A arte como ferramenta inclusiva: depois de deixar os palcos, ele lançou um festival de cinema e uma mostra de teatro na periferia

Tatiana Milanez - 10 jul 2024
O produtor cultural Daniel Gaggini.
Tatiana Milanez - 10 jul 2024
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“Num determinado momento, cheguei à conclusão que não me dava mais prazer atuar, eu não me sentia honesto com o público. Então comecei a buscar uma outra forma de me comunicar.”

É assim que Daniel Gaggini, 49, conta como decidiu deixar o ofício de ator. À procura dessas “outras formas de se comunicar”, ele já lançou um festival de cinema, uma mostra de teatro, produziu 30 curtas, cinco longas, três séries e seis espetáculos teatrais. Em comum, quase todos esses projetos se entrelaçam com Heliópolis, a maior favela de São Paulo.

“Meus projetos não têm um viés comercial. Todo mundo é bem remunerado, mas são projetos que não dão lucro. O ‘lucro’ é a minha satisfação, o meu prazer” 

A reinvenção faz parte da vida desse paulistano. Desde setembro de 2023, Daniel vive na zona rural de Sousas, um distrito de Campinas. Ao Draft, ele conta que agora resolveu que vai virar agricultor. Se vai dar certo ou não, ainda não sabemos. O ambiente mais pacato, porém, não significa um freio nos projetos culturais da MUK, a produtora que fundou em 2011:

“Tenho uma assistente em São Paulo que toca o dia a dia da MUK. Noventa por cento das minhas reuniões são online e só me desloco quando é estritamente necessário. Mas quando um projeto está em fase de produção, passou grande parte da execução em São Paulo.”

AINDA ADOLESCENTE, DANIEL EMBARCOU PARA A EUROPA E SE INICIOU NA CARREIRA DE ATOR

Daniel cresceu no Jardim Miriam, na zona sul da capital paulista. “Meus pais se mudaram pra lá quando eu tinha 3 anos de idade”, diz.

Aos 16, ele embarcou em uma aventura: fez as malas, deixou o bairro periférico e foi passar uma temporada na Europa, junto à companhia Os Satyros, a fim de se apresentar numa série de festivais. 

O que era para ser uma estadia de seis meses acabou durando quatro anos. Nesse giro entre os palcos europeus, o grupo passou por Portugal, Inglaterra, Escócia e Ucrânia:

“Minha primeira peça com o Satyros na Europa foi ‘Salo, Salomé’; depois montamos ‘Filosofia na alcova’, do Marquês de Sade; ‘De Profundis’, de Oscar Wilde; e ‘Rusty Brown em Lisboa’, de Miguel Barbosa” 

Nestes espetáculos, Daniel se dividia como ator e produtor. Na volta ao Brasil, a experiência acumulada o levou a fundar, em 2001, a Cia. Bravos Atores, ao lado da atriz Patricia Vilela.

Ao longo daquela década que começava, eles montaram O ventre do minotauro (2001), de Dalton Trevisan; A proposta (2002-04), de Rodolfo Gárcia Vázquez e Ivam Cabral); Pente fino (2006-07), de Christopher Welzenbach; e Teatro para pássaros (2009-10), de Daniel Veronese. 

A Cia. Bravos Atores hoje não existe mais. Daniel foi se desligando da atividade de ator e expandiu seu olhar para além do teatro. Assim, encontrou o audiovisual e começou a produzir curtas-metragens. “O meu grande barato na vida é tirar as ideias do papel.”

COMO DIRETOR, ELE LEVOU UMA ADAPTAÇÃO DE QUENTIN TARANTINO PARA AS RUELAS DA MAIOR FAVELA PAULISTANA

Esse caminho acabaria levando Daniel de volta à zona sul de São Paulo. Mais especificamente a Heliópolis. 

Desde o começo dos anos 2000, a associação Cine Favela mantinha ali “o primeiro cinema dentro de uma comunidade”. Daniel chegou ao grupo em 2009. Juntos, criaram o festival Cine Favela e uma série de oficinas de capacitação. 

Dessa aproximação com a comunidade surgiu também uma peça premiada, Vira-latas de aluguel, dirigida por Daniel e eleita em 2013 como Melhor Projeto de Teatro pelo Portal R7.

“Também fomos indicados ao Prêmio Shell – categoria Inovação Teatral. Recebemos uma crítica da Folha de S.Paulo de quase uma página e, como cotação, cinco estrelas”

Inspirado em Cães de aluguel, de Quentin Tarantino, o espetáculo itinerante começava em uma van que levava o público a Heliópolis, e passava por um bar, pela rua e pela sede do Cine Favela, ambientada como uma igreja.

Criado a partir de uma capacitação teatral de seis meses, a peça fez sucesso na época, com apresentações esgotadas entre 2013 e 2014.

O CINEMA COMO FERRAMENTA DE INCLUSÃO DE JOVENS PERIFÉRICOS E DE PESSOAS 60+

Em 2015, Daniel e o Cine Favela lançaram o Festival Cine Inclusão. No ano seguinte, o evento deu à luz o Cine Inclusão Capacitação; o projeto teve mais de 500 inscritos em cursos de formação na área audiovisual.

Dessas 20 pessoas que se formaram com a gente, no mínimo dez estão estabelecidas no mercado de trabalho hoje. Mas assim, tops na área de captação e mixagem de som, na área de produção, direção, roteiro… Isso foi me dando um gás”

A capacitação  resultou em dois curtas-metragens, que estrearam no icônico Cine Belas Artes, na Rua da Consolação. Dirigido por João V. Guimarães, um desses curtas, Mais uma dona Maria, venceu o Prêmio TV Cultura – 28° Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo, e ganhou como “Melhor Filme da Audiência” na IX Brazilian Film Series, em Chicago. 

Com a chegada de outras organizações que realizavam trabalhos com a juventude periférica, o Cine Inclusão mudou de foco a partir de 2017: em vez dos jovens, passou a destacar os idosos, população que cresceu 57,4% em 12 anos no país.

“A partir das histórias dessas pessoas idosas uma professora desenvolve um roteiro. Depois vem uma equipe de profissionais que eu formei lá atrás – os jovens. Eles realizam uma obra audiovisual junto com essas pessoas idosas. Ou seja, consigo juntar essas duas gerações”

Rebatizada de Cine Inclusão 60+, a mostra chegará no ano que vem à sua quinta edição. Os filmes são exibidos durante a mostra, ao lado de outros, realizados por diretores profissionais com mais de 60 anos ou com a temática do envelhecimento. 

“O mercado é cruel, essas pessoas não vão ter trabalho como câmera porque são 60+… Mas elas se descobrem como artistas, gravam um CD, começam a escrever livros, roteiros, começam a atuar, entrar em agências… E daí, quando você vê, estão fazendo um personagem pequeno numa série na Globo, rodada numa comunidade…”

O celular, No espelho (ver e rever), Todas elas, Tantas histórias e Segue o baile são cinco curtas citados por Daniel e produzidos por pessoas 60+ nas oficinas de cinema da edição mais recente.

O PRODUTOR TAMBÉM É UMA DAS FORÇAS POR TRÁS DA MOSTRA DE TEATRO HELIÓPOLIS, QUE EM AGOSTO CHEGA À SEXTA EDIÇÃO

O contato com a comunidade gerou outros frutos. Daniel se aproximou de Miguel Rocha, diretor da Companhia de Teatro de Heliópolis, que existe desde 2000. 

Desse encontro surgiu, em 2015, a Mostra de Teatro Heliópolis, com a proposta de dar “oportunidade a grupos que desenvolvam trabalhos artísticos em territórios periféricos”. Segundo Daniel:

“A gente traz grupos de renome e grupos que estão iniciando para dar oportunidade a estes de vivenciar uma mostra, de trocar com esses profissionais”

Com curadoria de Alexandre Mate, pesquisador da Unesp (Universidade Estadual Paulista), a Mostra chega neste ano à sexta edição, entre 31 de agosto e 7 de setembro. Serão mais de dez espetáculos ocupando o palco da sede da Companhia, e também as ruas e praças de Heliópolis.

A programação inclui ainda rodas de conversa, oficinas, apresentações de slam e uma feira literária com livros editados numa gráfica local:

“O teatro é o fio condutor, mas a gente tenta agregar o máximo de culturas e formas de expressão. Duas pessoas que eu capacitei em Heliópolis montaram a gráfica – a primeira editora dentro de uma favela. Só eles lançaram mais de 60 títulos de autores de Heliópolis!”

Com apoio de leis de incentivo, o evento é realizado através da MUK, produtora que Daniel mantém com a sócia, Luciana Rossi.

COM “CHUVA NEGRA” E “MARIA BONITA”, DANIEL AJUDA A LEVAR DIVERSIDADE ÀS PLATAFORMAS DE STREAMING

Chuva negra é um dos projetos recentes da MUK. Com dez episódios de 30 minutos cada, a série estreou em março de 2023 no Globoplay.

A morte dos pais de uma família é o ponto de partida da história. Os filhos precisam aprender a cuidar de assuntos práticos da vida, entre eles como lidar com o irmão, interpretado por João Simões – que, como seu personagem, tem Síndrome de Down:

“Não é assistencialismo: ele tem um papel de destaque, ralou pra fazer! E a gente conseguiu agregar Vanessa Giacomo, Julia Lemmertz, Zé Carlos Machado… Eu tenho um elenco de ‘série de Netflix’!”

Chuva negra já começou sua carreira internacional: foi licenciada para o canal português SIC, que distribui conteúdo para Portugal, Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe. 

Enquanto isso, no começo de junho, no Rio2C, encontro anual da indústria audiovisual no Rio de Janeiro, Daniel apresentou um novo projeto: Maria Bonita, uma parceria com a Desvio Filmes. 

A série conta a história de uma menina pré-adolescente que sofre ao ouvir de suas colegas de escola que ela não pode ser uma princesa. O motivo? Seu cabelo crespo. 

“E daí a gente acompanha a jornada desta menina para descobrir quem realmente ela é e que na verdade ela não precisa ser uma princesa, ela pode ser quem ela quiser”

Por “fazer sentido” e também para caber no orçamento, Daniel quis que a série fosse gravada na sede – e com o elenco – da Companhia de Teatro de Heliópolis. A Maria Bonita é vivida por Isabelle Rocha, de 12 anos, filha de Dalma Régia e Miguel Rocha, fundadores da companhia.

“A gente está super feliz”, diz Daniel, empolgado com o resultado. “O André Abujamra topou fazer a trilha: o cara que fez a trilha do Castelo Rá-Tim-Bum fazendo a trilha original dos nossos episódios!”

O público, em breve, poderá conferir Maria Bonita. “Estamos em negociações avançadas, mas não posso revelar para que player a série será licenciada, só depois da assinatura do contrato”, diz Daniel. “Mas ela será exibida em 2025 – no primeiro semestre.”

COM UM NOVO DOCUMENTÁRIO SOBRE LUIZ MELODIA, ELE QUER DESTACAR A IMPORTÂNCIA DO ARTISTA PARA A MÚSICA BRASILEIRA

Daniel gosta de definir a MUK como uma produtora “butique”, que desenvolve projetos autorais – dele próprio e/ou de parceiros.

É o caso de Luiz Melodia – No coração do Brasil, documentário sobre um dos maiores cantores e compositores brasileiros, falecido em 2017 e injustamente tachado de “maldito” pela mídia pela postura inconformista em relação às suas escolhas musicais e à pressão das grandes gravadoras. 

Dirigido por Alessandra Dorgan, com direção musical da jornalista Patricia Palumbo, o filme de 85 minutos encerrou em abril a mais recente edição do festival É Tudo Verdade. E, em junho, teve exibições no In-Edit Brasil, também em São Paulo.

“Contar uma história à altura do artista que foi Luiz Melodia, é mostrar a importância dele para a música popular brasileira”, diz Daniel, que é produtor do documentário com Deborah Osborn, Camila Nunes e Felipe Briso (Jane Reis, viúva de Melodia, é produtora associada).

“Muita gente que assiste ao filme de uma geração [mais nova] que não conhece Luiz Melodia fala ‘meu Deus, essa música era dele, eu jurava que era da Gal, da Betânia…’. Então, você vê a importância desse artista para a nossa cena musical”

O documentário é narrado em primeira pessoa a partir de material inédito do artista, através de entrevistas feitas por Patricia ao longo de sua carreira e outras imagens encontradas em museus, canais e até mesmo um rolo de super 8 de um acervo pessoal que chegou à produção. 

Luiz Melodia – No coração do Brasil deve chegar à TV por assinatura Arte 1, em janeiro de 2025. E há uma chance de voltar às telas de cinema ainda neste ano:

“Devido ao grande sucesso nos festivais, estamos estudando a possibilidade de entrar em circuito comercial em dezembro.”

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