A CORA quer mudar a indústria da moda de dentro para fora, ajudando marcas a estabelecer negócios éticos e sustentáveis

Marília Marasciulo - 24 fev 2020
Laura Madalosso (à esq.) e Raquel Chamis, sócias da CORA
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A indústria da moda precisa de mudanças urgentes. É o que pensam as gaúchas Laura Madalosso, 34, e Raquel Chamis, 36, que têm anos de experiência trabalhando nesse meio. Na visão delas, das estruturas de trabalho à responsabilidade ambiental, nada mais é compatível com a realidade contemporânea.

Em vez de abandonar o setor, Laura e Raquel decidiram mergulhar mais fundo e mudá-lo de dentro para fora. Em 2019 elas criaram a CORA, uma consultoria que ajuda negócios de moda a se tornarem mais éticos e sustentáveis.

“Fazer uma mudança no mercado tradicional não é fácil e requer coragem”, diz Raquel, justificando a inspiração para o nome.

Em seus poucos meses de existência, a CORA já ostenta um belo projeto com a quase centenária Mercur, fabricante de borrachas escolares e bolsas de água quente fundada em 1924.

Com apoio da consultoria, a empresa lançou no ano passado uma bolsa térmica natural, fabricada com caroços de açaí e capa de algodão orgânico. O processo produtivo foi todo pensado para gerar o menor impacto humano, social e ambiental possível.

LAURA VIU DE PERTO A  “EXPLOSÃO” DO FAST FASHION, COM SEUS PRÓS E CONTRAS

Formada em Publicidade, Laura trabalhou por sete anos na varejista Renner, com desenvolvimento de produtos. “É importante [ter estado] dentro para ter uma visão estrutural da indústria da moda”, diz.

Na empresa desde 2008, viu de perto a explosão do fast fashion, que “democratizou a informação de moda, permitindo que as pessoas se expressassem pelo vestir”.

Viu também o lado obscuro da cadeia produtiva, com o desabamento do Rana Plaza, edifício de confecções em Bangladesh, que matou mais de mil pessoas em 2013.

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Em 2015, Laura deixou a Renner e entrou para o quadro societário da Insecta Shoes, que fabrica sapatos veganos, sem couro e com tecidos usados.

“Meu objetivo era me reapaixonar pela moda, criando um produto que poderia, sim, tangibilizar novos comportamentos e mudanças”

Não só se reapaixonou, como entendeu que poderia aplicar a experiência com a Insecta para outros negócios para ajudar mais negócios a se redesenharem, tornando o mercado mais ético e sustentável.

“Foram várias escalas de tomada de consciência. Primeiro vi que era possível resolver os problemas, depois percebi que eles continuavam lá…”

FORMADA EM DIREITO, RAQUEL SE REINVENTOU NA ESCRITA DE MODA

Raquel tinha suas próprias inquietações. Advogada e mestre em Ciência Política, trabalhava no Ministério Público, na área de direito penal, e sentia-se muito infeliz. Até que criou coragem e trocou o emprego por cursos livres sobre temas variados, inclusive costura.

“Queria conhecer a moda desde a base. Mas enviava currículos para trabalhar na área e me desaconselhavam… Ninguém entendia por que larguei algo seguro e com status”

Em 2011, quase um ano após deixar o MP, Raquel arranjou um emprego de vendedora na Pandorga, uma das primeiras lojas de Porto Alegre focadas em design autoral. No tempo livre, escrevia conteúdos para o blog da marca (que hoje seriam chamados de “branded content”).

Na escrita de moda, Raquel se encontrou. Saiu da Pandorga para assessorias de imprensa e chegou a ser repórter na Globo Condé Nast, produzindo conteúdos patrocinados para as revistas Vogue Brasil, Glamour, Casa Vogue e GQ.

Ainda não era exatamente o que ela queria. “Ao mesmo tempo em que sentia uma emoção por ter entrado na Condé Nast, eu vivia em conflito: sentia que a comunicação de moda podia ser opressiva para as mulheres.”

O SETOR EMPREGA MUITAS MULHERES, MAS NÃO DÁ CONDIÇÕES IGUAIS ÀS DOS HOMENS

Raquel deixou a editora em 2016. “Não queria mais ficar repetindo padrões, mas sim usar a moda como uma ferramenta de transformação.” Seu primeiro job pós-demissão foi um frila para criar o manifesto da Insecta Shoes. E assim ela e Laura se aproximaram.

No início de 2019, as duas resolveram unir forças (hoje, aliás, Laura não é mais sócia da Insecta). Cogitaram montar uma empresa de RH especializada em moda, antes de se decidirem pelo formato de consultoria.

Na visão delas, debatendo o tema, tudo precisava começar por uma mudança no sistema de trabalho, das confecções à mídia especializada.

“Por um lado, o setor é um dos maiores empregadores de mulheres; de outro, não lhes confere condições iguais às dos homens em termos de liderança e condições salariais”

Ao ampliar um pouco o foco, viram que para sacudir de verdade a cadeia, era preciso atuar em todos os ciclos. “A moda é uma área com uma grandeza de situações complexas, e nós queríamos abraçar [o máximo possível]”, diz Laura.

COM A CAON LINGERIE, ELAS CRIARAM UMA ESTRATÉGIA DE LOGÍSTICA REVERSA

A decisão foi por apostar em projetos específicos, mas significativos, que pudessem deixar em cada empresa-cliente um legado dos questionamentos que as sócias enxergavam como urgentes.

Vide o projeto junto à Mercur. “Com a bolsa térmica natural, conseguimos mostrar o potencial da sustentabilidade como um todo”, diz Raquel. “Esse produto é quase uma célula transformadora [para os outros processos e áreas da empresa]”.

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“Abraçar” a complexidade do setor significa também englobar os negócios menores. Elas trabalharam do zero toda uma estratégia com a Caon Lingerie, marca que estabeleceu um sistema de logística reversa para recolher calcinhas e sutiãs usados.

As peças em condições de serem higienizadas e consertadas são doadas a mulheres em situação vulnerável; as que iriam para o lixo viram matéria-prima renovável. Tudo é bancado pela venda de novas calcinhas, mantendo o ciclo aberto e fechado, ao mesmo tempo.

OS ANOS NO MERCADO FORAM CRUCIAIS PARA ENTENDER O QUE (E COMO) MODIFICÁ-LO

A bagagem de Laura em gestão e mercado se combina com a habilidade de Raquel em construções narrativas. Assim, unindo competências, elas criam o que chamam de “jornadas de transformação” para empresas.

Essas jornadas incluem, necessariamente, outras formas de se medir o sucesso para além do lucro e o entendimento das vantagens competitivas de uma cadeia sustentável, invertendo-se a velha lógica de extração-produção-descarte.

“A mudança da moda é sistêmica, uma empresa não pode estar isolada, desconsiderando seu papel na sociedade

As sócias preveem faturar 250 mil reais em 2020. Para intensificar o impacto, elas planejam, por exemplo, oferecer mentorias “compactas” para empreendedoras iniciantes ou à frente de negócios pequenos.

“Sabemos para onde queremos ir, por isso é importante mudar o agora, resolver problemas concretos”, diz Raquel. “Nos vemos hoje em uma posição de falar sobre design do futuro — e de já viver nesse futuro.”

 

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  • Projeto: CORA
  • O que faz: Consultoria para negócios de moda em ética e sustentabilidade
  • Sócio(s): Laura Madalosso e Raquel Chamis
  • Funcionários: Apenas as sócias
  • Sede: Porto Alegre
  • Início das atividades: 2019
  • Investimento inicial: R$ 20 mil
  • Faturamento: R$ 250 mil (previsão para 2020)
  • Contato: [email protected]
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