A discussão de gênero expande o número de rótulos possíveis – mas a era da diversidade só virá se jogarmos os rótulos no lixo

Adriano Silva - 21 ago 2020
(Foto: Wikimedia Commons).
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A questão da identidade tem um aspecto libertário: você tem direito de se identificar com qualquer das caixinhas existentes. E todas elas devem ter direitos, deveres, espaço, peso, vez e voz equivalentes.

Por outro lado, a discussão da identidade, ao se balizar por caixinhas, pode ser muito limitadora. Quem disse que preciso me definir pelas caixinhas existentes? E mesmo que você invente novas caixinhas para abarcar novos comportamentos, a necessidade de entrar num escaninho, qualquer que seja ele, será sempre limitante.

Penso que a verdadeira libertação, para sermos quem quisermos ser, só virá com o fim dos rótulos. Palavras são mais dinâmicas do que dicionários. A expressão artística é mais importante do que os cânones da arte. Da mesma forma, as pessoas – e seus anseios e vontades – são infinitamente superiores a qualquer regra classificatória que possamos inventar.

A gente cria as instituições – que depois nos constrangem. Entretanto, os indivíduos devem ter prerrogativa diante de qualquer sistema. As regras derivam das pessoas, e devem servir a elas – e não o contrário.

Se não houver lá fora uma caixinha que traduza, para os outros, e talvez até para você mesmo, aquilo que você deseja para si nesse momento da sua vida, pior para os nossos esforços de compreensão.

Primeiro, trate de ser você. Procure achar saída para as suas insatisfações e fomes humanas e sedes de viver. Só depois tente explicar, para os outros e para si mesmo, quem você decidiu ser.

Penso em Pablo Vittar. É ótimo e civilizatório discutir se o correto é usar “o” ou “a” para se referir, por exemplo, a ele ou ela. Pablo desafiou o glossário convencional que costumamos usar para entender a questão de gênero. Masculino? Feminino? Neutro? Cross? Trans? Outra coisa?

E com isso alargamos não só nossa compreensão da questão, e a linguagem que usamos para lidar com ela, mas nossa própria capacidade de aceitação e de convivência com novas possibilidades, mesmo quando ainda não as entendemos bem.

Da mesma forma, usar “x”, “@” ou “e” para neutralizar palavras que nossa língua crava como sendo “masculinas” ou “femininas”, e assim buscar uma linguagem menos discriminatória em termos de gênero, parece ter, no mínimo, o mérito de nos fazer parar por um minuto e reconsiderar preconceitos e sexismos que reproduzimos desde sempre, sem nos darmos muita conta disso.

ESTRATIFICAR O SER HUMANO EM TIPOS PRÉ-CONCEBIDOS É COMO ENXUGAR GELO

O ser humano adora produzir mapas que lhe ajudem a navegar pelo que está acontecendo. Logo em seguida, no entanto, isso vira norma cartográfica moldada para controlar a navegação. Meu ponto aqui é que as possibilidades humanas serão sempre muito mais amplas do que os mapeamentos que possamos produzir a partir delas.

A caminhada será sempre mais importante do que a bússola que trazemos no bolso. O desejo de descobrir (a si mesmo, acima de tudo) virá sempre antes dos astrolábios que possamos forjar para nos auxiliarem (e nos limitarem) nesse processo. A média dos caminhos palmilhados pelos outros jamais poderá definir a sua própria jornada vida afora.

Penso em Laerte. Uma artista que sempre nos provocou e inspirou reflexão com seu humor inteligente. E que o faz também com a sua decisão, que já tem uma década, de se vestir e de se comportar como mulher.

Aqui, gostaria de parar um minuto. Perceba, nessa frase acima que acabo de escrever, a estreiteza imposta pelas caixinhas.

O que é “se vestir como mulher”? Isso é extremamente redutor. Principalmente para as mulheres – cisgênero ou não. Existe uma maneira de se vestir que as mulheres devam assumir para se afirmarem mulheres? Se não, por que existiria um padrão de vestimenta que Laerte devesse seguir em sua busca pessoal? Em suma: roupa de mulher é qualquer roupa que uma mulher quiser vestir

Da mesma forma: o que significa “se comportar como mulher”? Trata-se de um outro padrão (auto) imposto, construído culturalmente, que não é fixo nem biológico, e que, portanto, é altamente transitório, aleatório e discricionário.

Quando assumimos que um gesto ou trejeito (ou roupa ou cabelo) é “feminino”, me parece que estamos apenas lidando com clichês. Ou com grilhões. Que não fazem bem a ninguém, muito menos às mulheres. De novo: “comportamento feminino” é qualquer ação que qualquer mulher (tendo nascido ou escolhido ser mulher) decida empreender.

Compreender Laerte – que declarou se saber gay desde os 17 anos, e que teve três casamentos como homem heterossexual, sendo pai e avô – é aprender novos termos para assimilar novas possibilidades humanas: crossdressing, crossgender, transexual, transgênero, genderqueer.

Laerte mesmo declarou há um tempo: “Não sou transexual. Estou sob um guarda-chuva que inclui a travesti, o crossdresser, a drag queen, o drag king, e estou satisfeita com isso.” E eu fico torcendo para que Laerte possa ser apenas Laerte. Um indivíduo como eu, em busca de ser feliz consigo mesmo

Quando a vejo tendo que fazer um esforço para se explicar, cunhando a ideia de que ele ou ela é uma “mulher possível”, fico pensando que isso não deixa de ser um constrangimento que impomos a ele ou ela com nossos preconceitos e que tem como motivação nossa sanha discriminatória.

Primeiro, porque ele ou ela, que resolveu usar roupas e acessórios associados às mulheres, tendo nascido homem, precisa de algum modo se explicar para ser entendido e aceito – enquanto eu, que também nasci menino, não preciso ter esse desgaste, simplesmente porque continuo usando roupas associadas aos homens ou porque continuo heterossexual.

Mas também porque, nesse jogo definido pelas caixinhas, fica parecendo que ao escapar de um rótulo o sujeito só pode escolher outro rótulo – o que só faz reforçar o sistema de rótulos.

Ou seja: se você nasceu com um pênis, então você está obrigado a ser e a fazer uma série de coisas pelo resto da vida – assim como há outras tantas que você está proibidíssimo de fazer. E se você não quiser mais ser um “homem”, então você só pode ser uma “mulher”, que é uma caixinha tão ou mais cheia de pressupostos e imposições

E se o sujeito, insatisfeito com a caixinha em que se vê metido, em vez de se sentir uma “mulher” nascida num corpo de “homem”, ou vice-versa, simplesmente buscasse ser ele ou ela mesmo – muito antes, ou para muito além, dessa classificação binária? Como se a sua biologia não pudesse lhe definir atitudinalmente. Como se o indivíduo pudesse fazer de si o que quiser, independente do corpo que habita.

A quebra da ditadura da cisnormatividade poderia, penso eu, nos livrar também dessa ideia de que há uma “personalidade masculina” ou uma “identidade feminina” que por vezes aparece no corpo “errado”.

Só há, quero crer, personalidades “humanas” e identidades “individuais”, soltas no mundo em busca de felicidade. Da mesma forma, gostaria de imaginar que não há um corpo “errado”.

Quero dizer: parece às vezes que mesmo nosso olhar mais avançado sobre a questão da diversidade ainda está submetido à lógica conservadora do binarismo de gênero – o que só reforça a armadilha, ao tentarmos escapar dela.

Penso que a égide da diversidade, tanto na questão de gênero quanto nas escolhas sexuais, só virá quando nos abrirmos a todas as possibilidades do desejo humano – que são infinitas e inclassificáveis

A sanha de estratificar o ser humano em tipificações pré-concebidas é como enxugar gelo – jamais caberemos nessas fichas técnicas que nós mesmos vamos criando ao longo do caminho.

E ampliar o número de caixinhas não resolve o ponto central dessa questão: só alcançaremos a total amplitude da existência que podemos ter quando não houver mais caixinhas.

AS AMARRAS QUE NOS CONSTRANGEM SÃO MORAIS, CULTURAIS, AUTOIMPOSTAS

Nessa perspectiva, os genes jamais poderão influenciar nossa construção mais do que nossas escolhas. E seremos donos de nossos destinos, com direito irrestrito a escolher os comportamentos e estilos que quisermos experimentar.

No vasto território da autodeterminação do indivíduo, as fronteiras são móveis. As amarras que nos constrangem são mentais ou morais, portanto, culturais e autoimpostas – não parecem advir de qualquer limitação biológica.

É claro que haverá pessoas que talvez desejem apenas se transformar numa “mulher” ou num “homem”, no sentido mais convencional do termo. Talvez sua satisfação esteja em se enxergarem plenamente (re)inseridas dentro desses papeis, só que no canto oposto. O que é um pouco como romper com os padrões vigentes para poder atuar de modo inverso dentro dos mesmos padrões vigentes.

E tudo bem, se o desejo for esse.

Mas talvez seja possível ir além. E não apenas virar o jogo – mas desconstruir os próprios fundamentos desse jogo como ele nos é proposto.

Voltemos a Pablo Vittar. Ele ou ela é revolucionária numa série de aspectos. No entanto, reproduz, ao romper com a heteronormatividade, ou com estreiteza do padrão cisgênero, uma série de clichês associados às mulheres.

Perceba como o sistema binário de gêneros sai fortalecido quando você sugere que, para deixar de se ver como um “homem”, é preciso se comportar com gestos comumente associados às “mulheres”, às vezes da forma mais pitoresca, caricatural, previsível — e, portanto, conservadora — possível

Parece mesmo que o sujeito, em seu momento mais radical de libertação pessoal e de ruptura com as amarras sociais, não consegue deixar de ver a si, e as suas possibilidades, a partir das lentes tradicionais dessa mesma sociedade que o prendia num papel arcaico que nada tinha a ver com ele. Parece um pouco que o sujeito continua preso – apenas trocou de cela.

O INDIVÍDUO E SEUS DESEJOS DEVEM FORMAR A SUA CAIXINHA. O RESTO É GAIOLA

A taxonomia, o desejo de classificar as coisas para melhor organizá-las em nosso cérebro, de modo a podermos compreendê-las e discuti-las, é um esforço bem-vindo.

Identificamos padrões de comportamento que tornam mais fácil a compreensão de quem somos e do que queremos. Ainda que isso resulte, logo a seguir, na criação de réguas e parâmetros que existem para nos tolher.

Defendo que cada um de nós possa ser o que quiser ser, do jeito que quiser ser. Os comportamentos e atitudes que desafiam a média, ou a mediocridade, da manada são tão normais quanto o estilo de vida considerado “normal”

Ainda no campo do gênero e da sexualidade, é muito bacana que alguns indivíduos tenham assumido o termo queer (“esquisito”, “desconforme”), esvaziando a intenção espúria do xingamento ao transformá-lo em bandeira.

No entanto, se queremos construir uma era em que o normal seja ser diferente, talvez tenhamos que aposentar o termo queer, mesmo quando usado com orgulho ativista. Afinal, ele se refere, ainda que ressignificado, à nossa dificuldade de lidar com as diferenças, à nossa sanha obsoleta de aprisionar pessoas em clusters impostos ao indivíduo de fora para dentro.

Eis o ponto: o exótico não existe. Nada que é humano pode ser estranho à humanidade.

O excêntrico, o insólito, o disfuncional – o queer – só é visto assim por quem está olhando e estranhando (e temendo) o que vê.

O que lhe choca é, em 100% dos casos, a normalidade do outro. Aquilo que é o óbvio para a outra pessoa, e que representa quem ela é na essência: sua intimidade genuína, o seu feijão-com-arroz.

Ou seja: o desconforto está no olhar e na ignorância e no conservadorismo de quem olha — e não no comportamento de quem está sendo julgado.

Em suma: nada deveria pré-definir as escolhas de alguém em relação àquilo que deseja ser ou fazer consigo mesmo. Nada. O indivíduo é a sua própria caixinha. A única possível. Ponto. Suas escolhas não deveriam ser balizadas por nada que não seja o seu desejo íntimo e a sua curiosidade pessoal. O resto é gaiola

Lembrando ainda que nada é ou precisa ser definitivo, na medida em que os indivíduos também não são elementos fixos, resolvidos e acabados: nossos desejos também podem (e irão) variar ao longo do tempo. E o grande barato da vida talvez seja exatamente poder experimentar tudo aquilo que nos interessa e nos instiga, entrando e saindo das diferentes oportunidades que encontrarmos pelo caminho.

Por tudo isso a questão da identidade aparece muitas vezes como uma série de espelhos pré-fabricados, que nos são impostos (ou que nos autoimpomos), e que terminam por ceifar possibilidades de realização pessoal, de felicidade humana – estradas que deveriam estar plenamente abertas a cada um de nós.

O momento atual é de alargar o cardápio de possibilidades em relação a gênero, sexualidade, raça, estilo de vida, escolha profissional

Talvez o próximo passo seja rasgar o cardápio. E entender que a vida é um bufê self-service, um restaurante all you can eat, e que não há nem deveria haver um chef decidindo o que você vai comer, nem um maître a quem você tenha que explicar o seu pedido.

Vá lá nesse “bufê da vida” e sirva-se do que quiser, quantas vezes quiser, faça a combinação de comidas que quiser em seu prato. (E se não houver nome para isso, azar.)

Faço votos de um mundo em que possamos viver apenas como seres humanos, sem nenhuma outra etiqueta, cada um exercitando sem teto e sem cercas a sua liberdade (e a sua obrigação) de ser o mais autêntico possível na sua relação consigo mesmo.

 

Adriano Silva é fundador da The Factory e Publisher do Projeto Draft, Founder do Draft Inc. e Chief Creative Officer (CCO) do Draft Canada. É autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV A República dos Editores.

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