A arte de se reinventar

Bruno Leuzinger - 10 nov 2015
Paulo Bega entre guitarras e teclados: a música é uma de suas facetas – mas não é a única
Bruno Leuzinger - 10 nov 2015
COMPARTILHE

 

“Foi uma maluquice. Eu não falava nada de inglês. Morava numa buraqueira, em um albergue no Brooklyn, bem barra-pesada. O dinheiro estava acabando, o inverno chegando, eu naquele frio desgraçado… Estava quase desistindo.”

É assim que Paulo Bega, 36 anos, relembra o começo de sua carreira de modelo. Aos 17, recém-saído do colegial, o jovem paulistano bancou uma decisão difícil para um rapaz daquela idade (ou de qualquer idade): vendeu o carro e largou o emprego de office-boy em uma agência do Itaú na Zona Sul de São Paulo, onde trabalhava desde os 15, em busca do sonho de pavimentar seu american way of life. Com 1,80 metros e zero contato em agências, foi tentar a sorte em Nova York. Ficar no Brasil e prestar vestibular, tentar cursar uma faculdade? Não, obrigado.

Paulo penou um bocado. Conheceu a neve (e o frio) de perto e esteve a ponto de abandonar o sonho e voltar para o calor dos trópicos. Até que, depois de quatro meses de perrengue, esbarrou com outro brasileiro na rua: Luiz Mattos, hoje um dos bookers mais importantes da Ford Models. Mattos foi com a cara dele e deu a dica: naquele dia estava rolando um teste para uma campanha da Dolce & Gabbana.

Paulo descolou o job e, de quebra, um contrato com a Q Models e um teto no East Village, em Manhattan. Conseguiu até um intérprete mexicano para facilitar a comunicação com a agência! De repente, a vida ia entrando nos eixos, e o investimento arriscado de vender o carro e largar a segurança do emprego começava a dar retorno.

A história de Paulo serve de exemplo para quem está sentindo aquele frio na barriga diante de uma escolha difícil, com medo de dar um passo em falso. Sua bússola é a coragem de se reinventar, de desbravar um novo caminho, fazendo escolhas muitas vezes movidas pela paixão – paixão por uma cidade ou uma mulher, por exemplo. A Nova York perseguida nos sonhos que viraram realidade acabou sendo trocada, após dois anos, por um novo amor: Paris. “Daqui eu não saio”, disse para si mesmo. E claro, um dia saiu. Cinco anos depois, deixou Paris para ficar perto de uma namorada carioca, com quem viveu no Rio por um ano.

Paulo nunca fez faculdade. “Sou autodidata em tudo”, diz. Como modelo, viveu nos EUA e na França, passou temporadas em Milão e Tóquio. Aquilo já não era mais o que ele queria. Começara a se interessar por fotografia ainda em Paris; de volta a São Paulo, agarrou a chance de ser assistente de um dos maiores fotógrafos de moda do mundo. “Eu trabalhava muito com a agência Mint. Um dia me disseram: ‘O Otto está voltando ao Brasil e precisa de um assistente.’” Otto era Otto Stupakoff (1935-2009), que havia passado as quatro décadas anteriores morando em NY e clicando celebridades pelo planeta afora, como Pelé, Jack Nicholson e Grace Kelly.

Se tornar fotógrafo de moda foi um caminho meio natural, já que ele vivia inserido naquele mundo. Funcionou por um tempo. A médio prazo, porém, Paulo descobriu que o “caminho natural” muitas vezes nos mantém presos à zona de conforto e nos afasta de onde queremos chegar. Era preciso abrir novas frentes de atuação, no trabalho e na vida. “A moda me deu uma cansada”, admite. “Eu não conseguia ver nada muito inovador…. Agora, dei também uma pausa na fotografia.” Diz isso com a serenidade de quem assume as suas escolhas – que podem ou não ser definitivas.

Hoje, as suas prioridades são outras. As duas filhas gêmeas, de cinco anos, com quem mora na Vila Madalena. O terceiro disco, ainda “em andamento”, do Stop Play Moon, banda formada por ele e a modelo Geanine Marques em 2007 (ela canta, ele toca guitarra, teclado e sintetizadores). O design de luminárias, uma vocação antiga que Paulo abraçou com sucesso. E a Verniz, loja de mobiliário que está prestes a abrir no Centro de São Paulo.

A Verniz será inaugurada no dia 21 de novembro, com peças garimpadas pelo Brasil afora. “Vai ter muito mobiliário industrial, móveis das décadas de cinquenta, sessenta… Desde um sofá do Jorge Zalszupin até uma bancada de marcenaria, em madeira maciça”. Paulo revela que a ideia é vender as peças sem restauração, no estado em que foram encontradas – com as marcas e rabiscos do tempo. De fato: para que esconder as marcas do tempo quando se tem tanta história para contar?

 

01_banner

 

COMPARTILHE

Confira Também: