A alegria como vantagem corporativa: a HumorLab transforma o riso em ferramenta para resolver desafios no escritório

Marcela Marcos - 3 jan 2022
Maryana Rodrigues, ou Maryana com Y, fundadora da Humor Lab.
Marcela Marcos - 3 jan 2022
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Bagunceira assumida, ela é do tipo que ri alto, gargalha mesmo, e costuma subir ao palco em suas palestras corporativas vestindo capa de super-heroína, para “tirar as pessoas do piloto automático”, como diz.

“No meu primeiro evento eu já estava de capa, porque vejo que o bom humor é muito escondido”, explica Maryana Rodrigues, 35, a Maryana com Y

“Eu me posiciono pra incomodar, porque não admito que a gente continue dando palmas para quem é arrogante, para quem não é empático… Então, eu vou cutucar, vou ser diferente, e as pessoas vão olhar e falar ‘essa aí é doida’…” 

Mary passou por perrengues quando falar de saúde mental ainda não estava em voga (ela contou sua história no podcast Retrato, do Draft).

O passado conturbado não a impediu de desenvolver um espírito irreverente, que Maryana canaliza a serviço de palestras como TEDx Speaker e em projetos da Humor Lab, sua consultoria dedicada a resolver problemas no trabalho por meio da alegria e da felicidade.

“O que eu entrego na Humor Lab é um suporte de criatividade, de comunicação com foco no que a pessoa sente, porque eu, Mary, sou uma pessoa mais engraçada – e todas as minhas entregas são assim.” 

O DESEJO DE UM TRABALHO FLEXÍVEL E A VONTADE DE AJUDAR PESSOAS A INSPIRARAM A EMPREENDER

Filha de uma professora de português e de um engenheiro, Mary cresceu em Osasco, na Grande São Paulo, cercada por livros e inspirada pela flexibilidade que o pai tinha no trabalho. 

Maryana com Y é a alma bagunceira à frente da Humor Lab.

“Às vezes era terça-feira à tarde e ele estava assando uma carne lá em casa com a gente… Sempre me chamou atenção o fato de ter mais férias que os outros pais”, conta. 

Ainda não dava para ter clareza disso quando pequena, mas, hoje, refletindo sobre essa fase, chega à conclusão de que essa pegada mais livre, sem ter de bater cartão, era o que conectava com o que viria a fazer depois. 

“Digo que sempre fui empreendedora porque, aos 16, comecei a dar aula de inglês em casa, para a galera que ia mal na escola. Sempre quis resolver algum problema e apoiar quem estivesse por perto” 

Foi nessa idade, no auge da adolescência, que se viu em meio a um burnout, não por excesso de trabalho, mas por acúmulo de cortisona na corrente sanguínea, devido ao estresse. 

Mais tarde, sua paixão por esporte a levou a cursar Educação Física. Na faculdade, Mary teve o primeiro contato com recreação – o que a prepararia para usar o humor como ferramenta profissional. 

O “ANO DO CHEGA”: RIDICULARIZADA PELOS COLEGAS, MARY CHUTOU O BALDE E DECIDIU ENCONTRAR A SI MESMA

Apesar do curso que escolheu, Mary acabou indo trabalhar como vendedora em uma empresa de tecnologia.

Durante essa experiência, em 2017 – período que ela chama de “ano do ‘chega!’” –, Mary se viu num turbilhão emocional. O término de um relacionamento se somou ao bullying praticado pelos colegas de trabalho, culminando numa depressão. 

“Era uma empresa bem machista. Eles brincavam, falavam mal de mim na minha frente. Era um absurdo. Pensei: ‘eu preciso criar meu próprio negócio, preciso agir pelas minhas próprias mãos…’”

Precisava, também, “encontrar a Maryana” escondida dentro de si. A decisão foi viajar para os Estados Unidos para, além de estudar, entrar em contato com as próprias dores, como forma de entendê-las. 

“Então, fiz curso de felicidade do Dalai Lama, fui para o Vale do Silício, fiz o curso de Inteligência Emocional do Google, cursei alguns meses da faculdade de International Business… Porque só com a Educação Física eu não me sentia preparada para o mercado.” 

ELA DEIXOU A PRIMEIRA CONSULTORIA QUANDO VIU QUE SUA “ALMA BAGUNCEIRA” NÃO COMBINAVA COM OS SÓCIOS

Com a mala cheia de experiências, Maryana voltou ao Brasil decidida a empreender. Junto com os amigos Lucas Silveira e Virgínia Planet, ela fundou a consultoria House of Feelings

A parceria não durou muito. 

“A gente levava inteligência emocional para dentro das empresas, mas eles eram pessoas mais sérias, mais cartesianas, e eu era a alma bagunceira. Aí, no final de 2018, falei: ‘Gente, sucesso para vocês. Eu não caibo mais aqui’…” 

Ela deixou a consultoria ainda sem saber o que iria fazer a seguir. Até que, em maio de 2019, durante uma palestra que tinha como proposta levar o humor para um público de RH, Mary entendeu que queria transpor aquele jeito mais leve de ser para dentro das empresas. 

“Como eu tenho essa energia, essa sede de viver, as regras das empresas muitas vezes tolhiam a minha inovação e vontade de querer fazer”, diz, referindo-se às companhias onde trabalhou.

O PRIMEIRO CLIENTE TINHA ACABADO DE PASSAR POR UMA CONSULTORIA “MUITO CARETA”…

A Humor Lab nasceu do desejo de virar esse ambiente corporativo de ponta-cabeça.

O primeiro cliente com contrato assinado foi o Zoom Buscapé (hoje, pertencente à holding Mosaico), a partir de uma ponte feita com contatos que a Mary tinha no iFood. 

“Eles tinham acabado de passar por uma consultoria muito careta e os líderes estavam de saco cheio, então peguei o desafio e pensei que eles iam me amar ou me odiar… Graças a Deus, amaram! (risos) Fiquei capacitando as lideranças mensalmente por dois anos

A grana ainda era curta, e, pior, ela tinha acabado de terminar um casamento de forma dolorosa. Mesmo assim, decidida a ter uma sede física, juntou economias e abriu um escritório na Barra Funda, Zona Oeste de São Paulo. 

“Costumo dizer que o investimento inicial na Humor Lab foram os 1,5 mil reais do aluguel [do escritório] e 7 mil que eu deixei de promissória.”

A RODA COM PROFISSIONAIS DE RH CRESCEU E HOJE ENGLOBA MULHERES DE TODAS AS ÁREAS

No início, a clientela da Humor Lab era formada por gestores de Recursos Humanos de diferentes organizações, que buscavam resolver questões do dia a dia por meio de encontros com a Mary. 

Hoje, por exemplo, ela dá consultoria para um grupo que começou com 12 mulheres, todas de RH, buscando resolver um pepino por mês; essa turma cresceu e hoje reúne, segundo Mary, quase 200 participantes de diversas áreas. 

“Eu sentia falta de encontrar mulheres para falar de negócios e isso se fortaleceu muito… Hoje em dia, a gente fala de tudo, até de Reiki. Tem histórias de luto, de xenofobia, é incrível!”

Paralelamente, ela mantém parceria com agências, num modelo de ativação e desativação, com contratos pontuais para oferecer soluções específicas, de palestras a capacitação de lideranças. 

USANDO A ALEGRIA PARA ALAVANCAR A POSIÇÃO DO CLIENTE NO RANKING GREAT PLACE TO WORK

De junho de 2019 para cá, foram mais de 400 empresas atendidas. Além de iFood e Zoom Buscapé, a lista inclui Loggi, Johnson & Johnson, Sanofi, Hospital Sírio Libanês, TIM e Nubank.

Um case do qual ela se orgulha – e cujo nome do cliente prefere manter em sigilo – é de uma empresa que queria alavancar sua posição no ranking da consultoria global Great Place to Work e, na época, tinha problemas na liderança. 

Por meio de uma análise baseada em habilidades relacionais, ela conseguiu capacitar os líderes para que passassem a se comunicar de maneira saudável. 

“Trabalhei no sentido de acolher, de olhar para dentro e entender por que estava dando errado. Antes da pandemia, eu ficava 8 horas com eles [líderes] e dava cases para que aplicassem, conforme os temas em discussão. Depois de 15 dias, a gente se reunia para ver como tinha sido”

O resultado? A empresa saltou posições e chegou ao Top 3 do GPTW.

PARA EXPANDIR O FATURAMENTO, A HUMOR LAB PASSOU A MIRAR TAMBÉM O B2C

Com relação ao custo dos serviços, uma palestra de 30 minutos custa 9 997 reais. Para empresas que a contratam como mestre de cerimônias, o preço fixo é de 25 mil reais (o dia). 

No primeiro ano de operação, em 2019, o faturamento da Humor Lab superou a marca de 1 milhão de reais. Com a pandemia, porém, o faturamento foi reduzido a 40% desse total.

A queda, segundo a empreendedora, se deu muito em função da diminuição do tempo das consultorias, já que os encontros de 8 horas, que antes ocorriam presencialmente, perdiam o sentido no formato online, por ficarem arrastados. 

O momento, agora, é de recuperação do faturamento, com a meta de ultrapassar 1 milhão de reais em 2022. Uma das estratégias foi mirar também pessoas físicas e expandir o negócio do B2B para o B2C. 

Nessa frente, um pacote de cinco palestras sai por 5 mil reais; há ainda uma imersão chamada “Monetize seu Propósito”, com preço a partir de 500 reais. 

Nos próximos meses, a empreendedora planeja lançar aulas gravadas, livros e uma plataforma de e-commerce para vender “produtos felizes”. Exemplo? Um pano de prato com uma frase dirigida às visitas: “Sinta-se em casa e lave a louça”

SABE AQUELA HISTÓRIA DE QUE MISTURAR TRABALHO E CASAMENTO NÃO DÁ CERTO? PARA ELA, É BOBAGEM

Durante a pandemia, Mary passou a rever a necessidade de ter uma sede fixa. O escritório foi devolvido e, hoje, todos trabalham de casa. 

O time atualmente é um trio, completado por Isabela Rodrigues e Karolina Barreto, com quem Mary é casada.

Trabalhar com a própria companheira é um assunto do qual ela fala com um sorriso de orelha a orelha. Mary e Karol ainda são sócias em um negócio de marketing digital. Sabe aquela história de que misturar relacionamento e trabalho não dá certo? Com elas, esse papo é furado. 

“Eu gosto de frisar: você que está querendo trabalhar junto com namorado, namorada, marido, esposa, com a pessoa que você está ali, só precisa ter uma comunicação muito direta e transparente. Funciona e os resultados são incríveis”

O companheirismo das duas ajudou a superar desafios que, agora, servem de aprendizado, como ter clareza sobre quem contratar para prestar um serviço. 

“Aprendi que não posso ajudar quem não quer e não está olhando na mesma direção que eu”, diz. “Não se trata mais de contratar apenas quem quer emprego, mas de dar oportunidade a quem acredita em espalhar o bom humor e tem esse espírito de empreendedorismo.”

NA PANDEMIA, ELA ENTENDEU QUE PRECISAVA INCLUIR A SI MESMA EM SUA AGENDA

Apesar de empreender através do sorriso, Mary garante: está longe de ser uma adepta da positividade tóxica. 

“Bom humor não significa estar positivo o tempo inteiro, não existe felicidade perfeita”, afirma. “Mas o que não dá é para deixar a ‘chama se apagar’. Ela pode até ficar fraquinha, mas, ainda assim, pode ser a luz no fim do túnel de alguém.”

Mary conta que já contagiou até sua manicure com essa ideia. “sugeri que ela ensinasse outras a ter a excelência, a rapidez e a agenda lotada como ela… E assim criamos um produto que será lançado em breve.” 

O fato de ser tão entregue ao que faz acaba sendo um desafio. Ela diz que está criando produtos o tempo todo, mas uma hora a conta chega.

“Na pandemia, parei a academia e, trabalhando de casa, mantive a mente ligada das 7 da manhã à meia-noite, mas notei que não me incluí na minha própria agenda… Entendi que era preciso ter uma recarga energética, fisiológica…”

As maneiras que encontrou de se recarregar foram psicoterapia, Pilates, quiropraxia e as pausas no expediente. Mas, para além das tarefas e atividades da mente e do corpo, sua meta segue a mesma. 

“Quero continuar levando essa minha leveza por onde passo.”

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DRAFT CARD

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  • Projeto: Humor Lab
  • O que faz: Cria soluções inovadoras por meio do bom humor
  • Sócio(s): Maryana Rodrigues
  • Funcionários: 2
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2019
  • Investimento inicial: R$ 8,5 mil
  • Faturamento: R$ 1 milhão (esperado para 2022)
  • Contato: https://www.humorlab.com.br/#contato
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