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O poder do coletivo: o avanço dos ecossistemas de impacto não depende só do que fazemos, mas de como escolhemos colaborar

Dani Rosolen - 10 jun 2026
Andreas Ufer, do Sense-Lab, ao centro, no dia do lançamento do estudo Iniciativas Multiatores de Desenvolvimento de Ecossistemas de Impacto.
Dani Rosolen - 10 jun 2026
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Resolver os problemas complexos do nosso tempo — da emergência climática às desigualdades sociais profundas — exige, muitas vezes, colaboração em rede. O Sense-Lab, consultoria que atua na interface estratégica entre empresas, sociedade civil e governo, percebeu isso logo no início de sua operação, há 12 anos (o negócio já foi pauta aqui no Draft, em 2017).

“Desde o começo, a gente acabou sendo chamado para ajudar a intervir, desenvolver e apoiar redes”, diz o fundador Andreas Ufer

“A partir dessas vivências, entendemos que existia muita prática de articulação, mas pouca sistematização sobre como se estrutura uma boa rede e o desenvolvimento de estratégias conjuntas”

Foi desse diagnóstico que nasceu o estudo Iniciativas Multiatores de Desenvolvimento de Ecossistemas de Impacto, realizado com o apoio da Fundação Grupo Boticário, do Fundo Vale Intituto de Cidadania Empresarial (ICE), do Instituto Arapyaú e do Instituto Sabin.

O mapeamento recém-lançado levou um ano e meio de preparação. Nesse período, o time do Sense-Lab listou mais de 150 redes, coalizões e arranjos, analisou dados de 82, mergulhou em 24 e focou seus esforços em 17 relacionados ao desenvolvimento de ecossistemas. 

O objetivo da pesquisa? Investigar a fundo aspectos cruciais como estratégia, governança, modelos de financiamento, o papel da liderança e as condições que ditam o sucesso dessas uniões.

COLABORAR DÁ TRABALHO, PODE CUSTAR CARO E EXIGE MUDANÇA DE MENTALIDADE

Nem toda pauta ou ação socioambiental deve migrar para uma iniciativa coletiva. Andreas é enfático nesse ponto: “Quando um problema é mais simples, pode ser mais eficiente apoiar diretamente uma organização”.

Mas quando a questão é complexa, exige múltiplas perspectivas, demanda diferentes competências e reúne mais de um ator interessado na mesma transformação, a colaboração é sim o melhor caminho. Para ele, o cerne está em entender que não é preciso competir quando o desafio é comum:

“Existem formas mais compartilhadas de fazer isso. Por que não se juntar para financiar, em conjunto, uma causa ou construir arranjos para alinhar ações de diferentes organizações filantrópicas ou organizações da sociedade civil?”

A proposta parece simples no papel, mas a prática exige desapego. “A primeira chavinha a virar é abrir mão do seu total protagonismo e falar: ‘Eu sou um junto com outros tentando resolver o problema’. É colocar o problema no centro, e não a vaidade da sua organização”, afirma.

O desafio operacional vai além. Criar convergência já é uma tarefa complexa dentro de uma única instituição, imagine então entre dezenas delas. “Do ponto de vista bem prático, isso exige reuniões de governança, encontros e diversos alinhamentos. E tudo isso custa energia, tempo e dinheiro.” Ou seja, precisa realmente fazer sentido trabalhar em rede.

UMA TAXONOMIA PARA CADA TIPO DE ARRANJO

Para organizar esse universo de iniciativas multiatores, o Sense-Lab criou uma taxonomia que engloba sete arquétipos de organizações: influência, desenvolvimento de ecossistemas, ação, produção, alinhamento, conexão e aprendizagem.

O estudo decidiu concentrar suas lentes nos arranjos focados em desenvolvimento de ecossistemas, que buscam destravar gargalos estruturais e potencializar o ambiente como um todo. 

“Quando você trabalha para desenvolver ecossistemas, está olhando para as diferentes organizações e atores que estão lá, para o governo, aceleradoras, academia, e se perguntando ‘como potencializo esses atores’?”

Do grupo analisado, 17 iniciativas apresentavam esse perfil, e oito foram dissecadas como casos de estudo, enquanto nove foram consultadas pontualmente. Entre os exemplos analisados, Andreas cita a Coalizão pelo Impacto, uma aliança de 12 institutos e fundações para fomentar o ecossistema de negócios de impacto em seis cidades brasileiras, intervindo em frentes como marcos legais, finanças e conhecimento local através de governanças descentralizadas.

Outro destaque é o Movimento Viva Água, idealizado pela Fundação Grupo Boticário e focado em adaptação climática e segurança hídrica na região da Baía de Guanabara por meio de Soluções Baseadas na Natureza (SbN).

“A Fundação Grupo Boticário entendeu que não iria resolver a segurança hídrica da Baía de Guanabara sozinha. O Viva Água nasce conectando o INEA, órgão ambiental; a indústria, por meio da FIRJAN; e a Fundação Boticário, representando a sociedade civil.”

COMO DEPENDER CADA VEZ MENOS DAS ORGANIZAÇÕES INICIADORAS

Quase toda rede nasce a partir do impulso de uma organização iniciadora, que injeta o capital inicial, a coordenação técnica e a legitimidade política para atrair parceiros. 

“O grande desafio dessas organizações é como fazer esse ‘desmame’, ou seja, como sair da rede e manter a iniciativa em pé e com recursos”

Andreas retoma o exemplo do Movimento Viva Água para ilustrar esse processo. “A iniciativa começou em dois territórios, depois foi para mais quatro. Só que para fazer isso, a Fundação Grupo Boticário teve que tirar o pé dos primeiros dois, capacitando lideranças locais e gerando autonomia.”

Representantes de várias redes e organizações apoiadoras do estudo no dia do lançamento.

O estudo enfatiza que a saída da organização fundadora deve ser desenhada desde o primeiro dia de projeto. É preciso estabelecer o tempo de permanência, quais capacidades precisam ser transferidas para o território e como garantir a sustentabilidade financeira após a transição. Estratégias como a criação de fundos de reserva e a combinação de recursos públicos, privados e filantrópicos são caminhos apontados pela pesquisa.

“A plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA), rede criada pela Agência de Desenvolvimento do Governo dos Estados Unidos (USAID), conseguiu manter a operação com um fundo de reserva mesmo após a desarticulação da USAID [por decisão do governo Trump]”, afirma.

Um caso emblemático de transição bem-sucedida mencionada por Andreas foi o da antiga Força-Tarefa de Finanças Sociais, articulada em 2014 pelo ICE, o Instituto de Cidadania Empresarial. O arranjo evoluiu, mudou de nome para Aliança pelo Impacto e, em 2024, houve a transição de sua secretaria-executiva do ICE para o Dínamo.

 “O ICE saiu completamente do circuito, e a Aliança continua forte, com uma agenda revisitada e propósito mais amplo do que no desenho original”

Além dos arranjos estruturados para durar mais tempo, como os mencionados, o estudo do Sense-Lab identificou um modelo diferente de atuação: as chamadas intervenções catalíticas ou one-shot. São projetos desenhados desde o primeiro dia com um prazo de validade temporário.

“Essas iniciativas fazem a organização pensar bem como vai agir sobre um ecossistema, território ou temática para fortalecer esse ecossistema de uma forma que sua intervenção depois não seja mais necessária.”

O ESTUDO LANÇOU UM CANVAS PARA AJUDAR A ORGANIZAR IDEIAS E PROPÓSITOS

Com o objetivo de traduzir essa densidade teórica para o dia a dia, o Sense-Lab transformou os aprendizados do estudo em uma ferramenta prática: o Canvas para Iniciativas Multiatores de Desenvolvimento de Ecossistemas.

A ferramenta é dividida em duas perspectivas — dimensão do ecossistema e dimensão da iniciativa multiator –, e cada uma delas conta com seus respectivos campos de reflexão e perguntas que estimulam tanto uma leitura da situação atual da iniciativa quanto uma reflexão crítica sobre seu estado.

“O canvas é uma forma simples de navegar essa complexidade toda. Então, se alguém quer pensar sobre essas iniciativas multiatores ou começar do zero, ele funciona como um mapinha para simplificar tudo isso”

Testada e validada em oficinas com os parceiros durante a pesquisa, a ferramenta já está disponível. E o Sense-Lab ainda deve lançar, nos próximos meses, outros desdobramentos práticos do estudo, incluindo um playbook em formato de manual resumido e o Atlas de Iniciativas Multiatores focado na agenda de transição ecológica no Brasil.

UM OLHAR MADURO SOBRE EVOLUÇÃO E FUTURO

Após 12 anos facilitando processos coletivos, Andreas Ufer parece demonstrar um olhar realista e equilibrado sobre o futuro dessas redes:

“A ideia de que a gente precisa se articular em redes era quase um experimento dez anos atrás. Alguns desses arranjos são inclusive mais antigos e funcionavam em estágio muito intuitivo, as pessoas se juntavam porque fazia sentido. Hoje, o conceito está mais difundido. A sociedade civil, em geral, está acostumada a fazer isso, em especial o setor ambientalista” 

Para ele, as grandes pautas do ecossistema de impacto ganharam musculatura no país. “A bioeconomia está em um outro patamar: antes era uma discussão de nicho; hoje, temos uma política nacional e mecanismos financeiros mais robustos. A restauração florestal, que era apenas uma promessa, atualmente conta com recursos em escala.”

Essa evolução mudou ainda a estratégia de quem financia o setor. Segundo ele, a filantropia brasileira passou a reconhecer suas limitações diante do tamanho dos problemas e a perceber que, em vez de querer resolver tudo sozinha, seu papel deve ser mais voltado a induzir agendas, mobilizar o setor público e atrair a iniciativa privada. 

Por outro lado, Andreas considera que a mobilização coletiva ainda é pouco discutida devido a barreiras culturais:

“No geral, os brasileiros são desinteressados pela política e, consequentemente, por como a gente se organiza como sociedade para resolver os problemas públicos”

Por essa razão, falar e mostrar o trabalho em redes se torna ainda mais necessário. E a divulgação do estudo do Sense-Lab é um passo importante para que isso aconteça.

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