A Covid-19 mata até cinco vezes mais negros do que brancos. Com telemedicina gratuita, a AfroSaúde ataca o “racismo pandêmico”

Dani Rosolen - 15 jun 2020
Igor (à direita) e Arthur começaram a desenvolver a plataforma da AfroSaúde em junho do ano passado. Mas tiveram que mudar os planos da healthtech com o coronavírus.
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Pesquisas mostram que o coronavírus mata mais negros do que brancos devido às desigualdades sociais e econômicas. De acordo com um levantamento da Agência Pública, com base nos boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde, entre os dias 11 e 26 de abril o número de mortes de negros por Covid-19 foi cinco vezes maior do que o de brancos.

Outra análise, do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde (NOIS), levando em conta dados de 30 mil casos com desfecho (alta ou morte) até 18 de maio, aponta que 55% dos pretos e pardos faleceram, contra 38% dos brancos.

É esse “racismo pandêmico”, como denomina o empreendedor e dentista Arthur Lima, que ele e o jornalista Igor Leonardo buscam combater. Os dois são sócios da healthtech AfroSaúde, lançada em janeiro e que quer dar visibilidade e conectar especialistas negros da área de saúde a pacientes negros.

ELES ADIARAM A MONETIZAÇÃO PARA LANÇAR O TELECORONA DA PERIFERIA

A dupla já tinha cadastrado mais de 1 100 profissionais de todo o Brasil na sua plataforma e estava pronta para começar a operar financeiramente quando foi surpreendida pela crise do coronavírus.

Os empreendedores deixaram, então, temporariamente de lado o plano de monetizar a ferramenta para criar o Telecorona da Periferia, uma solução de telemedicina gratuita focada no atendimento à população periférica de Salvador. 

“A proposta é oferecer por uma central telefônica orientação multiprofissional em saúde, com informações claras e acessíveis sobre uso de medicamentos e medidas de prevenção, reduzindo a superlotação nas UPAs e postos de saúde durante a pandemia”

Desde março, essa rede de apoio já ajudou a atender e tirar dúvidas (por telefone e também pela internet) de mais de 230 pessoas que moram no Subúrbio Ferroviário, no complexo do Nordeste de Amaralina, em Cajazeiras e adjacências. Juntas, essas regiões da capital baiana somam 250 mil pessoas.

O APORTE DA ACELERAÇÃO FOI USADO PARA REMODELAR O NEGÓCIO

Para custear as ligações dos atendimentos feitos pelo Telecorona da Periferia (o número é 0800 042 0503), os empreendedores usaram 10 mil reais que receberam, no fim de 2019, como investimento semente do processo de aceleração na Vale do Dendê

Eles usaram esse valor para alavancar uma campanha de matchfunding. A cada 1 real doado, o Fundo Colaborativo disponibilizava mais 2 reais. No fim, a campanha fechou com, 36 mil reais (incluindo aqueles 10 mil da aceleração).

Os empreendedores convocaram também profissionais dispostos a atuar voluntariamente no projeto uma a duas vezes na semana, cerca de quatro horas por dia, e tiveram a adesão de 30 pessoas, entre médicos, enfermeiros, nutricionistas e farmacêuticos.

OS ATENDIMENTOS LEVAM EM CONTA O PERFIL DE CADA PACIENTE

A AfroSaúde conta com o apoio da Digitalk, um CRM omnichannel que está ajudando a colher e registrar os dados dos usuários.

Assim, eles sabem que 91% dos pacientes atendidos pelo Telecorona da Periferia são negros, a maioria é mulher (62%) e está desempregada ou trabalha em funções com alto nível de exposição social (caixas de supermercado, por exemplo).

Segundo Arthur, 63% dos pacientes relataram ter algum sintoma relacionado à Covid-19. E 18% foram orientados a buscar um serviço de de saúde, pois apresentavam sinais graves.

Os teleatendimentos são modelados de acordo com o perfil do usuário.

“Os profissionais de saúde tentam direcionar as orientações de acordo com cada realidade. Tem gente que liga perguntando como fazer o distanciamento numa casa pequena onde vivem várias pessoas. Outras querem saber como convencer familiares que não estão seguindo a quarentena”

Para piorar a situação, os profissionais da saúde precisam lidar com um surto de chicungunha em Salvador. “Nas ligações, tentamos ajudar a fazer essa distinção de sintomas para evitar que a pessoa vá a um posto sem necessidade.”

A PRÓXIMA ETAPA É CUIDAR DA SAÚDE MENTAL DA POPULAÇÃO

Arthur critica a “romantização” da quarentena por alguns grupos. “Tinha gente falando que, com a pandemia, todos estavam na mesma situação, no mesmo barco. Não é assim para a população periférica que sempre foi marginalizada.” Ele ressalta:

“Os problemas sociais não param por causa do coronavírus. E aí, as pessoas que já estão sofrendo por causa da doença têm de lidar com outros problemas, como a violência doméstica, o desemprego, a falta de comida na despensa… Tudo isso acaba gerando angústia e quadros de depressão”

Para ajudar a população a encarar esses desafios emocionais, o Telecorona da Periferia planeja oferecer um programa de acolhimento por videoconferência com psicólogos. A Digitalk ajudará o projeto a implementar essa nova ação.

O empreendedor diz que a saúde mental acaba sendo negligenciada nesse momento, uma vez que o foco da Organização Mundial da Saúde é apenas com os sintomas do coronavírus e afirma que não é a primeira vez que uma pandemia afeta o psicológico das pessoas.

“A humanidade já viveu isso durante a explosão do ebola. Do meio para o fim dessa pandemia, o índice de transtornos mentais aumentou absurdamente.”

A REAÇÃO DOS PACIENTES EVIDENCIAVA A ESCASSEZ DE PROFISSIONAIS NEGROS

A AfroSaúde começou a ser desenvolvida em junho de 2019. Arthur conta que a ideia surgiu da percepção de que havia poucos colegas negros atuando na área.

”Notei isso primeiro na odontologia e depois em outras especialidades. Ao mesmo tempo, percebi que os próprios pacientes estavam procurando profissionais negros por já terem relatado situações de racismo em atendimentos.”

Em sua atuação na saúde da família em comunidades carentes, o dentista percebia, pela reação dos próprios pacientes, a escassez de profissionais negros:

“Quando eles viam que quem iria atendê-los era um dentista negro, ficavam surpresos, felizes, como quem diz: ‘Alguém semelhante a mim é um doutor’”

Ao apresentar a ideia a Igor, Arthur se convenceu ainda mais da relevância da plataforma. Igor sofre de foliculite, problema de pele comum entre a população negra, e teve dificuldade para encontrar tratamento adequado justamente pelo desconhecimento, por parte dos médicos brancos, sobre as especificidades da pele negra.

“A GENTE SABE QUE O NEGRO VAI ESTAR SEMPRE EM DESVANTAGEM”

Em julho de 2019, já com a proposta da startup no papel, os dois participaram do Sebrae like a boss, ficando em terceiro lugar na competição.

“Apesar da ideia ter ganhando destaque, as pessoas questionavam se não era algo que segregava mais em vez de incluir. E a nossa fala é sempre a de que não estamos buscando ‘igualdade’, mas sim equidade”

Arthur explica a distinção, lembrando que o conceito de igualdade pressupõe que as pessoas tenham as mesmas oportunidades. 

“E a gente sabe que o profissional negro vai estar sempre em desvantagem. Isso é o racismo estrutural. As pessoas não nos vem como aptos para estar usando um jaleco branco e atender.”

NO RADAR, UM SERVIÇO DE ASSINATURA COM CONTEÚDOS E FERRAMENTAS DE GESTÃO

As mudanças de planos trazidas pela pandemia fizeram com que os sócios percebessem que a AfroSaúde é mais do que uma plataforma de conexão. A startup pode desenvolver outras soluções inteligentes de saúde para a população negra, como prova o Telecorona da Periferia.

A iniciativa mostrou, inclusive, que a dupla deve apostar na telemedicina. Depois que a crise passar, a ideia é monetizar com esse tipo de atendimento remoto e com um serviço de assinatura.

O pacote, diz Arthur, deve incluir ferramentas de gestão (como por exemplo prontuários eletrônicos), mas também conteúdos de capacitação específicos para atender a população negra e que geralmente não fazem parte da grade curricular tradicional de uma faculdade.

Assim, com conhecimento e informação, os empreendedores querem empoderar outros negros e seguir combatendo o “vírus” resistente do racismo.

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