. “Estamos fazendo um trabalho de médio e longo prazo, de [ir] ganhando e demonstrando todo o potencial do Brasil para esses investidores, quebrando alguns mitos, demonstrando o potencial do nosso mercado.”

ANTES DE LIDERAR A ALIANÇA, ELE COFUNDOU UMA GOVTECH

Engenheiro de formação, Ricardo começou a carreira como estagiário na Motorola, depois engrenou cinco anos na Unilever, antes de resolver fazer um MBA fora do Brasil, já pensando em migrar para a área de impacto.

De volta ao país, ele cofundou a Muove, em 2015. A govtech – que teve sua história contada aqui no Draft e hoje se chama Gove – nasceu para apoiar, com análise de dados e tecnologia, a gestão de municípios de até 200 mil habitantes.

Em 2022, a Gove recebeu um investimento da Astella. Naquele mesmo ano, Ricardo decidiu se afastar do dia a dia operacional (ele segue sócio da empresa):

“Sete anos após ter começado a Gove – e com uma filha e uma pandemia depois –, eu me vi em outro momento de vida. Saí com a única certeza de que ia continuar trabalhando com impacto” 

Calhou de nesse mesmo período a Aliança pelo Impacto estar passando por sua própria transição. A organização havia sido criada dez anos antes, em 2013, dentro da estrutura do ICE, o Instituto de Cidadania Empresarial.

“O ICE estava buscando um novo parceiro para dar uma nova cara à organização, dado que o ecossistema tinha evoluído”, diz. Foi assim que a Din4mo Lab assumiu a gestão da Aliança e contratou Ricardo para o posto de diretor-executivo.

FORA DO RADAR GRINGO, O BRASIL PODE ENTRAR NO FOCO POR CONTA DA CRISE CLIMÁTICA

O mercado global de investimento de impacto gira em torno de 1,57 trilhão de dólares em ativos sob gestão, de acordo com estimativa do GIIN. Porém, o Brasil e a América Latina em geral ainda recebem uma fatia ínfima desse bolo.

Essa irrelevância tem razões de ser. O investimento de impacto ainda é um tema dominado pelo Norte Global, sobretudo pela Europa, diz Ricardo.

“Historicamente, quando olham para impacto, os europeus investem primeiro dentro de casa. E quando buscam investir no Sul Global, eles priorizam a África e, em segundo lugar, o Sudeste Asiático”

A prioridade à África se explica tanto pela História (a colonização mais recente fortalece o vínculo entre os países) quanto pela Geografia – a distância menor do continente europeu traz facilidades operacionais, inclusive de fuso horário.

Obviamente, não é o caso de dizer que “há males que vêm para o bem”. Mas se a colonização, com suas feridas mal cicatrizadas, de alguma forma beneficia a África na alocação de recursos europeus, o aquecimento global joga luz sobre o Brasil, que se destaca por sua matriz energética renovável.

“Ano a ano, clima vem ganhando relevância no guarda-chuva de impacto”, diz Ricardo. Essa ascensão representa uma “janela de oportunidade” para o país, que em tempos recentes já esteve sob o holofote global ao sediar a COP30, em Belém.

“Quando o clima passa a ser algo mais importante dentro da agenda de impacto, que é o que está acontecendo em âmbito global, um país como o Brasil por conta da sua potencialidade nessa discussão, acaba ganhando relevância”

Essa impressão se traduz num achado da pesquisa State of the Market 2025, divulgada pelo GIIN. Sobre alocações futuras por região, 32% dos entrevistados pretendem aumentar seu investimento na América do Sul durante os próximos cinco anos, colocando a região no topo do ranking (empatada com a África Ocidental).

“Pela primeira vez, a América do Sul ficou em primeiro lugar em potencial de crescimento na intenção dos investidores”, diz Ricardo. Outros 65% planejam manter seu percentual de investimento, enquanto apenas 3% falam em reduzir.

COMO APROXIMAR O CAPITAL ESTRANGEIRO E AS OPORTUNIDADES LOCAIS

O GIIN Forum, frisa Ricardo, não é um evento para empreendedores, e sim para investidores de impacto. Reúne, no jargão anglófilo, os asset managers e os asset owners — ou seja, gestoras de ativos e os donos da grana.

A estratégia da comitiva para fisgar a atenção desse público inclui um pré-evento com a Embaixada brasileira os Países Baixos. Segundo Ricardo, já havia 80 confirmações. “Provavelmente vai ter uma quebra, é um evento para 50, 60 pessoas, mas a gente conseguiu de uma maneira até fácil um público muito qualificado de investidores para se registrarem.”

“O Brasil já atrai capital internacional e dispõe de oportunidades relevantes”, diz Tatiana Sasson, head de impacto para a América Latina da Lightrock, que faz parte da comitiva brasileira (e também do Conselho de Investidores do GIIN). Ela destaca alguns atrativos do país:

“O Brasil reúne mercado de grande escala, fundadores criativos e desafios socioambientais para os quais novas soluções têm demanda real. No fórum, há espaço para apresentar teses concretas em áreas como agricultura sustentável, adaptação climática, saúde e inclusão financeira, mostrando como elas podem combinar potencial comercial com resultados mensuráveis”

Pelo lado negativo, Tatiana cita os “juros elevados, volatilidade cambial e incertezas sobre o ambiente de negócios” como fatores que ainda afastam do Brasil os investidores de impacto:

“Para gestoras brasileiras [incumbidas de atrair esse capital estrangeiro], soma-se o desafio de apresentar aos investidores estrangeiros um histórico consistente, governança sólida e evidências claras tanto de retorno quanto de impacto.”

Aproximar esse capital das oportunidades locais, afirma Tatiana, exige previsibilidade, estruturas de investimento adequadas aos prazos dos negócios e informações que permitam uma diligência rigorosa.

“Também exige diálogo: investidores globais precisam compreender melhor os riscos e as possibilidades específicas do Brasil, enquanto gestoras locais precisam conseguir demonstrar sua capacidade de executar as teses que propõem.”

UM ECOSSISTEMA EM EVOLUÇÃO

Outro desafio na hora de atrair capital estrangeiro é elucidar os investidores internacionais sobre a diversidade do Brasil, tanto geográfica quanto cultural. É o que diz Filippe Barros, da Eliz Capital, único family office presente na comitiva brasileira ao GIIN Forum:

“A diversidade do no nosso país demanda dos investidores um cuidado na hora de pensar em soluções ou de realizar investimentos concentrados em geografias específicas. Investir em negócios de sociobiodiversidade na Amazônia é completamente diferente de investir em negócios de saúde, educação no Sul e Sudeste”

Em um artigo recente sobre seis tendências do setor para 2026, Amit Bouri, CEO e cofundador do GIIN, destacou o papel de famílias endinheiradas em financiar o investimento de impacto. Em relação aos family offices, Filippe aponta “o olhar de longo prazo” dessas estruturas como um ponto positivo que dá maior flexibilidade, permitindo testar maneiras inovadoras de fazer o investimento chegar na ponta.

“Os family offices têm um grande papel em potencializar novos instrumentos financeiros, novas formas de olhar para o capital de uma forma catalítica.”

O que parece ser um consenso é a evolução da maturidade do ecossistema de investimento de impacto. Olhando pelo retrovisor, Tatiana, da Lightrock, afirma:

“Há cerca de dez anos, o investimento de impacto ainda era frequentemente confundido com filantropia, e as conversas reuniam um público mais restrito. Hoje vemos um campo mais maduro, com gestoras e empresas capazes de apresentar resultados financeiros e socioambientais, além de um histórico que permite avaliar melhor suas estratégias”

A principal mudança de perspectiva, diz, tem a ver com um olhar que enxerga além da superficialidade do discurso: “Investidores querem entender como o impacto é produzido, como é medido e se pode crescer junto com o negócio. O fórum ajuda a aproximar práticas e critérios de avaliação, tornando essas conversas mais objetivas”.

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