Sete em cada dez brasileiros sem conta bancária são negros. A missão da Conta Black é ajudar a transformar de vez essa realidade

Daniel Trouche - 25 out 2021
Sérgio All, fundador e CEO da Conta Black (foto: Nego Junior).
Daniel Trouche - 25 out 2021
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Trinta e quatro milhões de brasileiros acima dos 16 anos têm acesso precário a serviços financeiros, segundo pesquisa do Instituto Locomotiva, apurada em janeiro de 2021. É uma enormidade de gente — e uma oportunidade gigantesca para empreendedores de olho nessa fatia de mercado.

As fintechs surgiram como alternativa às instituições tradicionais para alavancar a bancarização dos brasileiros. Entre elas está a Conta Black, com foco específico na população negra. A escolha do público alvo faz todo sentido, como explica Sérgio All, sócio-fundador:

“Atualmente, sete em cada dez brasileiros sem conta no banco são afros. Nossa meta é trazer a população negra para o setor bancário e ofertar serviços financeiros, fomentando o afroempreendedorismo e tornando possível a emancipação financeira da população desbancarizada”

Fundada em 2017, a Conta Black foi encorpando nos últimos anos, na base do boca a boca. Hoje, segundo Sérgio, a fintech soma mais de 18 mil clientes, que movimentam cerca de 2 milhões de reais a cada trimestre. 

COMO FUNCIONA A CONTA BLACK 

Para criar uma conta, o usuário baixa o app, insere os dados cadastrais, anexa imagens de RG e CPF, preenche um campo com o nome da mãe e tira uma selfie segurando um documento. 

Após o envio dos dados, a solicitação vai para uma esteira de análise, para certificar que não há fraudes e aquele cliente existe de fato. Aberta a conta, o novo cliente recebe um cartão virtual (através do app) e já está habilitado a efetuar pagamentos, cobranças e transferências. 

O cartão virtual possibilita a compra (pré-paga) em sites, utilizando a função “crédito”. A fintech oferece conta empresarial e serviços de transferências livre de taxas entre os clientes. Outro diferencial é o CashBlack (trocadilho com cashback), sistema que retorna parte das tarifas pagas depois de 13 meses. 

“Todos que abrem a conta têm um cartão virtual Visa, mas nos próximos meses terão cartão virtual e físico da MasterCard”, afirma Sérgio. “Para abrir conta jurídica o usuário deve ter uma conta física com a startup; se for MEI, EI ou Eireli, a aprovação se dá no prazo de um dia.”

O “BOM NOME NA PRAÇA” DE NADA ADIANTOU NA HORA DE PEDIR UM EMPRÉSTIMO

Segundo dados divulgados no site do Movimento Black Money, a comunidade negra movimenta cerca de 1,7 trilhão de reais por ano no Brasil (aproveitando a deixa: confira a nossa entrevista com Nina Silva, CEO do Black Money).

Essa robustez econômica não impede, porém, que negros e negras continuem enfrentando obstáculos no acesso a crédito em pleno século 21. 

“Desde que eu era pequeno, minha mãe dizia que eu teria que provar minha capacidade dez vezes mais do que os brancos”, afirma Sérgio. “E sempre falou para preservar um bom nome na praça.”

Por quase 20 anos, ele empreendeu a iBeats. A agência de publicidade já tinha 30 funcionários quando Sérgio foi em busca de um empréstimo para investir na empresa e acelerar sua migração para o ambiente digital.

“Apesar de ter um portfólio de clientes grandes, o gerente disse que não iria me emprestar porque ‘não era o momento’… Não pude usar o meu ‘bom nome’, como minha mãe tinha dito. Havia um racismo estruturado de uma forma muito fria — era mais um recorte de raça” 

Ter o nome limpo e uma empresa sólida de nada adiantaram. Esse foi o estalo para empreender no setor financeiro, um caminho que nunca tinha passado pela sua cabeça. “Foi quando me aprofundei no tema da desbancarização.”

ANTES DA FINTECH, ELE FUNDOU UMA ONG PARA FOMENTAR O EMPREENDEDORISMO AFRO

Aquela frustração ao receber a negativa de crédito bancário serviu de combustível. Decidido a criar um novo projeto, Sérgio lançou mão do seu networking para entender mais sobre esse mercado.

A escalada empreendedora, porém, teria mais um degrau antes da fintech. Em 2015, o conhecimento adquirido levou Sérgio a fundar, junto com a esposa, Fernanda Ribeiro, a Afro Business Brasil, uma ONG voltada à educação financeira de empreendedores negros:

“Desenvolvíamos ferramentas gratuitas para esses empreendedores. Mas o empresário negro sempre teria a dor com o banco… Então, eu pensei: se os bancos não queriam nos emprestar, poderíamos criar a nossa própria comunidade financeira”

A Conta Black demandou um investimento inicial de 180 mil reais (mais tarde, um investimento-anjo de 1 milhão de reais ajudou a impulsionar a operação). Sérgio pagou do próprio bolso um lote de 5 mil cartões. 

O timing foi propício: uma entidade à qual era ligado realizava um jantar anual e o tema naquela ocasião seria ‘black money’. O empreendedor saiu dali com a assinatura de duzentas contas.

“Tivemos que nos capacitar para as mudanças do mercado, acompanhar as regras que o Banco Central estava impondo, e aos poucos validamos o processo até a Conta Black ser o que ela é hoje.” 

PARCERIAS AJUDAM A ESTRUTURAR OS NOVOS PRODUTOS E PROJETOS

Sem citar o nome do fundo investidor, Sérgio conta que até novembro planeja disponibilizar 1,5 milhão de reais para microcrédito via Conta Black. O objetivo? Facilitar a vida dos sub-bancarizados. 

A Conta Black tem grandes planos pela frente. Um deles é lançar, ainda este ano, uma plataforma de educação financeira. Novos serviços e produtos para pessoas físicas e jurídicas também estão no roadmap.

Para colocar em prática os projetos e investir na expansão, Sérgio tem como parceiros a Qintess, solução tecnológica que vem acelerando os processos, e a Mastercard, na estruturação financeira e conexão com o mercado.

“Queremos oferecer qualidade através de serviços financeiros para que as pessoas possam ter uma jornada mais segura. Temos tudo para crescer rápido pois somos muitos e movimentamos mais de um trilhão de reais”

Entre as novas ofertas a serem lançadas no futuro breve, o empreendedor cita programas de fidelidade com cartões de débito e crédito, carteira de investimentos, maquininha Black Pay, seguros, recarga de celular, além de mensageria via WhatsApp para facilitar as operações financeiras.

COMPETIÇÕES DO ECOSSISTEMA STARTUPEIRO TRAZEM APORTES E VISIBILIDADE

Em setembro, a Conta Black foi anunciada entre 12 startups brasileiras que receberão aportes do Black Founders Fund. A iniciativa do Google para fomentar o ecossistema de empreendedorismo negro em tecnologia destinará 5 milhões de reais às participantes. 

O programa Google for Startups tem duração de 12 meses, explica Sérgio. “Teremos acesso ao investimento semente, a ferramentas, assessoria e advisors”, afirma.

A Conta Black também está entre as dez finalistas da etapa brasileira do Global Tech Innovator 2021. A vencedora participará da etapa final em Lisboa, em novembro, durante o Web Summit, concorrendo com empreendedores de 14 países. 

Essas participações ajudam a colocar a startup em evidência. O ganho de visibilidade é importante para uma fintech que almeja chegar a 1 milhão de contas em cinco anos — sem perder o propósito de vista.

“Vivemos num sistema cheio de castas que coloca a nós, negros, sempre abaixo”, diz Sérgio. “Quando as pessoas vêm para a Conta Black, optam pelo propósito de dar valor ao periférico.”

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DRAFT CARD

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  • Projeto: Conta Black
  • O que faz: Fintech com foco na população negra
  • Sócio(s): Sérgio All e Fernanda Ribeiro
  • Funcionários: 10
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2017
  • Investimento inicial: R$ 180 mil
  • Contato: [email protected]
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